Presa do Padre Pedro

quarta-feira, novembro 24, 2004

GERÊNCIA

Uma pausa: até ao dia 18 de Dezembro. Está frio - a gente vai ali hibernar e já regressa. Obrigado a todos - e até já...

segunda-feira, novembro 22, 2004

Património, 1

Começa a ser recorrente esta associação da ideia de Património à ideia de «monumento». Património, nesta acepção, é aquilo que enche o olho, aquilo que tem volumetria, rendilhados, cércea, e simultaneamente a caução da idade: dois ou três mil anos, por exemplo, é o máximo...

Isto nos desculpa de muitas coisas, claro: da destruição dos muros de pedra arrumada, do mosaico da paisagem, duma fonte de mergulho, dum canastro do século dezanove, dum negrilho, duma vereda, duma cancela esculpida a formão nos anos cinquenta do século vinte, da casa do brasileiro de torna-viagem, duma poça de herdeiros, dos canais de rega.

Mais: da ideia de que o património «se está permanentemente a construir»....

Compreende-se que, aqui, na Presa do Padre Padre, voltemos ao assunto...

quinta-feira, novembro 18, 2004

Um regresso, 13

Da Esculca, vindos de Papo de Galo, ficámos demoradamente a olhar o mundo: os vales abertos a poente, os movimentados relevos que se erguem a Sul, e depois a veiga, os campos de cultivo nas plainas vastas entre o Larouco e a Serra do Facho. Era uma manhã como esta, de Novembro, fria, clara: e foi então que compreendemos que a luz – a luz tão escassa por este tempo – nasce da terra, dos campos lavrados, das águas subterrâneas – e só depois nos toca nos braços e sobe à copa das árvores.

quarta-feira, novembro 17, 2004

Um regresso, 12

Num tempo tão politicamente correcto, tão higienista e com tantos templos aos deuses do corpo, da saúde e da sintaxe vigiada, que saudades que tenho de me encontrar de novo com o meu amigo Dolfo – cavador dos antigos, parceiro, leal, verdadeiro – e ouvi-lo falar sobre o seu entendimento do mundo e das coisas dos homens. E, quem sabe, escutar-lhe de novo aquela expressão sincera, aflito e desorientado quando vê o pessoal em redor – cheio de colesterol e de calorias que não queima - a pedir água sem gás a acompanhar um peixe cozido e a exigir adoçante para o café: «eu, cá na minha, o que tenho a dizer é o seguinte: o garrafão é má medida: para um é muito, para dois é pouco»...

terça-feira, novembro 16, 2004

A. M. Pires Cabral, 2

Em O Diabo Veio ao Enterro (Editorial Notícias, 1993), A. M. Pires Cabral conta-nos várias histórias de tribunais. É assunto que dá pano para mangas. A gente do campo não se dá muito com a justiça. Talvez a única excepção seja a do pessoal de Nogueira: conhecidos pelas recorrentes demandas, é costume dizerem, quando o tempo está fraco e não há nada de especial para fazer: «que belo dia para uma audiência...». De resto, é o que se sabe. Como diz o tio Zé das Candeias, na obra de Pires Cabral em apreço, «ou num quero nada c’os tribunais, e Deus me libre deles. Sempre s’oubiu d’zer: a justiça a todos guarda, mas ninguém-na quer im sua casa».

E é por isso mesmo que os escrivães, esses que de mais perto privam com o juiz e portanto se constituem como dos rostos mais visíveis e próximos do sistema judicial, têm a fama que têm: «Segundo o povo, a oração matinal dos escrivães é: “Deus desabenha quem nos mantenha”. E de um dia muito intempestuoso diz-se: “Hoije naceu algum ‘scribão!».

Histórias picarescas de juizes e advogados, como se calcula, abundam quase tanto como as histórias dos padres. No texto «Tribunais», de O Diabo Veio ao Enterro, A. M. Pires Cabral conclui com este relato delicioso:

«Dize que um home tamém já belho era acusado de ter desonrado uma criada. O juíze pracia que estaba mais birado pra acreditar na rapariga. Atão o adbogado dele, vendo isso, disse prò home:

- Bote lá a cousa de fora!
- O quê?!... O senhor doutor que me dize?!...
- Bote lá a cousa de fora, já le disse!

O home botou, e então o adbogado pôs-se-le a dar piparotes c’o dedo na ferramenta e a d’zer prò juíze:

- Atão como é que podia ser, este home, desta idade e co’isto que bosselência aqui bê, senhor doutor juíze, densorar a rapariga?

E tanto mexia, que o réu biu a cousa mal parada e disse, munto aflito:

- Num mexa tanto, senhor doutor! Num mexa tanto, quando não inda perdemos a causa!...»

segunda-feira, novembro 15, 2004

Sombra

Nestes dias de meados de Novembro, com o sol cada vez mais baixo, as sombras multiplicam-se, afastam-se, espalham-se de encosta a encosta. Por vezes, no seu voo, quando passam mais rente às linhas de festo da serra da Seixa, as aves chegam a perder-se da sua própria sombra.

domingo, novembro 14, 2004

Um regresso, 11

As tílias; e depos os fetos, a urze, o tojo, as giestas, os codessos; e depois os amieiros, os freixos, os sabugueiros, os negrilhos; e depois as plantações extremes de pinheiro bravo; e depois, de novo, a urze, o carvalho e o tojo; e depois, continuando a subir, as bétulas, os abetos, os pinheiros de riga; e depois, descendo, os castanheiros nos vales abertos.

Seguindo este caminho, só depois dos castanheiros (e do verde, do azul, do violeta, do castanho, do amarelo, do cinzento) começam as primeiras casas de Codeçoso.

Um regresso, 10

A capela acabada de construir em 1688, as inscrições no granito com a era de 1786, os canastros de 1887, o edifício da Junta de Freguesia erguido em inícios da última década do século XIX,um portão de ferro de 1903, os muros do cadastro, o calvário, o pelourinho, as latadas, os pequenos pontões de granito, as regueiras, a casa do Janela, a casa e o jazigo dos Mourões, a casa e o jazigo dos Enes.

Em Codeçoso sobe-se uma rua e é como se estivéssemos a entrar nas páginas numeradas dum livro de História.

sexta-feira, novembro 12, 2004

Regresso Ausente, 1

António Modesto Navarro é militante do Partido Comunista. António Modesto Navarro é escritor. E começam, claro, os nossos problemas de leitores a quem interessa a literatura mais que a circunstância – ou a literatura apenas. Sobretudo porque Modesto Navarro não escreve desligado das suas causas. É, pois, um escritor militante.

Confesso que esta circunstância – que de um modo geral me afasta – se constituiu, no presente caso, como um factor de acrescido fascínio. Talvez porque a literatura e a militância, no caso nomeadamente do seu livro que mais me pertence (Regresso Ausente – um corte na escuridão transmontana) se enraíza numa geografia e numa cultura de que chego a presumir conhecer a matriz, os símbolos e as realidades.

Poderemos, pois – autor e leitor – não partilhar muitos dos princípios, das propostas, do modo de olhar: mas neste caso um outro desígnio, mais fundo e irredutível, nos aproxima: o amor por uma terra que, como todas as terras do mundo (deixemo-nos de merdas), se quer livre.

Regresso Ausente, 2

Em Março de 1991, Modesto Navarro ofereceu-me um exemplar de Regresso Ausente. Na breve dedicatória há uma espécie de desistência anunciada: «Ao José Carlos Barros, este regresso que não mais será definitivo». Eu tinha lido o livro alguns anos antes, na casa paroquial de Vilar de Perdizes. Nessa altura – Primavera de 1984, durante mais uma visita memorável ao padre Fontes – estava ainda longe de saber que um dia talvez pudesse subscrever, uma por uma, essas palavras.

Regresso Ausente, 3

«Porque, a uma esquina, surde a violência; o gesto da rapariga, vivo, surpreende as pessoas; no jardim, à tarde, a criança alegra-se com o sol; as montras da livraria conseguem transmitir confiança e também as árvores retêm em si o sussurro do que está vivo. Não deixaremos matar a esperança, frase soletrada enquanto a dor aguda nos trespassa, como se não houvesse mais alegria. Nas ruas, quanta alegria ainda virá sulcar os dias, mais reconhecida, pesando nos corações como o silêncio doce da infância.»

António Modesto Navarro, in Regresso Ausente – um corte na escuridão transmontana, ed. ORION, s/d [1982].

quarta-feira, novembro 10, 2004

As Tílias

Não saberemos nunca de que lado aqui
o seu olhar partiu em direcção ao
rio, à curva do muro, à sombra também
dos lódãos em setembro a caminho do azul

e outras águas. Raras vezes a manhã
terá morado assim as suas vozes no
crepúsculo, devagar abrindo junto à casa,
aos poucos degraus por onde cresce o

morangueiro, o alecrim, o pequeno sol
da infância, a crueldade ainda do inverno
repetindo modos de perder as coisas.
Hoje as abelhas talvez apenas demorem mais

tempo na corola de fogo do seu nome,
no telhado novo, na laja da mesa onde
o esquecimento adormece com as mãos
dobradas em quatro sobre o pano da memória.

segunda-feira, novembro 08, 2004

Boa vida

Maria de Lourdes Modesto fala da sua «paixão por Trás-os-Montes» e confessa que já a «roíam as saudades do Barroso». Sopa do pote, bola pobre de centeio, uma posta assada no espeto e níscaros (no dicionário insistem nos 'míscaros') apanhados na serra - eis o roteiro breve de uma mesa onde não faltou a flor de sal.

Se a flor de sal era de Castro Marim ou da Ria Formosa, a brincar a brincar juntou o melhor de dois mundos. E portanto, mesmo não tendo sido convidados, só lhe podemos agradecer e dizer-lhe que nós é que ficámos «roídos de saudades» - e de inveja.

sexta-feira, novembro 05, 2004

Um regresso, 9

A sombra muito azul a espalhar-se nos declives de Valdarada quando as tardes de novembro começam a descer e a desaparecer por detrás dos pinheiros bravos.

Alguns nomes

Ao longo dos próximos tempos gostaríamos de revisitar os livros de alguns autores a quem a Presa do Padre Pedro se sente particularmente ligado. Começámos com A. M. Pires Cabral, António Lourenço Fontes e Bento da Cruz. Na calha estão já outros nomes: António Cabral, Modesto Navarro, Francisco José Viegas...

As nossas afinidades electivas são, não raro, marcadas pela geografia. Foi em Trás-os-Montes que conheci todos estes autores. Foi em Trás-os-Montes que todos eles nasceram. Não há coincidências... Mas em todos os casos conheci os seus livros e aprendi a gostar dos seus livros antes de conhecer pessoalmente os autores. Do que se trata aqui, portanto, é de literatura (e incluamos nessa designação os textos etnográficos do padre Fontes). Mas é também de um território que liga nomes, livros, afectos e sabe-se lá bem mais o quê...

Ora acontece que de coisas assim nunca ninguém se conseguiu livrar...

quinta-feira, novembro 04, 2004

Bento da Cruz, 2

Bento da Cruz há-de ocupar-nos por algum tempo. A sua obra é rica, diversificada, e talvez uma das mais brilhantes introduções ao mundo mágico das serras e dos planaltos do Barroso – ou seja, do mundo. Hoje deixaremos apenas um excerto retirado do livro «Contos de Gostofrio e Lamalonga», e mais tarde, com vossa licença, regressaremos.

Eis, pois, uma breve passagem para começarmos a afinar todos pelo mesmo diapasão:

«Um ano tocou o burro com o merendeiro à Senhora do Pranto e prendeu-o ao muro do adro. Durante a missa cantada, o asno começou a zurrar para as fêmeas ali presentes. Os padres entreolharam-se, desconsolados por o burro desentoar um pouco do gregoriano deles. E o oficiante, ao entoar o Credo in unum Deum, ordenou, em oníssono:

-Façam calar essa besta!

Gervásio correu ao adro e foi-se ao burro com o pau:

-Num te bato por cantares bem ou mal. É só por num aparelhares c’ os outros...»

Bento da Cruz

Hoje ainda, mais um grande escritor português. Que por acaso também é transmontano. Que por acaso também é barrosão. E um livro: Contos de Gostofrio e Lamalonga (Editorial Notícias, 1993).

quarta-feira, novembro 03, 2004

Azia

Muito come o tolo mas mais tolo é quem lho dá.