Presa do Padre Pedro

terça-feira, agosto 31, 2004

É-uma-emoção-que-só-visto

Já que estamos em maré desportiva, valerá a pena falar aqui duma modalidade fascinante, emocionante, exuberante, competitiva. Nem sei como não é olímpica... É mais ou menos assim: cerca de 20 automóveis descapotáveis, desconfortáveis, monolugares, andam às voltas num circuito - tocando-se, colidindo ao de leve, abastecendo ao cronómetro, reentrando no asfalto -, e depois, no fim, uma bandeira de xadrez dá as boas-vindas ao Michael Schumacher.

sábado, agosto 28, 2004

Os Jogos Olímpicos, 7

Ah: e há também aquela modalidade fantástica e emocionante: gente com bom aspecto, responsável, adulta, aproxima-se da linha de partida; depois ouve-se um tiro; e depois começam todos a marchar, durante 50 Km, a abanar o cu...

sexta-feira, agosto 27, 2004

Os Jogos Olímpicos, 6

O taekwondo é seguramente uma das mais fascinantes modalidades olímpicas. Hoje, durante um combate, o austríaco Tuncay Caliskan venceu por KO o atleta Ber Bertrand Gbongou, da República Centro Africana. Caliskan pregou-lhe um pontapé no lado esquerdo da cabeça (pelo que foi muito aplaudido de pé) e com isso assinou a Gbongou uma ordem de marcha imediata para as urgências do hospital Tzanio. O austríaco, por este caminho, ainda vai às medalhas.

Os Jogos Olímpicos, 5

Garantem-me que hoje em dia já não existe um verdadeiro espírito olímpico. Que agora só contam as medalhas, as vitórias, os títulos. Não concordo. E trago em defesa da minha tese o espírito olímpico demonstrado pelos nossos futebolistas, nomeadamente contra o Iraque e a Costa Rica, para não ir mais longe.

Os Jogos Olímpicos, 4

É impressionante a lista dos casos de doping identificados nos Jogos Olímpicos desde 9 de Agosto. É quase todos os dias. Aquilo não é uma Aldeia Olímpica, é uma Farmácia de Serviço.

Os Jogos Olímpicos, 3

A equipa ucraniana de remo feminino foi ontem desclassificada por doping. Apesar do brilhante terceiro lugar conseguido no scull de quatro, foi-se a ver e Olena Olefirenco, uma das atletas da equipa da Ucrânia, acusou positivo. Em vez do estanozolol, que é um anabolisante muito da confiança das lançadoras de peso e dos velocistas russos, Olena Olefirenco preferiu um estimulantezinho que dá pelo nome de etaminan, e que se compra ali quem entra na Aldeia Olímpica à esquerda depois de controlar a rotunda dos cinco anéis coloridos. Para quem seguiu a prova pela televisão, a Olena era aquela que fazia um estardalhaço maior que o remoinho do Poço das Piúcas sempre que batia com o remo na água.

Os Jogos Olímpicos, 2

Eu, com um bocadinho de estanozolol, ou muito me engano ou limpava os 100 metros abaixo dos oito segundos.

Os Jogos Olímpicos

Agora que estão quase a acabar os Jogos Olímpicos é que me lembro daquele atleta da Granja que não sabia nadar e que resolveu mergulhar na Presa do Vale protegido por cabaças a fazer de flutuadores. O desgraçado atou as cabaças aos pés sem compreender que se arriscaria a ficar, como ficou, de cabeça a pique a rasar o fundo de lodo e areia. Isto sim, era modalidade que gostava de ver nas Olímpiadas em vez daqueles saltos apaneleirados em camas elásticas, daquelas partidas de voleibol de praia vencidas por um país que não tem praia, ou daqueles lançamentos de martelo protagonizados por umas polacas, parece-me, de bigode.

Ciência

Ontem de manhã, por volta das dez e meia, o meu amigo Sebou perdeu o telemóvel. Vasculhou-se tudo. Em vão. Mas a meio da tarde recordou-se que o tinha poisado no capot do jipe. Então foi buscar um telemóvel velho, poisou-o no mesmo sítio em que tinha deixado o outro, entrou no carro com o Pedro, e fez o mesmo percurso, sensivelmente à mesma velocidade, que tinha feito às dez e meia. O portátil, em equilíbrio instável, aguentou-se uns bons seiscentos metros, até que, numa curva à esquerda, deslizou sobre a carroçaria e caiu na berma da estrada. Pararam. Saíram. Procuraram. Os dois telemóveis, o que perdera de manhã e o que acabara de cair, estavam a menos de meio metro um do outro. Se isto não é ciência, vou-ali-já-venho.

quinta-feira, agosto 26, 2004

O mundo

Quase tudo: as águas do inverno, um rosto, uma árvore, uma estrela, um caminho de terra batida.

quarta-feira, agosto 25, 2004

A biblioteca

[um texto de 1900, do espólio de J. C. Costa]

No dia 18 de Janeiro de 1837, às nove da manhã, com pompa e circunstância, tiveram início as cerimónias de instalação da Câmara Municipal de Boticas. Eu tinha dezassete anos, não era propriamente uma criança. Recordo o alvoroço e a alegria, o sorriso rasgado em todos os rostos, a esperança no futuro. Era como se um mundo novo, mais justo, mais perfeito, estivesse para nascer.

Em minha casa, quando a noite começava já a descer sobre os telhados da vila, o doutor Magalhães enchia repetidas vezes o copo e gabava o vinho palhete, ligeiramente amadurado, da colheita do meu avô. Depois falava com entusiasmo no Progresso e na Educação do Povo. Estradas, pontes, edifícios de três andares, escolas, uma biblioteca – eis algumas das palavras recorrentes do seu discurso plástico, fluente.

É o que sobretudo recordo. O mais é história. E a tristeza da pequena política comandada do Paço. E o dia triste em que, pela primeira vez, foi preciso inscrever uma verba orçamental para proceder ao arranjo dum caminho de vizinhos...

Em 1875, aquando da breve passagem do doutor Sousa pela vereação da Câmara, acabou por ser votada favoravelmente, depois da maior discussão de sempre, a fundação duma biblioteca. Mas o processo começou a ser embrulhado (alguém disse, numa das sessões seguintes, que «nunca me recordo de ideia mais estapafúrdia»), e o doutor Sousa, desiludido, agastado, pediu a demissão e regressou à velha casa de família, em Anelhe, para tomar conta das vinhas.

Até então, no decurso de quase quarenta anos, as grandes obras e decisões resumiram-se à compra duma casa para os Paços do Concelho, no dia primeiro de Abril de 1840, e às consequentes obras de ampliação, que se prolongaram por dezasseis anos; à deliberação de criar uma feira no dia nove de cada mês; à construção dum tanque no toural velho, no cimo da rua, para os gados beberem; à compra do relógio do município, que veio de Braga em Março de 1864, e cuja inauguração teve direito a banda de música; ao começo das obras do cemitério público, em 1889; e ao encanamento da água para a bica do toural.

Estamos agora em 1900, no início dum século que se adivinha cheio de transformações. Desde a demissão do doutor Sousa, sete ou oito acontecimentos resumem, e desmentem, as profecias do doutor Magalhães, quando, embalado pelo vinho das propriedades do meu avô no Crasto, falava no Progresso e na Educação do Povo: a conclusão da igreja; o arranjo do toural, para a realização da feira do gado; a transferência do cemitério para o local actual; o início das obras do ramal da estrada municipal que ligará à estrada real de Chaves para Braga; e, finalmente, a conclusão da pequena ponte que liga as duas margens da ribeira do Fontão.

As eleições aproximam-se. O representante na Vila do partido de Lisboa no poder vai ganhar novamente as eleições. O seu grande trunfo, anunciado no domingo, no adro da igreja, é... a construção duma biblioteca...

Eu faço oitenta anos na próxima semana. Não são muitos nem poucos: são os que são. Sinto-me bem, mas também cansado, naturalmente, e farto da política do meu tempo. Vai-me valendo, como calculam, o sucesso de ter herdado as propriedades do meu avô no Crasto, onde faço ainda hoje um vinho palhete que já em 1837 punha o exigente doutor Magalhães a cantar que nem um rouxinol.

segunda-feira, agosto 23, 2004

O meu sobrinho Arlindo

A sensação é a de uma sonolência espessa e repetida. E no entanto passaram-se já seis dias. Mas continuo sem sentir as pernas, sem sentir os braços, sem sentir uma única dor que me devolva o reconhecimento de mim mesmo. E depois, como se não bastassem esta imobilidade e esta espécie de nuvem a coar a luz das lâmpadas do tecto da enfermaria, descendo e subindo, há ainda este estranho e penetrante odor a desinfectante, mistura de líquido e matéria volátil, quase peganhoso e simultaneamente volúvel, a vogar em redor das enfermeiras e da sopa, dos carrinhos de remédios, das seringas, do plástico de casa de banho que me separa do doente do lado, que transforma a enfermaria num aquário opressivo e claustrofóbico. Logo a mim, não haja dúvida, que nunca suportei as paredes do meu gabinete na repartição, que sempre me levantei cedo só para sair da cela do meu quarto e respirar o ar da manhã, que pedi a reforma antecipada para poder gozar os passeios até ao rio, subindo primeiro a estrada do Padrão, olhando o espaço aberto da veiga quadriculada e verde, descendo depois até à presa do Padre Pedro, mergulhando as mãos na água fria, correndo ao longo da margem que adivinhava de longe pela fiada de freixos, logo eu, que me perco na Madalena, em Chaves, e no entanto percorro de olhos fechados os carreiros da serra da Seixa, da Raposeira, da Geia, do Crasto da Granja...

Mas eu conto. O meu sobrinho Arlindo sempre foi o que se sabe, um pássaro idiota sem poiso nem juízo, a mudar de trabalho de seis em seis meses, a iniciar projectos sucessivos que nunca passaram do esquisso, a viver à custa da mãe, as mais das vezes. Estou que até mete a charrada. Pois em Setembro do ano passado entra-me na cozinha à hora do almoço, a despedir-se dos tios, coitadinho do moço, brinquinho na orelha e barba de três dias, umas calças de ganga ridículas, esburacadas nos joelhos, muito perfumado: ia dois anos para as Áfricas, contrato assinado, condições de excelência, ordenado em dólares, cama, mesa, roupa lavada. A tia muito comovida – eu imagina-se... Adiante.

Segue-se que pouco tempo depois regressa a Boticas (quais dois anos qual quê...), um bocadinho mais magro, muito dócil, com prendinhas e tudo: artesanato, esculturazinhas de barro pintado, batiques. Tudo bem. Mas é então que o farsolas compõe um ar de caso e acrescenta: «só um momento, please». Temi logo o pior. Ele saiu e entrou de novo: à tia Teresa, à tia muito querida, trazia um macaco. Um macaco, exactamente. Um macaco vivo e verdadeiro, com pêlos, com cauda a enrolar aos ésses, com guinchos parvos, a subir aos armários, a sair para o jardim, a camuflar-se no meio das folhas da minha acácia da Pérsia de estimação, a moer-me a molécula.

Nessa noite, arrasado, dei um prazo à Teresa para se desfazer do bicho: o-fim-de- semana-mais-tardar. Eu, senhores, que não suporto gatos dentro de casa, nem ratinhos de estimação, nem peixinhos vermelhos, nem canários a piar e a espalhar alpista pelo chão da cozinha – um macaco...

Lá tive sorte: uns dias depois o Magalhães do depósito de rações apanha-me a almoçar no Armindo e pergunta se pode ver o animal. Pode, e é já. E assim foi. A Teresa ainda insistiu, o que diria o Arlindo, coitado, e a Joaninha, a nossa neta muito querida, a Joaninha que se afeiçoara tanto ao macaco, e mais isto e aquilo. Nada: ou eu ou o exótico, ponto final. E assim me desfiz do animal. Um descanso. Nessa noite adormeci sem insónias, uma paz narcótica quase desconhecida a deslaçar-me as articulações tesas, a descruzar-me as ligações avariadas dos nervos.

O tempo correu. No domingo passado fui com a minha neta ao circo. Comprámos gelados, pipocas, o-diabo-a-quatro (a Joaninha é um amor...). Pois lá estávamos nós no alto da bancada, a criança entusiasmada com as luzes e os brilhantes das casacas, extasiada com os palhaços, com a contorcionista, com a música de saxofones e cornetas – quando aparece o macaco. Eu nem queria acreditar. Armado em artista, de lencinho cor de laranja e tudo. Não sei que habilidades lhe tinham ensinado, ou se possuía dons inatos que quase excluíssem as necessidades de aprendizagem. Sei que nos topou e que saiu da pista numa corrida estonteante, saltando as três filas de cadeiras, dirigindo-se a nós aos guinchos, com a minha neta de braços abertos, a inocente, a gritar «Bilocas, Bilocas», e eu a protegê-la da investida do símio. Seriam boas intenções, as do Bilocas, que de facto se afeiçoara à Joaninha naquela meia dúzia de dias de pesadelo. Seja como for: ele a aproximar-se, e eu a preparar-lhe um pontapé no focinho. Tenho sessenta e dois anos: desequilibrei-me, desenfiei-me pelo buraco das tábuas corridas, nem sei como não arrastei a Joaninha na queda.

Não me lembro de mais nada senão de acordar no hospital de Santo António, se pode chamar-se acordar a este estado de sonolência espessa e repetida. Os braços partidos, as pernas partidas, costelas partidas. Feito num oito. Com este cheiro a desinfectante, mistura de líquido e matéria volátil, quase peganhoso, a vogar à minha roda, a colar-se às paredes e aos ferros brancos da cama, a poisar na mesinha de cabeceira, a misturar-se nessa espécie de nuvem que transforma a enfermaria num aquário opressivo e claustrofóbico.

Acabou agora a visita da tarde. Vi a Joaninha pela primeira vez depois do acidente nas bancadas do circo. Se me sinto melhor? Como se sentiriam vocês, atados que nem uma múmia, com uma perna suspensa de fios e roldanas, sem se poderem mexer, sem verdadeiramente terem ainda acordado depois de seis dias de imobilidade, se a vossa neta chegasse ao pé de vós, inocente, lacrimejante, a dizer que tem umas saudades tão grandes do Bilocas?

domingo, agosto 22, 2004

Anúncio da gerência

Ele é as férias, o Verão, o computador avariado. Nestas alturas pode-se prometer pouco. Seja como for, amanhã, o mais tardar, promete-se um novo conto com enredo daqueles que nem nas novelas da TVI: este, um bocado recambolesco, fala de macacos e dos conflitos de gerações e tudo! Mais um a não perder - nem pelo Luís, em Londres, longe da pátria.

quinta-feira, agosto 19, 2004

Uma vida

António Joaquim nasceu em mil novecentos e sessenta, às cinco da manhã do dia quinze de Junho. Uma biografia assim resume-se em poucas linhas. Findos os estudos primários, em seis anos, com algumas dificuldades na escrita e na compreensão dos textos, o que viria posteriormente a acentuar-se sem graves complicações para o mundo, António acompanhou o pai nos trabalhos do campo até que o padrinho, o engenheiro Reinaldo, o livrou da tropa e, com um novo empenho, o enfiou na secretaria da cooperativa. Era razoável a matemática. Nos amores nem foi precoce nem tardio, o normal: com dezoito anos, pelo fim da tarde, nos intervalos de maior frequência de clientela, fazia a corte à filha mais velha do Lopes, Lúcia de sua graça, apalpando-lhe as pernas e as mamas entre risotas subtis no gabinete de provas da loja de pronto a vestir onde trabalhava. A coisa perdeu a graça, entretanto, depois de uma quinta-feira chuvosa em que uma visita ao anexo do estabelecimento, tão demorada que deu para tudo, levou a um casamento às pressas. O que é bom nem sempre dura. Nunca mais se riram, expansivos, mas iniciaram, de qualquer modo, com método e empenho, as bases de uma pequena fortuna familiar. Tomaram de trespasse a taberna do Jesualdo. Lúcia pôs fim à serradura no chão e ao banco corrido junto da parede escalavrada, que pintou a tinta de areia. Passou a evitar os copos de tinto avulsos e servia refeições ligeiras de fama rápida, com realce para os pratinhos de feijoada à casa. Substituiu a madeira de castanho das mesas e cadeiras, carcomida do bicho, pela fórmica brilhante de uma casa de móveis de Chaves que vendia por catálogo. Trocou os retratos do Joaquim Agostinho e da equipa do Benfica de mil novecentos e sessenta e seis por reproduções de paisagens holandesas do século dezoito encaixilhadas em plástico azul. O negócio, lentamente, floresceu. Tiveram um segundo filho. Construíram uma vivenda, com relvado e baloiço, na Avenida do Eiró. António Joaquim, por esse tempo, negociava os juros com o gerente da Caixa e comia camarões fritos na Carreira da Lebre. Trocou de carro. Comprou uma comercial quase de luxo na Sotrans. Abriu uma loja de materiais de construção civil no Alto da Ribeira e decidiu que no ano seguinte passariam quinze dias de férias na Póvoa, em Setembro. Lúcia, no entanto, sorria cada vez menos. Os sonhos do marido coincidiam pouco com os seus. Sentia falta de tempo e disponibilidade para o amor e não a seduziam os gráficos das contas bancárias. E nessa noite, quando ele, em pijama de cetim e um gorro ridículo enfiado até às orelhas, com medo da gripe, lhe fez um resumo dos lucros e anunciou a intenção de expandir o negócio de retretes e tijoleira espanhola, Lúcia não conteve um pequeno choro de raízes antigas. E contou-lhe, com ternura, quase como quem pede desculpa, aninhando a cabeça entre os seus ombros largos, que nunca mais havia de esquecer esse tempo em que ele a procurava pelo fim da tarde e lhe apalpava as pernas e as mamas, com fúria, no gabinete de provas da loja de pronto a vestir da rua Direita.

quarta-feira, agosto 18, 2004

ATENÇÃO

Depois de uma ausência não programada (mas também ninguém previa que o Inverno roubasse quinze dias ao Verão...), a gerência promete para mais logo um conto sobre o amor e o tédio. A não perder!

quarta-feira, agosto 11, 2004

A infância

Há muitos modos de regressar à infância: estes regressam de caçadeira, certamente com baba a escorrer-lhes dos cantos da boca, aos tiros contra as placas metálicas de trânsito.

Ainda os incêndios

Hoje, às quatro da tarde, chovendo que-Deus-e-a-dava, depois de já não sei quantos dias de chuva, cruzo-me com um automóvel ligeiro, em marcha vagarosa, que tinha escrito a toda a largura do vidro traseiro: «Vigilância da Floresta». Confesso que fiquei mais descansado.

terça-feira, agosto 10, 2004

É tão fácil

para a tita

É tão fácil esquecer um nome:
escreve-se quinhentas
vezes a giz numa ardósia
e depois espera-se quinhentos anos
até a última sílaba
se perder com
as últimas aves.

Um regresso, 3

com a chuva regressam as perdidas
inúmeras
aves
de junho.

segunda-feira, agosto 09, 2004

Um cão

Vendo passar um cão muito magro, esquálido, alguém disse que «o alfaiate lhe fez o fato apertado» e que «devia andar a treinar pra estudante».

Um terreiro de luta

Não apanhei o início da conversa, que subia já de tom no balcão do café do Martinho. Mas breve compreendi a inevitabilidade de as teimas sobre as qualidades dos bois se tirarem onde devem tirar-se: num terreiro de luta. Não tardou, pois, que rumássemos ao lameiro do Corisco, passando Lamas, deixando à esquerda a encosta de carvalhos e do outro lado um pequeno bosque de pinheiros de riga. O boi do Manel Vaz chegou, a medir o espaço, imponente, de focinho erguido. Mas o do Martinho, de súbito, desapareceu numa investida e subiu à cumeada, descendo depois aos campos de Codeçoso. Lá foram atrás dele. Em vão. Já só o apanharam à porta da corte de onde uma hora antes o tinham tirado com esse fito de o ver a medir forças no lameiro grande do Corisco, por cima de Lamas.

Pareceu-me bem: que a chega de bois tivesse acabado assim, antes de começar; que os touros, dignos, se tivessem recusado a lutar por tão pouco: uma teima fútil ao balcão de um café na Carreira da Lebre.

sexta-feira, agosto 06, 2004

Um regresso, 2

A sombra das tílias a caminho da Presa, a água que esconde os seixos rolados das cumeadas, as veredas que levam à encosta da urze, a luz da manhã inclinada nas copas das macieiras do cedo, um azul que, sendo já noite, permanece por instantes poisado nas linhas de separação de águas onde nem os incêndios puderam subir.

(Um texto antigo)

Estas mulheres

para clotilde do val

Estas mulheres não aquecem os púcaros, as vasilhas de ferro. Aquecem o que metem nos púcaros, nas vasilhas negras. Não procuram para si. Amam em ver os filhos a correr, a crescer, a erguer os braços onde mais se esconde a flor da hera da tristeza, a colher na sombra, a meio da noite, essa pequena luz que amanhece nos pátios, nos largos desertos, nos tanques de água. São mulheres transmontanas. Obcecadas pelo sentimento da dádiva, pela harmonia do mundo a que não pertencem. Carregam pesos, aquecem a sopa para os seus homens, vigiam a urze e o tojo, guardam a fazenda. Nunca dormem se alguém acorda. Correm primeiro. Conhecem segredos de prender os fios às árvores, de colher as sete pétalas do linho nos campos alagados, de fazer os panos e os ramos da quaresma. Vestem-se de preto. Adormecem uma única vez e só então descobres que arrefece a pedra da lareira. E o musgo cresce na escaleira.

terça-feira, agosto 03, 2004

A juventude

Às drogas, aos estaleiros das obras,
ao vento do árctico nos ramos finos dos vidoeiros,
às navalhas e às lâminas, aos automóveis
a cortar a noite nos caminhos de terra,
aos metais incandescentes,
às fasquias, à música, à electricidade,
aos ferros amarelos dos guindastes, às páginas
dobradas dos livros de geologia,
aos incêndios, ao rumor dos caules da insónia,
às fendas das águas subterrâneas dos relâmpagos,
ao amor sem o cálculo, ao álcool,
às bombas de combustível, aos declives,

a tudo (e mais) a juventude deve
a eternidade do seu tempo imenso e breve.

domingo, agosto 01, 2004

Coração

Quem não ama, morre de quê?

Um regresso, 1

Valdarada

Como se regressa à casa onde a ruína começa a instalar-se? O pátio, o lagar, a escaleira, a varanda, a sala dos ofícios, a mesa da cozinha, o escano, a pedra da lareira, o lugar do cântaro da fonte. E as janelas de guilhotina: esse rectângulo onde as mulheres se chegavam a olhar os matos da encosta e o caminho de Valdarada; os seus vidros minúsculos onde os riscos de água das primeiras chuvas de Setembro anunciavam o Inverno.