Presa do Padre Pedro

quinta-feira, junho 17, 2004

Afinal não era apenas um intervalo...

Não estava previsto que esta aventura acabasse assim tão cedo. Era para durar, pelo menos, um ano. Durou um mês. E neste momento eu desejava muito agradecer a quem nos fez referências, a quem passou por aqui, a quem nos escreveu. Haveremos de continuar, claro, a ver-nos por aí...

quinta-feira, junho 10, 2004

A Pesca (intervalo)

É difícil escrever sobre Boticas quando estamos a arrumar a trouxa para fazer 800 km a caminho de Boticas...

quarta-feira, junho 09, 2004

Não é fácil

Isto de haver umas eleições europeias algures entre a ressaca do maior festival de rock ou-lá-que-é do mundo, o trânsito de Vénus, um feriado à quinta-feira com o Algarve e o rio Mente a pedi-las, a qualificação para os Jogos Olímpicos, as declarações de Scolari, o Euro 2004 e a pré-época da Super-Liga, enfim, é obra.

Esquadrilha República

O trânsito de Vénus suscitou a nossa curiosidade. Mas pouco mais. Em boa verdade tudo se resumiu à observação de um minúsculo ponto negro contra o disco solar. Já estávamos à espera. Sabíamos antecipadamente a que horas a pequena borbulha se alinharia com o sol, sabíamos exactamente a que horas deixaríamos de vê-la, conhecíamos todos os pormenores associados ao fenómeno. Sabemos até o dia exacto em que o trânsito ocorrerá de novo e o não voltaremos a ver. Uma chatice, portanto.

Pois fenómeno diferente, de outra dimensão e alcance, sucedeu em Boticas no dia 29 de Abril de 1920: às 15 horas e 40 minutos, surgindo pela parte sul da Vila sem anúncio prévio, atravessando a veiga, seguindo depois na direcção do Antigo do Couto de Dornelas, dois aparelhos da esquadrilha República riscaram o céu e deixaram durante algum tempo o seu barulho ensurdecedor a ecoar de cumeada a cumeada. Houve quem fugisse; houve quem gritasse; houve quem se fechasse na igreja e pedisse a protecção divina; houve quem apenas ficasse, maravilhado, suspenso, a olhar o céu.

Pela primeira vez na história do mundo, dois aviões cruzavam a Vila. O Ecos de Boticas, na sua edição de 23 de Maio desse mesmo ano, realçava «o barulho estranho produzido pelos aparelhos» e a surpresa causada pelo avistamento dos «navios aéreos».

terça-feira, junho 08, 2004

Oculoss

Difculdades edcrever texlado òculos falsifocafos quee me vendaram como opficiais Venus e qwase cegueei blogu segue dentdo momebtos.

domingo, junho 06, 2004

Isto dos poemas é uma chatice

Um leitor anónimo queixa-se de o blog estar muito poético. A gerência anota. Compreende. E intui, lamentando, que o leitor seja daqueles que, de segunda a sexta, está devidamente protegido pela carapaça da prosa e se exercita, oito horas por dia, a acenar reverentemente com a cabeça. É o costume. Quem teme a poesia, geralmente tem medo de ser livre. Daí, em regra, não vem nenhum mal ao mundo. Pelo contrário, o mundo costuma agradecer o servilismo militante. E até o premeia com um bacalhau no Natal e uma chouriça, ou com uma ocasional ordem de serviço laudatória. Acontece que o leitor vem aqui, pelos vistos, ao engano. E não há nada como desenganá-lo assim sem meias tintas, desde já, curto e grosso: amanhã, se Deus quiser, há-de haver mais poesia. É o caralho, mas é assim mesmo. O leitor refractário amanhe-se como puder, que o problema ultrapassa-nos...

sábado, junho 05, 2004

Pré-História

Lembro-me do tempo em que os negócios de gado, no Toural, se fechavam com um aperto de mão: pessoas que nunca leram um livro, às vezes analfabetas, conheciam, como poucos autores de romances, o valor da Palavra.

sexta-feira, junho 04, 2004

Versos ditados no restaurante por uma estudante de Letras

*
quem
não erra
não ama

*
quem
não ama
não erra

*
quem
não erra
não vive

*
quem
não vive
não ama

Contributos para uma discussão em curso

Não me parece que os transmontanos, que se podem e devem queixar de tantas coisas, se possam queixar da falta de auto-estima. Embora talvez, às vezes, se possam queixar do contrário.

A quem regressa

O que respondes a quem pergunta
pela sombra dos terraços da infância?
Que um bosque de bétulas se perdeu junto
aos retratos da cómoda, ao ondular da

vaga intempestiva da idade, à mais difícil
das perguntas, ao perímetro dos ulmeiros
velhos? Nenhuma palavra
regressará à vereda inúmera dos teus anos,

nenhum lugar acolherá as mãos que
se desprendem do primeiro lume na ilusão
de que poderão trazer ainda o pequeno

espaço da varanda, os degraus de pedra,
o telheiro, as fotografias guardadas num
armário de que se perdeu a chave.

quinta-feira, junho 03, 2004

Diálogo sobre a coragem

Um: «E fica sabendo que um destes dias, em o apanhando a jeito, prego-lhe um tiro».
O outro: « Pregas-lhe um tiro? Merece... Mas confesso que não te fazia tão cobarde: pensei que lhe fosses às trombas».

quarta-feira, junho 02, 2004

Uma história verdadeira

As mulheres, em regra, não sabem pescar. Geralmente nem começam, a ver no que dá. Mas, começando, o mais certo é que desistam cedo: por causa dumas ougas no alinhamento de pedras do gralheiro; por causa do anzol ou das medalhas que se prendem nos amieiros da margem oposta, na zona de retaguarda do lançamento ou no cachecol de duas voltas; por causa duma urze no caminho de pé posto; por causa do vento ou da falta dele; por causa do calor e por causa do frio. Aos peixinhos, no Verão, sentadas numa cadeira de piquenique, com a cana a quarenta e cinco graus e a bóia muito parada nas águas da presa, enfim, ainda vi algumas. Agora às trutas, népia: é preciso andar e penar, é preciso guardar algum silêncio e ceder à tentação de falatar do pulso aos cotovelos, é preciso menos táctica que estratégia – e isto, claro, condiciona.

Agora imagine-se o que seria acompanharmos uma cavalheira nas trutas e ela levar-nos a palma: não uma vez, numa jornada sem exemplo, mas com frequências estatisticamente relevantes... Enfim, uma daquelas coisas que só é curial que aconteçam nos pesadelos da última semana de Fevereiro, durante as noites intermináveis, cruéis, que antecedem a abertura da pesca ao salmonídeo...

Pois eu conheço uma senhora assim, exímia na arte de pescar à minhoca (sem bóia, claro, apenas com o anzol e uma ligeira chumbada). E confesso que, embora de costume me desviasse dela quando a topava de longe concentrada nas artes da pesca (para evitar a vergonha de compararmos o número e tamanho dos exemplares capturados...), sempre senti um especial fascínio pelo seu estilo e pela sua eficácia.

O marido da dona M., como se compreende, é que não achava grande pilhéria a uma situação que chegava a ser humilhante para ele em termos gerais e para a humanidade em particular. E de uma certa vez (não posso divulgar as fontes, mas tenho-as como fidedignas...) em que ela terminara a jornada no Beça de cacifo mais de meado com trutas palmeiras e ele não se estreara sequer, aconteceu o inevitável: chegarem à Vila com os cacifos trocados. Ele, com um sorriso de orelha a orelha, rasgado e manhoso; ela, com um sorriso à Gioconda, daqueles sorrisos que só uma mulher sábia consegue compor, e que a gente compreende que lhe vem muito de dentro e que resume toda a generosidade de que algumas (tão poucas!) almas são capazes.

terça-feira, junho 01, 2004

Convocatória

O sr. ministro Arnaut, em carta sobre o Euro-2004 ontem remetida aos lares portugueses, insiste que «estamos todos convocados». Eu parece-me que já era tempo de deixar o Vítor Baía em paz, e que estas gracinhas eram escusadas...

A excessiva sombra

[Loja Nova, 1972]

Havia uma sombra que era também
a sombra desse tempo
o balcão corrido em madeira envernizada
o aparador do séc. XIX
uma reprodução de Rubens
a roupa de qualidade vendida a
preços inverosímeis

como se o comércio fosse uma arte
contrária ao poder da usura
e houvesse uma moral implícita
ao cálculo das margens
de lucro

Repugnava-o a injustiça
a menoridade de um tempo sem
claridade nem simetria

Tinha a convicção de que
a civilização e a estética
são conceitos indissociáveis
que alguém podia ser mais justo
se vestisse melhor
ou atacasse os sapatos num esforço metódico

Quando morreu
apontando à cabeça o seu
revólver ponto 38
imaginou por instantes a sombra desse
tempo a desprender-se vagarosamente
do balcão do comércio

a diluir-se no ar