Presa do Padre Pedro

sexta-feira, julho 30, 2004

Um caminho

Depois dos incêndios, o caminho da infância que leva às vinhas do Crasto é como se tivesse deixado de existir. Quer dizer: é também como se a memória do que nele existiu ao longo dos anos se tivesse apagado para sempre.

quinta-feira, julho 29, 2004

Memória de outras cinzas - as mesmas

No Abrupto, Pacheco Pereira escreve sobre Boticas:

«O INCÊNDIO DE BOTICAS
é como se fosse na minha terra, aos pés de minha casa. Também eu tive “casa” em Boticas e quando lá cheguei tinha havido um grande incêndio, a sul do que ocorreu agora, na mata que ia de Boticas para a Praia de Vidago. No Inverno, as luzes do carro eram “engolidas” pelo negro que cobria tudo à volta. Não sabia que este fenómeno existia: por mais brilhantes que fossem os faróis, máximos ligados, e a subida da encosta para Pinho era feita quase às escuras. A mesma escuridão caminha agora na direcção do Larouco, monte de nome mais antigo que a colonização romana, e as faces dos que combatem o incêndio são de meus amigos e conhecidos. Corrijo: em Boticas, os conhecidos são amigos. Espero que tudo acabe em bem, ou em menos mal.»


quarta-feira, julho 28, 2004

Ainda a caixa de comentários

Luís: meu caro amigo:

Podes continuar a dar cacetada valente nos posts e nos poemas. Podes achar que a minha poesia está desactualizada e que «Feynman Lectures on Physics» é a obra prima da literatura mundial. E que o mundo seria exactamente igual se Proust ou Shakespeare nunca tivessem existido. Podes até assegurar que nunca lerei essa obra prima da literatura mundial – porque escaparia ao meu entendimento. Podes isso tudo, Luís. E tudo bem. Até podes nem perder tempo no blog e passares directamente à releitura do James Gleick e do Mandelbrot ou embrenhares-te no Triângulo de Sierpinski ou no Atractor de Lorenz. Até podes dizer que neste blog há “défice democrático” e “fachismo”. E achares que não tenho o direito de achar burgesso um comentário não assinado. Até me podes foder a molécula.

E mais, Luís – e aí é que eu queria chegar: até podes insinuar que te apago os comentários. Sabes porquê? Porque somos amigos. E um amigo só insinua uma coisa dessas se estiver distraído. Tenho a certeza. E portanto não há crise.

Um abraço.

Itálicos na caixa

PioPardo: ajude-nos lá a compreender como meteu este comentário em itálico: «This post has been removed by the author». Obrigado.

Cinzas

Hoje estamos todos de luto.

domingo, julho 25, 2004

Incêndios

Nem sempre os incêndios levam consigo riqueza e património. Nas suas labaredas vivas, às vezes lavram apenas contra a asneira e a irresponsabilidade.

Vidoeiros

No primeiro quartel do século XX, no Ecos de Boticas, escreviam-se artigos a lamentar e a chamar a atenção para a destruição criminosa de soutos e carvalhais. Falava-se ainda de um outro crime: o dos vidoeiros de terras do Barroso cortados a esmo e vendidos ao preço da chuva. Essa gente deverá agora andar às voltas no túmulo. Mas nem esse desassossego nos sobressalta ou comove.

Valdegas, séc. XIX

No concelho de Boticas os pinheiros começaram a ser plantados à experiência em 1890. Talvez não fosse mau avaliarmos os resultados dessa experiência e dessa prática levada à exaustão. Em cento e catorze anos era de supor que aprendíamos alguma coisa.

sexta-feira, julho 23, 2004

Poemas a metro, 1

O universo

Regressas à casa deserta e no silêncio compreendes que
se estilhaçam vidros, que a memória dos gestos antigos
é anterior a esses gestos, que a sombra explode nos pátios
até a luz se misturar na inúmera poeira estelar.

E compreendes que os astros se movem
quando respiras, que a formação das galáxias
coincide com o momento preciso em que mudas de lugar
um púcaro ou o cântaro com água.

O universo expande-se porque alguém ergueu uma casa
para que outros regressem mais tarde
à sua ruína, porque alguém plantou uma árvore

e pressente o seu imenso deflagrar.
Sem a casa ou a árvore, o universo
expandia-se no tempo sem a memória do tempo.

quinta-feira, julho 22, 2004

A veia lírica

 

Aqui há uns tempos fui ao médico. Andava com uns problemas de rins. O senhor doutor remirou e esquadrinhou as análises, topou lá umas partículas estranhas, fechou-se em copas e mandou-me repetir os exames laboratoriais. A dor aguda persiste. E eu já me quer parecer que isto hão-de ser é umas partículas formadas nas primeiras estrelas do universo que, por osmose, migraram aos órgãos. Acabo de lhe telefonar a expor a tese. Em vão: o desassisado do médico começou-se a rir do outro lado da linha (mentira: do outro lado do satélite: é que foi uma ligação por telemóvel). E sai-se-me com esta: “vê-se mesmo que anda nas nuvens... O amigo deve ter é uma veia lírica entumecida...”

Poética

Aos interessados no assunto dos Muões (v. post abaixo), permitia-me recomendar um artigo em que se introduzem os conceitos de relaxação, rotação e ressonância do spin do muão positivo, se apresentam cálculos teóricos da relaxação transversal no limite de Van Vleck e se procura responder à questão altamente poética que se pode enunciar do seguinte modo: a interacção quadrupolar é efectivamente desacoplada a 0,6T?

Poeira

É uma sina: os poemas líricos deste blog levam pancada da grossa. O que significa, antes de mais, leitores pouco acéfalos. E isso é bom. Agora lamenta-se a falta de actualização dos poetas, num tempo, imagine-se, em que “o Big Bang até está na moda”. Ao invés da proposição do poema «Uma Árvore», em que se afirma que “Tudo começou com a água”, este leitor propõe: “Tudo começou com a energia, só depois os primeiros Quarks, só depois os primeiros Muões”. E acrescenta: “é altamente poético” saber que “os nossos corpos são compostos por partículas formadas nas primeiras estrelas”. Concordo. Haveremos de voltar ao assunto.
 
Embora me persiga a estranha suspeita de que o Universo é essencialmente poeira... O que – de qualquer forma, reconheço – não deixa de ser “altamente poético”.

terça-feira, julho 20, 2004

Uma árvore


 
Tudo começou com a água.
Só depois a terra.
Só depois o fogo.
Só depois o ar.
Para que nascesse uma árvore
e as suas folhas pudessem
respirar.

Uma árvore (outra versão)

Tudo começou com a água.
Só depois a terra.
Só depois o fogo.
E antes da árvore
o ar
para que as suas folhas
pudessem respirar.

segunda-feira, julho 19, 2004

O Tempo

Quem não nasceu a 19 de Julho que atire a primeira pedra.

domingo, julho 18, 2004

Limites

Nos Cornos das Alturas, Pégaso haveria de hesitar antes de se armar em pássaro.

sexta-feira, julho 16, 2004

A beleza e os seus perigos

Descendo do Pardo pelas margens do Terva, passando por Onde Se Juntam Os Rios a caminho das Tílias, foi essa planta que sempre te fascinou: a dedaleira (ou campaínhas; ou abeloura). Com os seus cachos. Com as suas corolas de um cor-de-rosa intenso cuja abertura fechavas com o indicador e o polegar da mão direita e depois desfazias na palma da outra mão, num movimento rápido, por forma a ouvires o seu estralejar.
 
Pois sabes hoje que desta planta belíssima (Digitalis purpurea) se extrai uma substância, a digitalina, utilizada na medicina como estimulante cardíaco. Mas sabes também que é venenosa. Que o seu uso implica riscos elevados. Que a dedaleira tem uma acção tóxica intensa sobre o sistema nervoso. Que a sua ingestão pode causar alucinações. Que ingerida em grandes quantidades pode mesmo ser mortal.
 
Nenhuma novidade, portanto: há muito aprendemos que a beleza é altamente perigosa.
 
Com isso temos que viver – com esses perigos.

quinta-feira, julho 15, 2004

A Arte de Furtar

Pareceu-me reconhecê-la logo. É verdade que dezasseis ou dezassete anos mais tarde temos pelo menos dezasseis ou dezassete anos a mais: mas uns olhos daqueles não esquecem: só podia ser ela. Encontrámo-nos num grupo de amigos comuns, numa noite com muito álcool e música techno, e ficámos ambos à defesa. Pensava eu. Acontece que a Luísa, ao segundo gin, começou a falar-me como se nunca nos tivéssemos conhecido. Como se nunca nos tivéssemos beijado. Como se nunca tivéssemos dormido e acordado juntos. Como se a memória desse tempo antigo não tivesse marcado a navalha na pele uma cicatriz indelével.

A conversa levou-nos aos livros. Livros que não conhecia e que começava a sentir que podiam afastar-me dela irremediavelmente. A Arte de Furtar, por exemplo. O quê? Eu não conhecia o Manuel da Costa? Defendi-me. Invoquei leituras, autores, edições: o Borges, o Borges do Jardim dos Caminhos que se Bifurcam, o S. Paulo do Pascoaes, o Italo Calvino, a capa verde da edição de 1960 de As Mãos e os Frutos, um exemplar autografado da Carta ao Futuro. Tudo muito certo: mas como era possível que eu não conhecesse o Manuel da Costa?

A coisa correu mal. Luísa afastou-se ostensivamente, colou-se ao Afonso, saíram juntos, muito íntimos, com alguns risos a elevarem-se acima da linha de fumo e a sobreporem-se à música de bombos de feira.

No dia seguinte acordei a meio da manhã. A boca numa lástima, o estômago numa lástima, a cabeça numa lástima. Levantei-me, tomei o pequeno almoço no Arsénio e corri à livraria do Carlos a perguntar se não tinha a Arte de Furtar, de um tal Manuel da Costa. Que raio: tinha vendido no dia anterior o único exemplar. “Uma sujeita: ontem à tarde. Vinha comprar o Público, acabou por levar o livro. Mas posso pedir à distribuidora, vê lá, é coisa de quatro ou cinco dias.”

Que não, obrigado. Regressei ao Arsénio. Pedi uma imperial. Mergulhei no Diário de Notícias. O sol entrava pelo vidro grande da Avenida de Sangunhedo e incomodava-me. Levantei-me para mudar de sítio quando a Luísa acabava de entrar: calças de ganga, camisa de quadrados, uns óculos escuros, cara de quem dormira pouco. Fiquei especado a olhá-la. Era como se não me conhecesse. Sentou-se na mesa do canto, levantou o braço a exigir a atenção do Arsénio. Aproximei-me: “Como está, Luísa?”. Olhou-me com despeito, que desculpasse, que não me conhecia, que lhe desse licença. Pediu uma água das Pedras.
Paguei e saí. Fiquei por instantes no passeio de granito polido, as pessoas passavam sem pressa. E, de súbito, uma mulher aproxima-se, olha-me, pára, olha-me de novo, corre na minha direcção, abraça-me, afasta-se ligeiramente, olha-me mais uma vez, abraça-me de novo. “Lembras-te de mim? Meu Deus, há que séculos que a gente não se vê...” Era a Luísa e sorria. Trazia um vestido de Verão, esvoaçante, verde e azul. E, na mão esquerda, o livro de Manuel da Costa: a Arte de Furtar. Virei-me num sobressalto, olhei para o interior do café através do vidro grande: mas não havia ninguém na mesa do canto: não havia nenhuma mulher, nenhum copo, nenhuma garrafa verde de água com gás.

Os cotovelos apoiados no balcão, a cara amparada nas mãos, o Arsénio seguia com o olhar os movimentos de uma mosca que subia e descia, em piruetas aflitas, investindo contra a vidraça do café deserto.

quarta-feira, julho 14, 2004

O recreio

Com as crianças em férias, com o recreio deserto, a sombra destas árvores, de súbito, parece não fazer sentido.

Praticar desporto

No tempo em que não havia infraestruturas desportivas (como agora se diz), houve uma época em que se jogava voleibol no Largo da Senhora da Livração, num espaço rectangular, bem definido pelo alinhamento das árvores, entre o velho campo da bola (cujo declive longitudinal rondava os 7%) e o antigo edifício dos Bombeiros, entretanto demolido. Pelo fim da tarde juntava-se ali um conjunto heterogéneo de pessoas que, com mais ou menos técnica, com maior ou menor flexibilidade na ponta dos dedos, com maior ou menor desconhecimento das regras daquela modalidade um bocadinho abstrusa e quase inverosímil, se exercitava em dois grupos separados por uma rede. Quando a bola subia um bocadinho mais, e acabava por bater nos ramos da Gleditsia triacanthos, o ponto era anulado, com a justificação de que o esférico tinha batido «no tecto do ginásio». Acrescente-se que a Gleditsia é uma espécie com espinhos muito afiados, e que esta em especial, secular, os apresentava quase de palmo. Não era fácil praticar desporto nesse tempo, não se pense...

terça-feira, julho 13, 2004

Terra de Abril (Vilar de Perdizes)

O filme, com realização de Philippe Constantini e Anna Glogowsky, foi rodado em 1976 e 1977. As minhas deambulações por Vilar de Perdizes começaram em 1980. Três escassos anos separam as imagens do filme e as imagens que tenho na memória desse tempo. A aldeia, no entanto, mudou imenso: sofrida, sombria, quase medieval, no documentário a que ontem à noite assisti pela primeira vez; iluminada, viva, exaltante, na memória que tenho dela em 1980. Agora só resta saber se Vilar de Perdizes mudou assim tanto nesses três anos, ou se a memória me traiu por ausência de distanciamento relativamente ao que, naquela altura, atacado por um estranho encantamento, vi e vivi.

segunda-feira, julho 12, 2004

A perfeição

Casou bem: gabava-se de que a mulher tinha um corpinho decente, era muito rica e era pouco dada às leituras, à metafísica e, em geral, às coisas do espírito.

Província

Santana Lopes promete desconcentrar. Para já, estão previstos um Ministério da Agricultura em Santarém, um Ministério da Economia no Porto e uma Secretaria de Estado do Turismo em Faro. Não é altura, pois, de Boticas adormecer à sombra centenar dos carvalhos do Toural: é atacar. A Secretaria de Estado dos Produtos Locais ou o Ministério do Interior, por exemplo, não se pode dizer que ficassem mal nas novas instalações do Pavilhão multi-usos...

As saias

Há quem tenha que experimentar para perceber o alcance do rifão de Vilarinho Seco: «As rodas das saias das mulheres não devem roçar muito umas nas outras.»

NOVIDADES

As novidades são: a), a Presa do Padre Pedro vai continuar; b), vamos ter um novo Governo; c), os islandeses Sigur Rós editam hoje «Ba Ba Ti Ki Di Do»; d), o Sporting comprou mais um jogador de que não recordo o nome; e), o País parece que está de férias da Pátria.

sexta-feira, julho 09, 2004

ATENÇÃO, MUITA ATENÇÃO

A PEDIDO DE VÁRIAS FAMÍLIAS (NÃO MUITAS, CONFESSEMOS AQUI QUE NINGUÉM NOS OUVE...), ATENÇÃO, MUITA ATENÇÃO: NOVIDADES EM BREVE.