Presa do Padre Pedro

sexta-feira, dezembro 31, 2004

Memória do Verão

Gardunho

A meio da tarde
as águas deslizam
pelas fendas do xisto


Granja

Nos terraços de cimento adormecem
as exasperadas sílabas
do lume


Cerdedo

Nas sucessivas cumeadas
uma labareda
arde devagar

terça-feira, dezembro 28, 2004

Se ao menos nevasse

Nesse tempo chegávamos ao natal pelas estradas
dos ingleses construídas em yes
num emaranhado de malfadadas curvas em obras que haveriam
mais tarde de justificar discussões políticas sobre
o emprego dos fundos comunitários
uns diziam que era preciso o progresso avançar
assim ao ritmo do asfalto cortando declives
aproximando as encostas de um e outro lado do vale mesmo
ou sobretudo que a urze e a lírica passassem ao caralho
outros que na educação e na formação é que estava
o futuro de um povo e por essa altura vá
lá saber-se porquê davam como exemplo a dinamarca

As minhas primas cagavam-se no discurso ideológico e
metiam-se às costelas de vinho e alho à carne da peça
às rabanadas e ao vinho quente das fatias de parida
a lírica delas eram os sonho fritados às colheres até
rebentar ou golpearem-se à tesoura
as filhós as orelhas de abade o
bolo de monja com seu bico de grinalda e muitos ovos que
as galinhas quase nem davam feito e
na consoada amandavam-se gulosas ao polvo e
ao bacalhau cozido e à couve galega idem com
azeite de vila flor a escorrer-lhes salvo seja
dos carnudos lábios adolescentes
que era um mimo

E chegávamos também ao natal pelo
tronco dos vidoeiros antes da neve e pelo fogo do pobo e
pelo presépio nos degraus da câmara
com musgo e serradura nos caminhos e santinhos de barro
esculpidos decerto em braga em tamanho natural que
a gente era como se o menino jesus tivesse acabado de nascer
e até se benzia mesmo antes da missa do
galo quando o meu tio baptista bêbado que nem uma puta
rezava o pai nosso em siríaco e a família
tapava o rosto com as mãos muito
dividida entre o orgulho na erudição clássica do
velho seminarista e a vergonha pela sua queda em
sentido literal pelo tinto de valpaços

Talvez o problema seja só o
de envelhecermos mal e nos habituarmos a
culpar o mundo em abstracto a
darmos um outro nome à tristeza que a nós mesmos apenas pertence
talvez o problema seja desta raiz metálica que
nos perfura o estômago e
que nem folhas dá quanto mais flores a
verdade é que tudo agora é difuso e insípido
a gente chega ao natal de auto-estrada pagando as portagens
e ele é o algodão nos pinheirinhos de plástico com
o logotipo da sociedade ponto verde a
garantir que tudo será reciclado e
apetece logo poluir o alto do larouco
a gente chega ao natal e ao meu tio baptista dão-lhe
comprimidos e chá de cidreira
e até o clafouti de maçã reineta já não leva conhaque e vai
ao forno com manteiga sem sal e
as minhas primas muito magras erguendo-se a medir a cintura
discutem a dieta e as sessões de mesoterapia
e se bem compreendo não coisam nem com os legítimos esposos se
a retoiça não vier especificada na tabela de calorias do livro que
é agora uma bíblia
da senhora doutora isabel do carmo

Que saudades da neve se
ao menos nevasse
penso por instantes enquanto
venho à rua e acendo um cigarro
às quatro da manhã


José Carlos Barros, in 365, nº 18

«Nesse tempo chegávamos ao natal pelas estradas/ dos ingleses construídas em yes». Ora nem mais: hoje ainda, aqui na Presa, um extenso e laborioso poema sobre o espírito da quadra. Até já.

segunda-feira, dezembro 27, 2004

Ainda o Inverno



[fotografia de Georges Dussaud]

Inverno

a neve
a sua luz exígua
adormecida nos pátios

Neve

a meio da encosta
a água
muda de nome

O azul

só o branco da neve mistura
o azul do céu
e o azul do mar

quarta-feira, dezembro 22, 2004

Memória futura

É um site notável: J. B. César foi à procura do que a incúria não levou ainda. Como me haveria de confessar no domingo, ali pelas bandas das Caldas de Chaves, às vezes é já difícil fotografar uma varanda, uma escaleira de granito, uma janela manuelina, uma rua, um telhado, um tanque, um forno do pobo, um muro, um prado permanente, uma fonte de mergulho, uma igreja do século XVII, um portão de madeira - sem apanhar no mesmo ângulo a telha de cimento, os muros de blocos, a estrada desenhada a lápis de cera, a moradia com volumes de chumaço, a terraplanagem, a ruína, a capela com um acrescento aleijão, o largo desfigurado por uma intervenção pública chieira: porque as aldeias de Trás-os-Montes, a par do abandono e da desertificação humana, entraram nessa espiral de devastação arquitectónica e paisagística que parece irreversível.

Não sejamos inocentes: já não há mundo rural, mas apenas mundo: e isso que designamos ainda por mundo rural, por facilidades de sistematização, é um espaço com fronteiras cada vez mais indefinidas onde a gente da cidade vai passear ao fim de semana num todo-o-terreno à procura do que já não existe: porque a casa e a paisagem não existem uma sem a outra; e a paisagem é o resultado da acção do homem sobre o território; e o homem do mundo rural, quando já não é pastor nem agricultor, e sobrevive da reforma ou vive de subsílios, desliga-se da paisagem. Portanto...

Ora isto não deveria significar o elogio nem a desculpa da incúria quase militante: o que se está a fazer nas nossas aldeias (umas vezes por desleixo, outras vezes por ignorância, quase sempre com sobranceria lorpa e lapardeira) é um crime.

Entretanto, J. B. César anda por aí a fotografar o que nos vai restando. São fotografias que vale a pena olhar, comprar, guardar. Enquanto é tempo.

segunda-feira, dezembro 20, 2004

Lugares, 2

A fronteira, esse monumento megalítico, grandioso, deixando a EN 311 rumo a Vilarinho Seco. Sim, os blocos de granito marcando uma paisagem de matos rasteiros, os lameiros, os muros de pedra arrumada que deveriam ser património da humanidade, o casario, o passadiço do largo, o relógio de pedra, a lenha de vidoeiro e carvalho arrumada nos telheiros, a casa do Pedro: mas também o abandono, o silêncio, o olhar dos velhos a falar de um tempo em que havia crianças na aldeia.

Lugares, 1

O caminho da Presa do Vale. Sim, os muros de pedra de Valdarada, os troncos das macieiras encostados aos muros, os freixos, a urze e o tojo, e depois os gralheiros do Terva, a pequena luz do inverno reflectida nas águas, os amieiros de ambas as margens tocando-se pela copa: mas também os pinhais devastados pelos incêndios, duma a outra cumeada, até perder de vista.

domingo, dezembro 19, 2004

Desencontro

Parti para Boticas mais cedo do que inicialmente previra; regressei mais cedo do que inicialmente previra. Conclusão: por um dia, mais coisa menos coisa, não me encontrei com Santos Passos... Culpa minha, claro: embora esteja previsto (e espera-se que desta vez não falhe...) um encontro um pouco mais a Sul, logo a seguir à passagem do ano.

Questão: se nos encontrássemos em Boticas, que lugares gostaria de partilhar com Santos Passos? Uma boa pergunta para respondermos amanhã.

Viagens na minha terra

Vale muito a pena seguir este relato de uma viagem a Portugal. Desde o início, claro: desde as peripécias da marcação, e confirmação, dos hoteis... E o mais que se verá, que a coisa promete...

sábado, dezembro 18, 2004

Regresso

Sim, hoje é dia dezoito. Cá estamos, portanto, com vossa licença. Até já...