Presa do Padre Pedro

segunda-feira, maio 31, 2004

Com lágrimas nos olhos

Um animal a meio da noite acordado de perguntas corre à tábua da varanda. A folha recortada do negrilho, eis o que regressa à paciência das mãos, a vagarosa arte de misturar o ouro ao tronco apodrecido da margem, a linha das águas no fundo do vale. Eis o que regressa disfarçado na sombra como se fossem possíveis ainda a voz de um amigo, um nome de casa, a mãe, o lume da lareira que respondessem ao animal acordado de perguntas a meio da noite com lágrimas nos olhos.

domingo, maio 30, 2004

Antes de perder o caminho de casa

Antes de perder o caminho, para sempre, de casa, o caminho do largo, a luz dos degraus em pedra, o muro do pátio, o cântaro, mais uma vez levanto e rodo a cabeça sobre os ombros, o último cigarro nos dedos, um lenço, o bordado epigrama antecipado ao labirinto do futuro, a linha vermelha que parece atravessar a direito o espaço de sombra que leva hoje ao mais difícil coração.

Sul

Já agora, en-calhando, é só descer um cibo...

Os adolescentes

Visitavam esses lugares com medo de morrer,
com medo da excessiva luz da
tarde que os adolescentes temem
como nenhuma outra coisa: mais
que os precipícios a pique
nas águas da presa, mais
que os declives da encosta, mais
que os degraus de pedra que mergulham
na sombra dos pátios onde já ninguém regressa
desde as migrações do levante.
E no entanto voltavam sempre a
esses lugares
sabendo que só poderiam salvar-se
enquanto tivessem os
pulsos atados
à excessiva luz da tarde.
Com medo de morrer.

sábado, maio 29, 2004

Mudar as agulhas

A Presa do Padre Pedro começou, um bocadinho a brincar, com uma ideia ficcional: trazer a estas páginas o entendimento de uma suposta personagem que conheceu a Vila há apenas cerca de dois anos e que, portanto, contava histórias que outros lhe contavam. Num certo sentido, as suas memórias da Vila eram as memórias de terceiros. Esta perspectiva obrigava a não revelar o nome do autor. Acontece que, desde o início, a caixa de comentários acolhe quase exclusivamente interrogações sobre a autoria do blog, sendo raros os comentários que versam o conteúdo dos posts. Hoje a questão é de novo colocada pelo Luís. E obriga a uma de duas decisões: o encerramento do blog, pois a ideia subjacente a esta aventura implica o anonimato, e ele vem sendo recorrentemente posto em causa; ou a sua manutenção, assumindo a autoria.

A tentação inicial do delete blog acabou por esbarrar na vontade de continuar a escrever sobre partidas e regressos e, sobretudo, teve presente o facto de em pouco mais de 15 dias a Presa do Padre Pedro ter atingido praticamente o número não despiciendo de 1300 page views, denunciado algum interesse na sua leitura.

A partir de hoje, pois, a Presa do Padre Pedro muda ligeiramente de rumo. Mas continuaremos a ver-nos por aqui.

José Carlos Barros

sexta-feira, maio 28, 2004

O mundo

É verdade que do alto desta montanha não vejo o mundo todo - mas vejo o mundo todo que me interessa.

Adenda a um post e a um comentário

Um leitor (ou leitora…) pergunta, a propósito do post anterior, «que livro é esse que fala sobre uma aldeia de Boticas», confessando ter gostado muito de um livro «do padre Bento Cruz (salvo erro)». Avancemos, pois, para uma adenda sobre o assunto:

«O Barão» é uma novela de Branquinho da Fonseca, e é seguramente dos momentos mais altos da literatura portuguesa do século XX. Narra a viagem de um inspector escolar a um lugar remoto, e descreve o encontro com esse aristocrata excêntrico durante uma noite em que ocorrem os mais incríveis eventos (o episódio da Tuna, por exemplo, é fascinante e desconcertante). Como se disse na nota anterior, a história decorre numa aldeia do Barroso que o autor não identifica. Fernando Venâncio, em texto de 1994, ficciona um encontro com o Barão (nessa altura com oitenta e um anos de idade), e o aristocrata, que continua a beber que nem uma esponja, confessa-lhe que às vezes vai almoçar a Boticas. Foi aí que pegámos… Ora este não deixa de ser um ponto de partida interessante para, ligando-o a histórias às vezes quase inverosímeis que me contam como sendo verdade da mais verdadeira, imaginarmos o velho Barão a deambular pela Vila…

Quanto ao Bento da Cruz, corrija-se parcialmente: não é padre, mas quase: é médico. Mas é sobretudo um grande escritor português. Nascido em Terras do Barroso, é exactamente o Barroso que serve de fundo a todo o seu universo ficcional. Salvo erro em «Contos de Gostofrio e Lamalonga» conta uma história do velho Perafita que eu ouvi em Boticas com pormenores ligeiramente diferentes. Em Boticas, resumidamente, o conto pinta-se mais ou menos com estas cores: o Perafita (a alcunha vem-lhe de ter pertencido à mítica Banda de Perafita) ia tocar a uma aldeia afastada; nas vésperas da festa, cansado, vai para se deitar e percebe que teria que partilhar a cama com um jovem instrumentista recém-chegado ao grupo; como lhe apetece dormir sozinho, deixa que o rapaz se estenda nos lençóis e, chegando-se à cama, diz: «ó tu, desespe as ceroilas»; o rapaz desconfiou: «e vossemecê quer que eu dispa as ceroilas porquê?»; «pra uma coisa que eu cá sei…», respondeu o Perafita; o rapaz, ouvindo aquilo e vendo-o, resoluto, pronto a deitar-se a seu lado sabe Deus com que malinas intenções, temeu, pegou numa manta e deitou-se no chão. O Perafita, matreiro, conseguiu assim a cama só para si, e conta-se que dormiu a noite toda que nem um anjinho.

quinta-feira, maio 27, 2004

Um livro

Uma obra prima da literatura portuguesa do século XX – O Barão, de Branquinho da Fonseca – passa-se numa não identificada aldeia do Barroso. Que aldeia será essa? De acordo com Fernando Venâncio, em texto de 1994, o Barão às vezes vai comer a Boticas. Que restaurante escolhe? Vai sozinho? Vai com Idalina? E a jeropiga que tem lá em casa? Será mesmo de Chaves? E o medronho, de onde será? De Fiães?

É verdade que lhe bebia mesmo a sério? Será verdade que visitava o Toural nos dias de feira, e que o chegaram a ver no 1010 com gente das Lavradas? E que comprava (pedindo segredo) remédios para o reumatismo na Farmácia Martins? E que, mesmo diante das senhoras da Vila, às vezes se descuidava e largava uns palavrões de carroceiro? Ele, um nobre? Ele, que tinha um cavalo doutorado em Coimbra?

Do Barão (referido sempre com outros nomes – mas só pode ser ele!) tenho ouvido algumas histórias. Histórias que, mais tarde ou mais cedo, será inevitável que partilhemos aqui.

quarta-feira, maio 26, 2004

Nos dias que correm

se a gente não se comove com isto, vai comover-se com quê?

Parabéns, Porto

Parabéns, Porto. Bela bitória, pá. Que é prós galácticos e outros que tais berem como é.

CV

Vítor Baía, daqui a dois minutos, será o primeiro jogador Português a vencer três taças europeias. É pena não ir ao Europeu: uma presença na primeira fase da prova, não sendo muito, também não se pode dizer que lhe fosse manchar o currículo.

Juventude

O Jorge Costa acaba de atrasar uma bola de cabeça a Vítor Baía. Cheio de classe. Com fôlego. Com energia. Ninguém lhe dá mais de quarenta e cinco anos.

Erros de protocolo

Carolina do Mónaco não está com grande cara. Compreende-se. A Taça dos Campeões é das poucas coisas que ela não pode obter dizendo «ó tu, anda cá», ou «papá, eu quero isto e aquilo». O futebol assim não vai longe - já nem respeita a Família Real...

Campeões

Carlos Alberto, Deco, Alenitchev: o jogo ainda não acabou, mas a classe aí está, derramada em campo. Até o Príncipe Alberto, na bancada VIP, fez uma espécie de dissimulado manguito. Ele, imagine-se, que bebia chá como quem mama um fino...

Asas

A página está ainda em construção, mas quem não esteve em Boticas no Passeio TT - Caminhos da Carne Barrosã sempre pode ficar com um cheirinho e, já agora, marcar presença no próximo ano. Agora, cuidado: esta fotografia não é verdadeira... Aqui há marosca... O jipe que se vê na imagem anda a red bull - podia lá ficar atascado...

A Taça

Não foi bem assim que me contaram, mas enfim... (Seja como for, parabéns ao Cerva.)

terça-feira, maio 25, 2004

Isto vai enfurecer alguém...

Em Um Reino Maravilhoso, a propósito da truta, diz Miguel Torga que «só com sofismas a pescam uns filósofos sem filosofia, que vale a pena observar, de cana em riste e saltão no anzol.»

Um projecto de vida

Este meu amigo levou-me em Janeiro a ver o moinho recentemente recuperado. E falou do encantamento que há-de ter tocado o jovem casal que decidira reconstruir o passado e as suas memórias. Do amor com que a obra tinha sido conduzida. Do vagar, do cuidado, da minúcia. «Porque isto só pode ser um projecto de vida», dizia. E continuou o seu discurso sobre a magia do sítio. O rumor das águas descendo a presa. O granito das vertentes. Os amieiros da margem. O jogo de luzes e sombras no gralheiro a juzante. Os nomes que o moinho evocava. As vidas que esses nomes lembravam.

Hoje telefonei-lhe, eufórico: «meu caro, vai ao maisturismo ponto pt barra mdagua e já vês o amor. Afinal o moinho aluga-se ao fim de semana e à quinzena. Qual projecto de vida, qual quê... És de bom tempo... Aquilo é mas é uma questão de cifrões... E está certo. Sempre é uma maneira de manter as coisas. É melhor assim do que vê-los em ruínas, a desaparecerem lentamente, ano após ano, pedra sobre pedra. Não te parece?»

«Claro...», respondeu depois de um longo silêncio. E desligou o telefone.

«Um estrado elevado com colchão de casal»

«Arrendamento para férias. Tem capacidade para quatro pessoas. O moinho é constituído por dois espaços interligados de 45m2 cada, ambos com lareira, funcionando como um todo. No 1º temos as pedras das mós do engenho, 1 sofá cama de casal e a casa de banho. No 2º temos uma zona de penedos com a nascente natural, uma bancada de apoio de cozinha (frigorifico de 17litros, fogão a gás 2 bocas), um estrado elevado com colchão de casal e a zona de refeições. As 2 lareiras permitem cozinhar. A energia electrica é de 12 voltes. Boticas (a 23km de Chaves).»

«Located in Boticas in the north of the country, near the town of Vila Real, Moinho de Água is a unique type of accommodation converted from one of the few working water mills in Portugal. Wholly constructed in granite and wood, the building offers two comfortable guest-rooms (four beds in total)and meets in a zone of flaring boulders with rustic accesses.»

domingo, maio 23, 2004

Frutiqueiros, etc.

Quando falamos na «Ribeira» referimo-nos à ribeira do Tâmega. Talvez seja abusivo incluir na designação a área correspondente ao vale do Terva, separado do Tâmega pela Serra do Facho e o Alto do Viso, a Nascente, e, a Sul, pelo Formigueiro e o Alto da Mó. Mas esta era a designação que os das freguesias serranas do concelho de Boticas davam à gente da Vila, incluindo nela, naturalmente, o pessoal que vivia abaixo da cota dos 600 metros, no sopé do Leiranco, da Granja e Sapiãos até Ardãos, passando por Sapelos e Bobadela.

É normal, pois, que esta gente da montanha chamasse «frutiqueiros» aos naturais de Boticas, porque aí se dava a fruta que chegava a ser moeda de troca para a batata de semente que os da Ribeira iam buscar às aldeias localizadas, em regra, acima dos oitocentos e dos novecentos metros de altitude. Pior era o que chamavam aos de Chaves, ainda que nesse tempo o termo não tivesse o actual carácter pejorativo: como vendiam panelas nas feiras e mercados, os flavienses eram conhecidos por «paneleiros»... Para o pessoal do «Barroso» havia, portanto, os «frutiqueiros das Boticas» e (com perdão da palavra...) os «paneleiros de Chaves»...

A montanha e a ribeira

Bem dizia o padre de Beça aos paroquianos: cuidado com os das Quintas, que já vêem a Vila...

sábado, maio 22, 2004

Boticas para principiantes (1)

COISAS PROIBIDAS:

1- Entrar no café da esquina, pedir uma água das Pedras bem gelada e depois comentar com o Arsénio, em voz alta: «se calhar o fino até estava fresco...»

2- Numa chega de bois no antigo Toural, como quem não quer a coisa, misturar-se num grupo e dizer: «que bela chega... Isto devem ser bois de Montalegre, não?»

3- Perguntar ao Fernando (que os amigos conhecem por Se-bou) se o lobo que ele perseguiu por uma encosta abaixo levava o pêlo eriçado...

4- Chegar à ourivesaria, aproximar-se dos balcões de vidro, olhar com ar entendido e perguntar ao Fernando Inácio, com voz ligeiramente afectada, se as pulseiras são de ouro francês...

sexta-feira, maio 21, 2004

Dois lugares

Vale a pena passar por aqui. Repetidas vezes. Gente que se preocupa com Trás-os-Montes. Com a cultura, o património, o ambiente, a poesia. Gente com um profundo amor a esta terra que ora definha ora se levanta, ora adormece ora desperta, ora nos dói ora a levamos nos ombros. Dois lugares escorreitos. Ambos do Nordeste.

quinta-feira, maio 20, 2004

Antes o Inverno

É isto que separa o Inverno e a Primavera. O Inverno não promete nada: ou promete vento, desconforto, neve, geada, chuva, tempestade. Contra o incómodo, os transmontanos recolhem a lenha num telheiro, acendem o lume, protegem-se do frio, inventam a croça, compram samarras, estendem as chouriças nos lareiros. E isso é já muito, e o que vier por acréscimo, vem: um dia claro a levantar a névoa das presas, o gelo a descer a encosta até ser água de novo, o azul das cumeadas a suceder-se num ondulado de filigrana, ou uma escarpa, batida pela luz razante do meio da tarde, vagarosa, a marcar um limite e a dar-nos a verdadeira dimensão do que somos. A Primavera, não. A Primavera promete tudo: gaiteira, minhota, inconsequente, pueril, enche tudo de flores e promessas. Mas depois desaparece do mapa. E depois regressa, e depois volta a enfiar-se num toco.

Antes o Inverno, a sua vara de lódão.

quarta-feira, maio 19, 2004

Lajedo

Um moinho não se recupera com projectos de arquitectura e cálculos de estabilidade. Mesmo quando é outro o uso que lhe damos: um novo uso. Um moinho recupera-se com o tempo e com a disciplina do olhar: é preciso compreender a oscilação sazonal da corrente, é preciso compreender o modo como cada uma das pedras foi erguida até fazer parte de um todo, é preciso compreender o modo como a luz atravessa os ramos dos amieiros e dos freixos da margem, é preciso compreender como a névoa se levanta em sendo quase a manhã, é preciso compreender de que modo anoitece quando as nuvens anunciam o crepúsculo muito antes de chegar a noite, é preciso compreender o modo como a água descia da presa até ao cubo e circulava no interior, é preciso sentir a memória das traves da moega, do tarambolho, da mó, do rodízio, do rodo, da pá. É isto recuperar um moinho: o tempo, a disciplina do olhar.

Um rumor

O leve rumor da água. Descendo da Fintosa a caminho do Terva. Quase inaudível no seu curso lento na presa do Valdrejo. Mais célere, depois, no leito acidentado do Freixo e do Lajedo. Ao chegar à ponte de Requeixe, no entanto, é um rumor sobressaltado o que se adivinha das margens: daí em diante, até cruzar os Corgos do Pereirinho e do Seixo, o rio corre encaixado e precisa de aprender de novo a respirar com as raízes dos amieiros jovens.

terça-feira, maio 18, 2004

Selecção natural

Scolari esclareceu que a convocatória de Maniche para o Euro/2004 se justifica por se tratar de um jogador polivalente. Pois lembrei-me logo de uma história que me contaram este fim de semana, ainda que, lamentavelmente, tenha esquecido o nome do atleta. Parece que aqui há uns largos anos apareceu em Boticas um angolano, ninguém sabe muito bem como, que queria jogar futebol. Lá o levaram aos treinos do Desportivo e lá lhe fizeram a pergunta da praxe: «então em que posição é que jogas?» Ao que o jovem angolano respondeu: «jogo a todo o extremo, menos baliza»...

Quanto não valeria, nos dias que correm, um jogador com estas características de polivalência?

Cultura e património

Dia dedicado exclusivamente à cultura e ao património: subi ao Lesenho; visitei a capela românica de Sapiãos e o crasto do Muro; almocei vitela assada no Marialva; perdi-me na procura inglória do couto dos Mouros; bebi duas imperiais no Arsénio.

segunda-feira, maio 17, 2004

As técnicas de salvaguarda

Estes carvalhos do Toural, sobranceiros ao jardim e ao edifício dos correios, deviam ter uma réplica no Louvre.

É como na botica

Etimologicamente, Boticas vem de Apotheca. Por isso se costuma dizer que a Vila tem três farmácias: uma junto ao mercado municipal, outra na Carvalheira, outra no nome...

Notas para a cadeira de Teoria de Projecto II

Os agricultores e os pastores intervinham na paisagem e a coisa saía-lhes bem. Aos técnicos formados nas universidades falta-lhes a humildade e (claro) a experiência de séculos e milénios de ofício (coisa não despicienda). Não estranhemos, portanto, esta ignorância sobranceira que se escuda num diploma, como se quatro ou cinco anos a decorar sebentas permitisse o conhecimento dos segredos do mundo. Não estranhemos, portanto, a asneira grossa que, em regra, lhes sai dos estiradores sempre que se trata de intervir na paisagem: um rio, um talvegue, uma cumeada, um vale, a aluvião, a umbria, um bosque ou um lameiro não poderiam deixar de escapar a esse entendimento formatado na leitura apressada dos compêndios. Depois é isto: à medida que os agricultores e os pastores vão sendo extintos, e a transformação da paisagem passa a depender de técnicos encartados, cada vez mais o que vemos olhando em redor é o retrato do que nós próprios somos: animais de sala-de-estar para quem um rio ou uma árvore se constituem como factores de ameaça: um rio, porque transborda das margens e alaga os caminhos e pode chegar ao alpendre da vivenda construída em «estilo rústico»; uma árvore, porque as folhas sujam os passeios de cimento ou de tijoleira a imitar «à antiga». Vá lá que ainda nenhum licenciado se lembrou de forrar a azulejo de casa de banho os taludes da encosta...

domingo, maio 16, 2004

Alturas do Barroso

Por isso, nestes lugares mágicos, os montes e os vales se sucedem: para perdermos a respiração, primeiro, e depois para que seja possível, enfim, respirar.

Se-bou

Um dia, mais tarde ou mais cedo, teríamos que falar dele: do Se-bou. O Se-bou está para Boticas como Aquiles está para o calcanhar. Este vosso criado, por exemplo, foi através dele que chegou à Vila. Havendo mais marés que marinheiros, no entanto, recomenda a estrutura narrativa que nos contenhamos. É o que nos propomos fazer. Não perde o leitor pela demora.

sábado, maio 15, 2004

Um pouco à distância

Uma noite de copos, em véspera do Passeio TT - Caminhos da Carne Barrosã, e de novo essa característica notável da gente de Boticas: querem-nos como se lhe pertencêssemos. Tive que sair à francesa e deixar umas quatro imperiais em fila indiana. Neste momento escrevo na Estalagem e pareço um adolescente apaixonado: mais logo começa a viagem todo-o-terreno por lugares que, em boa verdade, não existem. Espero que, como no ano passado, uma névoa de romance nos separe das cumeadas azuis e do granito dos muros das propriedades. Porque foi assim que aprendi a gostar do Barroso: um pouco à distância mesmo se estou perto. Como se aquilo que vejo, e mesmo aquilo que sinto, me chegasse através da memória que outros têm desses lugares.

sexta-feira, maio 14, 2004

Proposta

Ainda não temos links (os novatos nestas coisas é assim: voltas e mais voltas pelo método da tentativa e erro). Mas haveremos de começar seguramente pelo Abrupto. Não tanto pela qualidade do blog (que desde logo o justificava), mas sobretudo porque é difícil passar um dia em Boticas sem que me falem de Pacheco Pereira: dos livros que escreveu sobre a Vila, de quando aí deu aulas, de quando vivia em Pinho, dos artigos sobre os alunos que chegavam às aulas e lhe contavam histórias sobre os lobos da serra que às vezes desciam aos povoados. Entretanto, e até termos link próprio, fica, pois, este convite para partilharem as suas viagens, memórias, perplexidades e reflexões.

Onde se Juntam os Rios

Um nome nunca se reduz às sílabas que o compõem nem às coisas físicas para que remete. Eu posso dizer «Constantinopla» e nem por um instante sentir a vibração que essas sílabas transportam. Eu posso dizer «Onde se Juntam os Rios» e achar que o universo estremece no receio de não estar à altura deste simples enunciado.

Boticas no Brasil

A Presa do Padre Pedro ainda mal começou a sua aventura e já chegou ao Brasil. E, imagine-se, com uma fotografia e tudo: uma vista panorâmica da Vila. Mas com a fotografia chegou também um desafio: o de explicar a Santos Passos o segredo das trutas recheadas com presunto. Alguém se atreve a colaborar através da caixa de comentários ou do mail? É que se não respondemos, ficamos mal no retrato...

1,2,3 Experiência

Claro que aqui não se apagam comentários... É essa, no entanto, a indicação em que tropeça quem fôr aos comentários do post anterior. Como se depreenderá, foi uma azelhice do administrador. Espero que o sistema de comentários, a partir deste momento, esteja em ordem...

quinta-feira, maio 13, 2004

Uma fama merecida

Quando mais um marmanjo chega a Boticas a gabar os centros comerciais de Lisboa e do mundo, e os grandes magazins de Paris da zona da Ópera, há sempre alguém que se ofende e comente com algum desprezo: «olha este que vem de carrinho...» Porque Boticas, a este nível dos espaços multifuncionais e multidisciplinares, tem uma tradição ímpar e já secular de que os naturais muito se orgulham. Não é para menos... Lamentavelmente não cheguei a conhecer o comércio do senhor Miranda, na zona da baixa, a escassos cem metros da igreja da Senhora da Livração. Mas a fama precede a simples enunciação do seu nome: lá se vendiam parafusos e chocolates, tabaco e anzóis, bicicletas e esparguete, vassouras e tintas plásticas, louça fina e alguidares, açúcar e zarcão, bacalhau e ferragens, vinho e aventais, pregos caibrais e caixilharias, farinha triga 33 e fechaduras de portões de garagem. Havia lá de tudo. E não se diga que esta tradição se perdeu: em que outro lugar do mundo, como acontece ainda no senhor Junqueira, é possível comprar o óleo para a revisão do carro, beber uma cerveja gelada, escolher um fogão de lenha com tubo incorporado, pedir uns amendoins e adquirir uma mobília de quarto?

A noite

Em Boticas, no Inverno, não anoitece. Há uma sombra que, de súbito, ao fim da tarde, cai desamparada sobre o vale. Nunca consegui aperceber-me desse instante em que não é já dia mas não é ainda noite, e uma sombra cai desamparada sobre o vale. O senhor Guilhermino diz-me que é preciso tempo. Que talvez um dia me seja dado assistir ao milagre dos crepúsculos e, mesmo, da luz que por algum tempo, quando vem a noite, fica suspensa das cumeadas. Em Boticas é preciso tempo para quase tudo.

Como entrar com o pé direito

Já que estamos mesmo a começar pelo princípio, aos interessados em visitar Boticas convirá saber que não há melhor iniciação que participar na aventura nocturna da caça ao piopardo. Há uma única alternativa, se pretende mesmo entrar com o pé direito: aproveitar a proverbial hospitalidade da terra e ganhar um cabrito. Isto não deveria ser dito assim em público... Mas já que estamos mesmo em maré de confidências, aí vai uma dica cuja garantia de sucesso ficará por minha conta: dirija-se ao café do Arsénio ou à Tasquinha Regional e pergunte pelo Zé Cândido; diga que vai da minha parte; e pergunte-lhe que história é essa do rosário...

quarta-feira, maio 12, 2004

Começo

Hoje quase me parece estranho dizer que só fui a Boticas pela primeira vez há pouco mais de dois anos. Porque, em boa verdade, sinto que foi lá que passei toda a minha vida: o que vivi realmente e o que vivi por interpostas pessoas. Que, sei-o hoje, é quase a mesma coisa. E pronto. Quem nos acompanhar nesta aventura já sabe ao que vem: às Terras do Barroso. A Boticas. Podia ser pior.