Presa do Padre Pedro

sexta-feira, outubro 29, 2004

António Lourenço Fontes, 2

Aí vai, como prometido: uma autobiografia de António Lourenço Fontes publicada na versão digital do seu Notícias de Barroso. É um texto recente (15 de Outubro) e apetece oferecê-lo assim aos nossos leitores - na íntegra, sem mais demoras:

AO CANTO DE ESPELHO – UM PADRE BARROSÃO

«1. António Lourenço Fontes. Nasci em Cambezes do Rio, concelho de Montalegre. O mais bonito da minha terra é a igreja, as casas velhinhas, a gente e seus usos, saberes e falares, as paisagens sobre o vale do Cávado, os montes que subi.
2. Nasci a 22.02.40. Centenário da Restauração e independência. Ergueram-se cruzeiros a comemorar. Sou signo Piscis. Aprendi a nadar em todas as águas.
3. Marcaram-me companheiros da escola: o João do Zindinho, na juventude; o Domingos D. Batista, no Seminário. Na escola primária não fiz a 3ª classe, passei da 2ª para a 4ª por iniciativa da professora. Chamavam-me os meus irmãos: sapo, por ser pequeno, andar devagar; mais tarde padre do Grilo, pela alcunha de meu pai, O Grilo de Cambezes.
4. Poucos desportos pratiquei, eram proibidos alguns. Em criança joguei todos os jogos infantis da região. De jovem gostei de voleibol. Hoje tentei parapente, mas a idade e o reumático não o aconselham. Gosto de montanhismo, sendeirismo. Gostar de cinema, nem por isso, dá-me sono nalguns. Gosto muito de teatro nas aldeias, sobretudo o popular. Na minha juventude gostava de ouvir e cantar o folclore da região e do Minho.
5. Nunca me vi em nenhuma profissão, dado que o sacerdócio me absorve a vida toda, e tentei aprender de tudo um pouco para ser mais útil a mim e à sociedade.
6. Episódios românticos: nos serões das férias de Natal, os encontros com a rapariga que sonhava, e as cartas que escrevia, com tinta invisível ou com códigos para ninguém ler.
7. Na juventude sobrepunha-se na política Salazar, na igreja João XXIII, no escutismo Baden Pawel, na Santidade S. Teresa, na música Padre Minhava, na literatura Camilo Castelo Branco, no cinema Mario Moreno.
8. Os tabus na juventude eram muitos: tudo o que sabia bem, ou era proibido ou era pecado.
9. As maiores influências de professores vieram-me logo da profª primária, D. Laura A.F. No Seminário: Padre Minhava, Mons. Serafim, Padre Mendes.
10. Supersticioso de nascença, vou corrigindo dia a dia os mitos que herdei, de forma a não aceitar, nem fazer qualquer acto ou decisão por simples crença, magia, ou superstição.
11. Recordo às vezes acidentes de carro, de que me tenho saído são e salvo; recordo ter sido expulso do Seminário e ser readmitido sem saber porquê. Ouça esta confissão com o Alleluia de Hendel.

2ª parte

1. Sou padre católico por vocação, onde muita casualidade contribuiu. Nunca senti frustração.
2. Tudo colaborou nessa vocação: ambiente familiar, escolar, seminarístico. A vida confirmou e completou o que aí iniciei e a vida me deu.
3. Sinto-me realizado na vida paroquial que me destacou o Bispo. Nesta profissão - vocação marca-me mais que tudo, ver despertar a fé nas pessoas, quase sempre pela via material, económica, cultural, social. É também a maior alegria e maior gosto: não pregar a estômagos vazios. O maior desgosto é ver sofrer as pessoas e não lhes poder valer, não aceitarem a minha ajuda, sugestão, orientação, religião.
4. O que mais me ocupa é ler e escrever, fazer o Notícias de Barroso, agora desde 2000 atender, em vez da sacristia, no Hotel rural em Mourilhe, conviver com todos na taberna, ao serão, à roda da lareira, hoje um pouco a internet, tocar violino, piano, raras vezes.
5. A maior actividade é fazer amizades. Eu quero ter um milhão de amigos, como o Padre Zezinho. O que mais valorizo nos amigos e em mim é dar amizade sem nada esperar. Recebo de muitos amigos força, carinho, presença, ajuda, ânimo para dar andamento e sentido a cada dia. Destaco, entre muitos amigos, por exº o Tuto do Serralheiro, companheiro, solidário, despertador de valores.
6. Viajei de boleia desde os 15 aos 25 anos de carro. Gostava de falar com outras gentes e culturas. Gosto de viajar de comboio, pela mobilidade, facilidade de contactos, menos curvas, assentos mais duros e sãos. Viajo de avião por necessidade. A viajem que mais me agradou e mais distante fiz foi à Tailândia, China, e Novo México, Rio de Janeiro, e ver aplaudir a paisagem e o Cristo Rei.
7. Para mim a ecologia é a defesa da qualidade de vida que nos advém da protecção e amor à Natureza Mãe.
11. Na gastronomia aprecio carne, com certificado de região demarcada: mirandesa, barrosã, arouquesa, maronesa, grelhadas.
12. Ouço diário a RBA, RM, Antena 1, RR, TSF no carro e gosto muito dos noticiários, dos debates.
13. Como é possível fazer felizes as pessoas? Respondo, amando-as, ouvindo-as, dando a mão, seguindo os planos de Deus: verdade, Amor, serviço. Não ter ambições impossíveis. Armazenar apenas os gostos, esquecer os desgostos, ser optimista, ver tudo por esse prisma...
14. Gosto de satisfazer todas as curiosidades minhas e dos outros a meu respeito. Não oculto a face que está por detrás do espelho a ninguém.»

António Lourenço Fontes

Conhecia o padre Fontes dos seus livros. Os tempos, claro, eram outros: não sei bem porquê, mas a verdade é que o primeiro volume da Etnografia Transmontana se vendia em Boticas, imagine-se... na Fotografia Ricardo... Lembro-me de ver um exemplar exposto num escaparate, junto com fotografias de casamentos e baptizados, e do prazer de folheá-lo, de ler aquelas páginas estranhas sobre um mundo que, já então, começava a não existir. Ou, melhor, se estava já a transformar numa outra coisa. Eu teria uns catorze ou quinze anos. E só uns dois ou três anos depois começaria a rumar a Vilar de Perdizes e o viria a conhecer pessoalmente. Disso haveremos de dar a devida conta. Para quem tiver paciência, talvez hoje ainda se deixe aqui uma breve autobiografia do padre Fontes que é mais uma daquelas pequenas delícias a que, ao longo do tempo, nos foi habituando. É só esperar um cibo. E até lá, cresça o pão no forno, os bens pelo mundo todo, e paz e saúde a seu dono...

terça-feira, outubro 26, 2004

A. M. Pires Cabral

Fiquemo-nos, pois, com algumas notas do glossário mínimo de um livro muito especial: O Diabo Veio ao Enterro (Editorial Notícias, 1993). O autor, que nasceu no concelho de Macedo de Cavaleiros, e que por lá ouviu as histórias que depois contou e re-inventou, avisa que se trata de um conjunto de textos que são «um misto de conto pícaro, crónica e recolha etnográfica».

Fiquemo-nos, pois (só para aguçar o apetite), com o excerto do delicioso glossário que A. M. Pires Cabral (pois dele falamos) entendeu ser necessário anexar aos textos corridos por mor de melhor o entenderem as gentes menos calhadas com este falar:

Abaixar-se – defecar.
Abebra – órgãos sexuais femininos.
Bô bagar! – interjeição equivalente a “Que mais dá?”
Daimoso – amigo de dar, generoso.
Desinço – destruição; o que destrói.
Esfoura – diarreia.
Guiços – lenha miúda.
Manhuço – pequena braçada.
Marosca – ardil.
Partes – órgãos sexuais.
Pequenino – avarento.
Pordentros – órgãos internos.
Recachiço – odor característico de fêmea aluada.

Isto, repete-se, é só para aguçar o apetite: porque se trata mesmo de um outro mundo, um mundo em que, por exemplo,

«se uma criatura, é um supor, desnoca um ósso, num é o doutor que le bale: olhe se num é antes o end’reita. C’um fiozinho de azeite, bai correndo o braço ou a perna ou seja lá o ósso que for, e quando tal, tic!, bai ò lugar. O doutor o que é que le faze? Bota-le uma ligadura e pronto: se curar, curou, se num curar, pacência, fica tolheito».

Mai nada...

sexta-feira, outubro 22, 2004

As chegas de bois

Um amigo, sabendo que eu não poderia estar presente na Feira da Carne Barrosã, e que portanto não assistiria às chegas de bois, enviou-me um recorte antigo da correspondência que, durante uns bons pares de meses, no Semanário Transmontano, troquei com Paulo Jorge Reis Mourão. O envio não é inocente, claro: este meu amigo insiste em confrontar-me com aquilo que, a seu ver, são evidentes contradições: um ambientalista que gosta de pescar e que gosta de assistir às chegas de bois. Seja como for, aí vai o texto:

CORREIO AZUL
Boticas, alguns dias em Agosto de 1999

Caro Paulo Jorge:

NA FEIRA DO PORCO, EM BOTICAS, as chegas de bois foram de primeira. Contra o que vai sendo costume. Na Senhora da Livração, por exemplo, não passaram de sofríveis. Pois bem: um conhecido meu mete conversa, e eu juro que às vezes gostava apenas que os conhecidos nossos nos cumprimentassem de longe, e a gente correspondesse com o aceno que a cortesia exige, e boas-tardes. Mas este vago conhecido mete conversa e fita-cola, e quase me distrai da investida final do boi castanho, menos corpulento e mais afeito à lide. Pois confessa ele (ele, o sujeito), com orgulho, que a filha ficou no carro, que não assiste à chega por achar o espectáculo um cibo ancestral, e que os bichos se podem aleijar com aqueles cornos afiados e tudo, e que ele próprio, portanto, bem vistas as coisas, assiste àquilo com relutância, que se formos bem a ver somos uns incivilizados que pouco aprendemos desde os romanos (ele tem muito orgulho na filha; a filha, claro, já é chefe lá do serviço onde começou a trabalhar há duas semanas; uma inteligência). Temi logo. Pois faltava-nos esta. Depois da coca-cola ligth, e do descafeinado, e da manteiga sem sal, e do sumo de frutas sem fruta, e dos cigarros sem nicotina, e da cerveja sem alcool, qualquer dia inventa-se uma variante de chega com esferovite nos cornos dos bichos, ou air-bag em cortiça, que não ofenda a sensibilidade dos nossos filhos que estudam muito e afincadamente para depois nos virem com estes recados.

NA INGLATERRA, OS AMIGOS DOS PEIXES decidiram passar à acção e convencer os pescadores à linha a renunciar à actividade. Estes marmanjos anunciam que farão barulho organizado na proximidade das linhas de água, afugentando os bichos e impedindo as capturas. É obra. Mete-se a minhoca no anzol, prepara-se um lançamento a ver a boia a cumprir a sua função, que é boiar, aguarda-se um toque, e uns moços que nunca hão-de poder gostar da Natureza nem respeitá-la, porque conhecem as árvores pelos livros da escola e os processos ecológicos pela internet, batem com carquejas na margem, a remeter os bichos à sob-pedra lascada, salvando a espécie. A moda pega, não tarda. O acessório, mais uma vez, sobrepõe-se ostensivamente ao essencial. Na nossa zona, Paulo Jorge, o essencial é que envenenamos os rios e dinamitamos as presas, poluímos as águas, erodimos as encostas, manilhamos troços, depredamos areias, destruímos a vegetação ribeirinha, introduzimos espécies exóticas, artificializamos os fundos. Um destes dias, no entanto, pega a gente numa cana de pesca, e uns moços educados correm atrás de nós, com carquejas, a bater nas margens fazendo barulho. O essencial é um acessório, claro: não puxa tanto ao espírito das causas, e dá mais trabalho...

Um abraço do

José Carlos Barros.

quarta-feira, outubro 20, 2004

O Outono

Se as árvores não tivessem sido cortadas, uma a uma, de que cor estariam hoje as folhas dos plátanos da Avenida do Eiró?

Infância

A casa, depois de tantos anos, foi recuperada. O N. insiste em que vá visitá-lo. Mas não. Não consegui ainda aproximar-me, subir a escaleira de pedra, seguir até ao fundo da varanda, virar à esquerda, entrar na cozinha, atravessar o corredor que dava para os quartos, olhar os retratos a sépia emoldurados com pau de cerejeira, descer, passar junto ao telheiro onde se guardava a lenha, habituar os olhos à sombra e entrar no combarro, tocar o granito do lagar, atravessar o pátio, sentir nos dedos a textura das folhas da figueira. Olho a casa quando subo a avenida, paro por instantes, olho-a de fora. Depois afasto-me. Como explicar-lhe que tenho medo de regressar à infância e não encontrar as coisas que me pertenceram?

segunda-feira, outubro 18, 2004

Depois das colheitas

Depois das colheitas os homens paravam por instantes, subindo a uma árvore ou à varanda de casa, e olhavam os campos alagados de luz. Os homens não sabiam que fazer dessa luz, dessa luz imensa que ficava na terra mesmo quando fechavam os portões altíssimos dos celeiros e se preparavam para dormir. Por isso entravam em casa e acendiam o fogo: para que o Inverno pudesse começar.

Os interesses locais, 3

A quinze de Março de 1918, a direcção do Echos de Boticas roga aos depositários das Caixas do Correio a especial «finesa» de tratarem o jornal «como a demais correspondência», evitando utilizá-lo como embrulho das mercearias.

Não se sabe se os jornais ainda são utilizados para embrulhar mercearias, mas sabe-se que, já em pleno século XXI, a taxa de analfabetismo do concelho ronda os 24%...

sexta-feira, outubro 15, 2004

Futebol

um poema antigo sobre um tempo mais antigo ainda


A tarde é só de copos, e uma harmónica
faz coro com as moscas (mais de mil)
e o som de uma mulher já quase afónica
cosida ao rádio vindo do Brasil.

O sol entra na casa, doira o vinho,
o vinho que se bebe doira o sol,
e há gente que à janela olha o caminho
enquanto não começa o futebol.

Um prato de presunto corta a sala
e escapa-se entre as moscas para a mesa
nas mãos de uma garota que até estala
abrindo na passagem carne acesa.

E o rádio futebola o futebolo.
E agora só há vinho se houver golo.

Casa nova

Santos Passos (transmontano brasileiro, brasileiro transmontano, português brasileiro e vice-versa) teve problemas com o senhorio. Arranjou casa nova. Por aqui, claro, continuaremos a ser visitas frequentes. Afinidades electivas? Talvez. Este Bazar de Ideias será sempre uma das nossas primeiras recomendações.

quinta-feira, outubro 14, 2004

Um regresso, 8

Os púcaros ficavam incandescentes se as mulheres sopravam o fogo da lareira; envolvidos por uma luz exígua que vinha do interior dos objectos e se espalhava pelos corredores fechados ao exterior. Podia então começar o Inverno: a tempestade sempre temeu essas labaredas ténues.

Ruído

E então disse-me: «estou em crer que este ruído nem com muito barulho se vai já conseguir abafar». Calei-me. Sei lá...

segunda-feira, outubro 11, 2004

(Armado em inocente)

Estes títulos, um dia, não serão possíveis. Nesse dia escrever-se-á apenas: «Um homem foi acusado de esvaziar o carregador no corpo de uma criança». Um outro dia, muito mais tarde, a própria notícia não será possível.

Os interesses locais, 2



Sim, é certo que as epidemias são um pesadelo constante, que o lixo se amontoa em pirâmides desconjuntadas, que o mau cheiro se espalha como um lençol de náusea, que os dejectos são vazados dos alpendres directamente para a rua. Mas em 1918, na Vila, simultaneamente, fazem-se bailes elegantes e organizam-se jantares com o Cônsul da Noruega. E uma jovem dada à literatura, posto que a literatura não lhe fosse a ela muito dada, escreve no Echos que «os convites de uma amiga intima são sempre bem recebidos, sobre tudo quando essa amiga habita uma bôa casa em que ha todas as comodidades». Incluindo, depreende-se, uma moderna máquina de costura Singer, que o «Gomes das machinas» vendia a preços sem competência nas feiras realizadas no Toural, à sombra de carvalhos já então centenários.

sábado, outubro 09, 2004

Da xenofobia - aprender a olhar

Ao espelho
nós
somos já
os outros
que nos olham
ou somos nós
ainda
a olhar
os outros?

sexta-feira, outubro 08, 2004

Nunca o saberás

Os meus irmãos chegavam sempre tarde. Quase sempre bêbados. O meu pai achava normal, havia que deixá-los fazerem-se homens verdadeiros, perderem-se na noite, levarem os amigos até de madrugada para a garagem e deixarem o chão de cimento coberto de maços de tabaco amarrotados, garrafas de cerveja, cápsulas que arrancavam com os dentes, capas de discos, restos de pão. A minha mãe não dizia nada, na manhã seguinte varria a garagem num silêncio sem mágoa, recolhia os pratos e os copos, dobrava em oito a toalha suja ou compunha o lenço da cabeça a caminho da igreja.

Eu, entretanto, deixava correr os dias a bordar uns panos ridículos em ponto de cruz, a ler um livro do Júlio Dinis ou da Berthe Bernage na varanda das traseiras, a limpar o pó dos móveis onde não chegava nunca a poisar o pó. Durante o Inverno passava os serões em redor da lareira com a minha mãe, as minhas tias e a dona Clarisse, por vezes o meu pai. Rezávamos o terço, falávamos do tempo, víamos as notícias no televisor a preto e branco, o boletim meteorológico, o zip-zip. O meu pai, entretanto, adormecia de tédio.

Boticas animava-se com a chegada do Verão. Descíamos a avenida do Eiró, passeávamos até à Carvalheira numa simulação de liberdade, regressávamos colhendo ramos de sempre-noiva no terreiro da escola. À noite, em frente à casa do senhor Miranda, a toda a largura do passeio, sentávamo-nos cobrindo os joelhos com camisolas leves, esperávamos que o Albino não saísse com outros rapazes e trouxesse para a rua o gira-discos de plástico branco e vermelho. Ás vezes, raramente, era-nos concedida a permissão de uma dança breve e vigiada. Tudo isto, imagina.

Compreenderás agora o significado de ter-te conhecido. Quando os meus pais começaram a deixar-me sair contigo, a ficar contigo no jardim até às dez da noite, quando, pela primeira vez, desci a rua Cinco de Outubro com as minhas mãos apertadas nas tuas, foi como se o mundo só então começasse.

Mas o passado que trazemos agarrado ao corpo não se apaga como se apagam as marcas de giz. E o meu passado vinha de muito longe, de mais longe do que eu mesma, vinha da condescendência repetida, de silêncios multiplicados, do luto das mulheres desses retratos a sépia pendurados em corredores de sombra.

Por isso te deixei. Para guardar na memória o que nesse momento me pertencia. Antes que nada me restasse para guardar ou perder.

Tudo acabou, portanto, quando vos acompanhei na espera ao javali. De súbito compreendi-me excluída do mundo, fora do teu mundo, talhada para a repetição da sorte de todas as mulheres que conhecera fechadas no perímetro de um sonho impossível. Nessa manhã, quando chorei ao ver o porco-espinho cair sobre as patas da frente, com o estampido do disparo a ecoar ainda no fundo do vale, foi por mim que chorei, como se os zagalotes tivessem atravessado simultaneamente o meu coração indefeso e frágil. Nada me pertencia nessa cumplicidade de rapazes acabados de crescer, nessa partilha desenhada pelo odor da pólvora, pelas mantas ensanguentadas, pelas botas de caça, pela navalha espanhola, pelas cartucheiras displicentemente abandonadas no ombro, pelos cantis da tropa apertados no cinto das calças.

Não digo que sou feliz. Ninguém é feliz longe da sua terra. Sobretudo no estrangeiro, quando ninguém nos conhece mesmo se julga que nos conhece e se ouve em redor uma língua que nunca há-de ser a nossa. Mas sinto que me libertei, ao menos em parte, de um passado feito de tristeza. Que, enfim, consegui sobreviver a um destino marcado por séculos de sombra erguida em muros invisíveis.

(Quer dizer: ainda hoje te espero em sobressalto, tantos e tantos anos depois, como te esperava quando acordavas mais cedo e te perdias na Presa do Padre Pedro, nas imediações do crasto da Granja, nos caminhos secretos da serra da Seixa. Mas isso nunca o saberás.)

Os interesses locais, 1

Em 1918, em Boticas, não se cumpriam as posturas municipais contra a chiadeira dos carros. Uma desgraça. Cheirava mal, o lixo amontoava-se nas esquinas, grassavam as epidemias, a iluminação pública não funcionava. Não havia médicos. Morria-se de bronco-pneumonia a um ritmo doloroso. O padre Pedro, administrador do concelho, faz publicar um aviso, a sete de Outubro, a coberto do qual ficam os munícipes obrigados a limpar diariamente as ruas nas respectivas testadas, a usar da máxima limpeza no interior das habitações, a «desenfectar o interior das casas queimando enxofre». O senhor Acácio Martins, farmacêutico da Vila, entrega no jornal Echos de Boticas, condoído, a quantia de dez mil reis com vista à sua distribuição pelos pobres. Uma senhora do concelho, cuja identidade é omitida pelo jornal defensor dos interesses locais «para não ofender a sua modestia», manda rezar missa na igreja da Livração em acção de graças pelo seu completamento restabelecimento e oferece aos mais necessitados da freguesia a quantia avultada de cinquenta mil reis.

Entretanto, em Carvalhelhos, decorriam com celeridade as obras de construção de «um hotel e de um chique balneario», prometendo «comodidade e o maximo asseio».

segunda-feira, outubro 04, 2004

Um regresso, 7

As nuvens despenhavam-se na escarpa e copiavam das folhas do salgueiro
as fracturas.
E depois entravam nas raízes e circulavam entre os corações e a seiva. Porque nenhum rumor demorava os meses de novembro se alguém vigiava nos vasos a altura da água. E o trovão adivinhava-se pisando com os pés as argilas da veiga. E a pedra rumorosa dos outeiros esculpia a ondulação de nível
dos açudes. E as mulheres deixavam nos cântaros, adormecida, a sombra que o inverno procurava erguer com roldanas às vezes incandescentes.

TV Rural, 1

Claro que vamos seguir com atenção a Quinta das Celebridades. Tudo o que respeite ao mundo rural nos interessa. E o saber não ocupa lugar. Ontem, por exemplo, aprendemos que o borrego é o filho da vaca. Não é todos os dias...

sexta-feira, outubro 01, 2004

Um regresso, 6

Não acreditou nunca nas medidas de água, nos vasos pintados onde excessivamente cresciam algumas das plantas desse tempo. Mas o exíguo território da casa lhe bastava, dos degraus da entrada à pedra da varanda fechada se movia repetindo gestos, e palavras, e imagens. A música mudou, os tempos e as vontades agora disfarçados pela regeneradora sombra das crianças foram ocupando espaços mais amplos, paredes mais altas. Nunca partiu. Sem acreditar nas medidas de água dos vasos, nas plantas de interior que por esse tempo excessivamente cresciam à luz artificial das lâmpadas.

A partida

[Granja, 1970]

São poucas as palavras.
No mapa da europa não cabem os lugares da infância.
Não tarda que a luz amanheça
e se aproxime do pátio.

As mulheres da casa acendem o lume
sem o peso das lágrimas.
Enchem os cântaros com água de nascente.
Misturam nos púcaros o sobressaltado aroma da urze.

Um homem afasta-se.
Nunca os caminhos do largo
foram tão difíceis.

Uma fronteira é o lugar que separa a fidelidade
da sua própria sombra.
Não tarda que a luz amanheça mais pobre.

Esses rostos

Mortos há que pouco morrem.
Que resistem à distância, à ignomínia
de longe os enterrarem no azul de sombra
dos ciprestes velhos. Mortos há que

permanecem jovens nos lugares tão
só tocados, pressentidos, da passagem
dos anos. Lembrados em redor
do fogo, entre dois cigarros cúmplices,

na viagem festiva ao longo das cumeadas
onde verdadeiramente começa a
água, é como se esperássemos esses

rostos inverosímeis na premonição
do milagre de os encontrarmos
assim, nem mortos nem ausentes.