Presa do Padre Pedro

sábado, setembro 25, 2004

Um regresso, 5

Não tarda a água talhada no tanque, o relâmpago no pátio. Já se correu o eito e se carregaram os colmos. Já nas madrugadas de junho se recolheu a marcela. Já se pisaram as uvas. Já nas vertentes da umbria a giesta negral deixou as suas sombras, e adormeceu.

Ausência

Uma vez por outra seguir o conselho dos mestres: não invocar em vão o dom da ubiquidade.

sábado, setembro 18, 2004

Setembro (Um regresso, 4)

O rio Terva, nas manhãs em que a névoa demora a erguer-se no vale, é uma linha de fogo adormecida no coração da montanha. Uma serpente dócil. Um desenho adolescente a carvão ou tinta da china. Recordo-me de quase enlouquecer a olhar essa breve e intensa ondulação subterrânea: de não despertar enquanto a névoa não se levantasse nos cumes.

Consultas

À pergunta de um leitor, por mail, responde-se: sim, a Presa do Padre Pedro existe mesmo. Não, não é apenas um nome de blog. Sim, as tílias a caminho da Presa existem mesmo. E o carvalho grande. E a sua inúmera sombra da margem das águas à encosta da urze. E os freixos e as suas folhas em número ímpar. E os amieiros com as raízes enterradas no rio. Mas a Presa do Padre Pedro existe apenas num universo mais alargado. Que vai do Noro aos gralheiros de Requeixe, e de Requeixe até Onde Se Juntam Os Rios e ao pontilhão a juzante, e daí ao Voluntário, e do Voluntário à Serra da Seixa. E isso não cabe num post, num conto, num ensaio, num romance.

quinta-feira, setembro 16, 2004

Champions League

É outra Escola
Ontem à noite, durante largos minutos, mister Toni e Paulo Catarro, comentando o FCP/CSKA, filosofaram sobre as bolas que foram ao poste e as bolas que bateram na barra. Toni, pedagógico, explicou então que o remate ao poste de Helder Postiga foi irrepreensível, tecnicamente perfeito, e que só é pena a trajectória do esférico não ter saído um palmo à esquerda. Pois... Aqui há uns anos, tantos que a televisão era ainda a preto e branco, José Maria Pedroto fechou uma discussão explicando que uma bola ao poste era uma bola fora. Ó Toni, se fosse «um palmo à esquerda» era golo.

O que é Nacional
Deco, o médio avançado da selecção nacional portuguesa, recebeu uma bola de Ronaldinho e rematou cruzado para o fundo das redes. «Um golo 100% brasileiro», comentou, não menos pedagógico que Toni, o jornalista da televisão pública. Pois eu cá por mim diria quando muito 90%.

Nunca mais compram o Camacho, e depois é isto...
O Real Madrid, a jogar de forma execrável, levou três batatas sem resposta dos alemães do Leverkusen. Bem certo é que o treinador dos galácticos, Carlos Queirós, devia era estar quando muito a dar aulas de Introdução à Motricidade no ISEF, que de bola percebe tanto, se tanto, como de lagares de azeite.

quarta-feira, setembro 15, 2004

Mai nada...

Provérbios do Barroso? Ora aí vai um:: «O rio cando roige é porque leva auga.» Este é dos meus preferidos na categoria ‘Não-há-hipóteses, não-inventes’.

Meteorologia – Linha Verde

Notícia de última hora, para acabar de vez com as discussões sobre se o Verão ainda não sei quê, e se o Inverno qualquer dia não sei que mais: hoje de manhã, em alguns locais do Barroso mais favoráveis, já caiu a geada (e «caiu» é como quem diz, que a geada nasce do interior da terra).

terça-feira, setembro 14, 2004

Mil novecentos e setenta e nove

1.
morria-se de muito olhar com as aves o entardecer dos
dias de setembro de mil novecentos e setenta
e nove. há sempre um instante para recomeçar as coisas
dizias
tantas vezes sem que o cheguemos a saber
um instante para que a memória subtilmente cresça
e nos desenhe alheios dos seus traços: em setembro
de mil novecentos e setenta e nove foi
assim:
as tuas frases breves quando a sombra nos tocava
sob as folhas das videiras i wish only to caress
your hair
a área popular com variações opus
15 nº 3 do joão domingos bomtempo
a surpresa dos segredos da infância como se
de súbito o desejo fosse o ofício dos nossos corpos
impacientes
meu amor
as reproduções pequenas (a preto e branco) do toulouse-
-lautrec – as putas de montmartre – que
guardavas no bolso da camisa
a ondulação leve dos
teus ombros nus: morria-se pois
com as aves no entardecer dos dias de setembro
de mil novecentos e setenta e nove: o intervalo
agora na distância
a tua boca infinda
a sombra repetindo em vez dos fios da memória
os gestos todos desse tempo: tomorrw my
love: com o amor tranquilamente o olhar
ainda

2.
eis pois o regresso ao círculo perfeito
o da memória
uma concha intacta sob as páginas dos livros
as manhãs abrindo com a água rente aos lábios: em
setembro de mil novecentos e setenta e nove a
poesia: um verso dura muitas vezes o instante do mistério
le soleil ce jour-là s’étalait comme un ventre
maternel qui saignait lentement sur le ciel (apollinaire)
o céu à beira desses dedos o rumor do inverno crescendo
nas palavras
a tua pele ainda leve com o vento: conheço
este silêncio
há muitos anos
a ternura assim
as tuas lágrimas suspensas dum fio de tecer
o tempo
meu amor
tão próximo de mim

3.
à sombra destas pedras foram encontradas em mil
novecentos e cinquenta e um
duas moedas de ouro do imperador adriano
no interior destas casas (21 de junho de mil
oitocentos e quarenta e sete)
dormiu com cinco mil e quinhentos soldados o
general lavalette a caminho
do porto: sentes o quê tocando tanto heroísmo com os pés
algum segredo algum princípio de lugar? morria-se
com as aves
sabes
em setembro de mil novecentos e setenta e nove
o teu corpo só a única certeza
a nascente primeira fluindo nos teus signos: é o
que fica destes anos
a memória
um pequeno gesto rumoroso de palavras e incêndios
a história verdadeira finalmente certa
uma flor
como nos dias do mês de setembro de mil
novecentos e setenta e nove
ainda
o amor

domingo, setembro 12, 2004

Como se nada houvesse

O mar invade as tuas terras e com
ele uma alegria imensa, os fios
do azul, a excessiva transparência do
olhar das crianças, algumas metáforas
intraduzíveis. Pela hora do dia
acrescentas à eternidade estes
desenhos, tão próximos de ti que o
dizer de um nome quebra o fascínio
da memória reconstruindo os mapas
e os lugares de sempre do amor. Por
um instante esqueces a música do
pastor poisando a vara no musgo
das pedras, o abandono cúmplice das
aves, a escaleira de casa, o rio,
como se nada houvesse para perder:
pelo fim da tarde o que vai ficando
são pequenos braços de água, ramos
secos, folhas, os destroços duma
serenidade que chegaste a julgar
insuspeita e se dilui agora entre os
juncos da margem do rio, vagarosamente.

sexta-feira, setembro 10, 2004

O teu nome

O tempo todo se resume ao enunciar das
coisas onde tropeçámos sem vestígios
da grande tristeza que povoa
os campos desertos do inverno: não
faremos dele o domínio da sombra, o
discurso hábil da idade habitando
a pele adolescente do amor: é
nosso dever guardar os segredos
antigos sem os tocar por dentro
com o desejo de repor as verdades
primeiras. O teu nome, pois, trará
do mundo a sua exacta imagem,
como se nos enganássemos no percurso
da vida e por um instante nos
fosse dado parar no fundo dum
vale e criar as águas, ou o vento.

segunda-feira, setembro 06, 2004

Guerreiro de feira

Quer comprar uma miniatura do guerreiro do Lezenho, em imitação de mármore? Vá aqui. Apresentado publicamente com erros históricos de palmatória, sem referência ao local onde foi encontrado, comercializado numa imitação ranhosa, pode ser seu ao preço de 48.00 €. Aproveite.

domingo, setembro 05, 2004

Quase tudo, 5

As bagas do medronheiro das margens do rio de Covas, no Gardunho, junto da ponte de arame. Recolhê-las em fins de Dezembro. Levá-las à boca. Olhar depois os freixos, as suas folhas em número ímpar, e entrar na casa dos Engenheiros das Minas. A noite, quando desce, mistura as suas cinzas à pequena sombra dos olmos, também eles adormecidos desde fins de Setembro.

Quase tudo, 4

Descer o caminho da Presa do Vale e olhar a Encosta dos Matos como se não houvesse mundo para lá dos seus cumes. Como se a luz adormecesse na urze as suas últimas águas.

Quase todo, 3

As carvalhas brinhas. As suas folhas de Março.

sexta-feira, setembro 03, 2004

Quase tudo, 2

Quase tudo: a casa à beira do rio, uma lareira, a estante dos livros, um rosto, um desenho, a internet, um bosque de bétulas, a sombra de um negrilho a meio do Verão, os amieiros e os freixos da margem, a chuva do Inverno puxada pelo vento da barra, a neve, os dias claros de Junho.

Post a comment: Contentas-te com bem pouco...
By Anonymous.

quinta-feira, setembro 02, 2004

No teu modo de perder os sonhos

Sempre acreditei que passamos uma única vez num mesmo lugar. Como as águas de um rio. E lembro os carvalhos de Masseira e a pequena sombra dos castanheiros jovens onde me despedi de ti por instantes até a um regresso que nunca podia acontecer, como nunca aconteceu, mesmo quando mais tarde regressei a esses bosques ou aos soutos luminosos da infância. Por isso mesmo, nos últimos anos, fui rasgando os bilhetes que uma fraqueza de momento me levava a comprar num desses escritórios do Campo das Cebolas onde o cheiro a sal e a minha tristeza se agarravam às paredes e aos calendários com autocarros coloridos ou mulheres nuas a publicitar as últimas novidades da construção civil.

Até que me decidi. Vinte e cinco anos depois assaltava-me a saudade recorrente de uma estrada de montanha a correr por entre árvores gigantescas unidas pelas copas, dos vidoeiros erguidos nas encostas frias com os seus troncos brancos a lembrar a neve e as camisolas de lã, da água a deslizar por entre as pedras dos taludes, das albufeiras estendidas no fundo dos vales como uma promessa de felicidade. E também de um rosto. Do teu rosto, Mário Luís, generoso, largo, a abrir-se numa fúria ou num sorriso, os punhos cerrados, enquanto falavas da revolução ainda jovem e dos caminhos do mundo. Não propriamente do teu rosto mas dos sonhos que estavam escritos nesse rosto. Dos sonhos e da alegria de sermos jovens e nos sentirmos vivos. Dos cartazes que colávamos com grude nos portões zincados do Grémio. Das frases que alinhávamos com tinta das obras nas guardas de pedra das pontes ou nos muros caiados de cal.

A vida não é como nos filmes. Eu sei. Não acabei o curso de pintura, não publiquei o livro de poemas, não comprei a casa à beira do rio, não passei as noites de Natal com filhos à roda de mim e do fogo da lareira, nunca tive umas botas com sola de pneu de tractor para pisar os caules molhados das ervas nas manhãs de novembro.

E, portanto, regressar tanto tempo depois, vinte e cinco anos depois, haveria de significar, mais que um reencontro com o passado, a possibilidade de trazer à minha vida um sentido novo. Algum sentido. Algo que pudesse amparar-me a caminho de casa, depois do emprego, quando as nuvens cinzentas que poisam nos telhados ou nos terraços desses prédios magoados dos subúrbios de Lisboa parecem atravessar-nos até ao mais fundo do que em nós foi um dia o lugar do coração. Amparar-me na solidão dos discos do Caetano enquanto a noite se desenha no interior do apartamento pago a prestações e no vidro das lâmpadas acesas, e vagarosamente se agarra ao estuque das paredes e dos tectos como se a humidade toda do mundo, e a sombra toda do mundo, escolhessem a nossa companhia para partilhar a tristeza do inverno.

Imaginas, portanto, o que sobretudo me doeu neste regresso ao que não existe. No meu apartamento em Caneças, num prédio rodeado de descampados e uma estrada de trânsito de passagem, no meu emprego funcionário de mudar as folhas de lugar e atender telefonemas urgentes ou marcar inúteis encontros e reuniões de chefia, nos balcões dos cafés onde comia uma sopa num balcão corrido, nesse meu mundo afinal tão pequeno e distante do que sonhei nos meus e nos teus sonhos antigos – o vazio e a tristeza quase faziam sentido. O que me doeu neste regresso, pois, foi sobretudo pressentir que nada, nenhum lugar, pareciam poder agora salvar-me da ignomínia de ver os anos a correr num cenário de que retiravam a minha fotografia para sempre.

Até que falei contigo, por um instante, junto ao edifício da Câmara e descobri a possibilidade de um regresso no teu modo de perder os sonhos. Na ironia profunda, Mário Luís, do teu fato escuro e do teu lugar na hierarquia política do concelho.

Não tenho nada contra o PP, acredita, nem contra os fatos escuros e as gravatas de elefantes amarelos, nem contra a tua temida posição de vereador que desequilibra a balança de dois votos contra dois votos dos representantes dos partidos mais votados. É assim mesmo. Não tenho nada, Mário Luís, contra o teu sorriso envergonhado a recordar de súbito esse tempo em que acreditaste num sonho. Pelo contrário. Agradeço-te. Tudo, assim, passa a fazer sentido. E só por isso, por essa certeza de que não há mais nada a esperar, de que não há mais sonhos a perder, valeu a pena um regresso de que já esperava tão pouco.

Mas é também por isso mesmo que decidi ficar de vez. Por isso mesmo vou vender o meu apartamento de Caneças e comprar uma casa à beira do rio e umas botas com sola de pneu de tractor para pisar os caules molhados das ervas nos princípios de novembro, nas veredas do Pardo, da Presa do Padre Pedro, do ribeiro do Fontão. Sem sonhos. Sem ilusões. Pacificada.

Não me leves a mal. Não te incomodes comigo. Um beijo. Havemos de encontrar-nos por aí.

quarta-feira, setembro 01, 2004

Balanço final

Portugal, com três medalhas e uns diplomas, teve em Atenas a melhor participação de sempre nos Jogos Olímpicos, não muito longe do Uzbequistão, com cinco medalhas, e de Michael Phelps, com oito.