Presa do Padre Pedro

segunda-feira, janeiro 31, 2005

A vaga

Isto vinha mesmo a calhar uma desgraçazinha que não decorresse da política caseira e que permitisse, digamos, a abertura do telejornal e mais quarenta minutos seguidos de reportagem pelo país real. Não é que a política nacional não esteja a dar pano, muito, para mangas e pantalonas. Mas começa a ser monótono. O que tinha mesmo interesse, vejamos, era por exemplo uma vaga de frio polar....


A jornalista estagiária rejubilou quando os comunicados da Protecção Civil começaram a anunciar sincelo generalizado acima da cota 50, pingentes nos beirais da Terra Quente, gelo nos esteiros da Ria de Aveiro, neve em Vila do Bispo e na Salema. Estava garantido mais um record para impressionar a Europa e deixar a tremer de vergonha os hóspedes do Hotel do Gelo, em Jukkasjärvi, onde a temperatura, nos quartos, raramente ultrapassa uns míseros sete graus abaixo de zero.


A estagiária rumou a Bragança (e já tinha quarto marcado para o dia seguinte em Vila Real). Em Bragança a temperatura desceu aos seis graus negativos [em 1987, sem vaga nenhuma, aproximou-se dos doze...]. A jornalista estagiária puxou as golas do casaco siberiano comprado no Coronel Tapioca e iniciou a reportagem, eufórica, desviando-se ligeiramente para que o operador de câmara captasse os transeuntes que se aventuravam, os irresponsáveis, a passear nas ruas em plena vaga de frio polar.


Depois duma jornada de trabalho em que não conseguiu melhor que um «ó menina, mas se é o tempo dele...» - a jornalista estagiária começou a descrer da possibilidade de entrevistar um esquimó algures entre Vila Pouca e Vila Real.

sexta-feira, janeiro 28, 2005

A cabala

Celorico de Basto ocupa o último lugar no índice de poder de compra concelhio. O senhor presidente da câmara anunciou a sua intenção de processar o Instituto Nacional de Estatística. Parece-me bem. Parece-me a resposta adequada. E não me parecia pior que o senhor presidente da câmara de Bragança processasse o Instituto de Meteorologia pelas baixas temperaturas que se têm verificado no concelho.

O que é o tempo

Os lobos

«Os lobos ultimamente teem aparecido n’ algumas freguesias fazendo os costumados destroços e por isso são perseguidos pelos lavradores que talvez em breve os extreminem.»

As damas

«Já se faz sentir na nossa terra a Primavera com tôda a sua pujança e explendor, tendo-se seguido aos ventos frios e nevadas dos últimos dias um tempo verdadeiramente primaveril.

É por isto que pessoas ilustres da nossa terra teem organizado passeios aos locais mais apraziveis dos arredores e em que a beleza dos dias se conjuga com a das gentis damas que lhes teem dado realce.»

Ler e escrever

«Que o ilustre professorado a quem cabe a espinhosa missao de desbravar a inteligencia inculta, consiga tambem diminuir a percentagem enorme de analfabetismo que a estatistica apresenta em todo o paiz e principalmente aqui onde de longe em longe se encontra quem sabe lêr e escrevêr pecimamente, são estes os nossos desejos tão profundos e ardentes quão sincera é amisade que temos a esta pequena Pátria e torrão que é o nosso.»

As férias grandes

«Encontra-se nesta Vila a passar as férias grandes o inteligente academico Armando Chaves, que este ano completou com bom resultado o exame de 3º ano de curso dos Liceus.»

Peritagem

«Afim de observar o prejuizo havido no automovel do nosso amigo e snr. Medeiros, de Murça, esteve nesta vila o snr. Martinho, da Regoa, delegado no norte da Companhia Atlantica.»


[in Ecos de Boticas, edições de 15 de Julho de 1918, 15 de Agosto de 1918, 24 de Fevereiro de 1920, 15 de Abril de 1920 e 1 de Maio de 1920.]

quarta-feira, janeiro 26, 2005

Rui Pires Cabral, 1

Este livro é uma pequena preciosidade. Editado pela Averno, dele se tiraram 300 exemplares em Abril de 2003. Rui Pires Cabral, poeta transmontano, é o autor de Praças e Quintais. E escreve assim:


Amigos perdidos

Os amigos levados pela vida
são os mais difíceis de aplacar, os mais
tiranos. Bárbaros de um país desconhecido,
bebem à taça os venenos do silêncio e crescem
desmedidamente na distância, desentendidos
da nossa solidão. E pensar que já fomos
irmãos de armas, que desenterrámos tesouros
nas mesmas ilhas, nos livros
mais inóspitos. Como são as coisas.
Terá sido tudo em vão? Dir-se-ia
que estávamos predestinados às mesmas
canções, a uma espécie mais certa de amor.
Pois sim. Nem sequer compreendemos
o que nos aconteceu.

terça-feira, janeiro 25, 2005

As mãos

Espero-te ainda como nesse tempo
em que dizias o meu nome a tremer de frio
com as mãos no lume.

segunda-feira, janeiro 24, 2005

O medo do inverno

para o francisco

Uma película de gelo cobriu as águas do açude. Uma película fina. Transparente. Onde só as crianças correm sem medo do Inverno, da sua rigorosa geometria.

Os degraus de casa

Nunca o Inverno subiu os degraus de casa. O Inverno adormecia no pátio as suas mais vorazes sombras.

Os decassílabos

A neve e o silêncio partilham as vagarosas sílabas da noite.

O vento

O vento deixa alguns dos seus nomes, algumas das suas vozes, nos ramos das macieiras mais jovens.

quinta-feira, janeiro 20, 2005

As águas




As águas do Terva, junto ao moinho do Pardo, descem da presa e avançam de novo num troço quase a direito até Onde se Juntam os Rios. Um pouco a juzante, depois das Tílias e da Presa do Padre Pedro, entrarão num vale encaixado, deixando a Poente o Alto do Tabulhão e as Pedras do Carvalhal, e pelo Nascente o marco geodésico do Formigueiro. Um pouco abaixo de Torneiros, quando a estrada de Fiães atravessa o Corgo do Pereirinho, vale a pena parar por instantes. E depois descer até à Paredela e seguir até onde o pequeno ribeiro do Seixo desagua na margem esquerda.

Olhas então as águas, iluminadas pela sombra leve do Inverno: e é como se tivessem acabado de nascer do fundo da terra.

quarta-feira, janeiro 19, 2005

Isto deve ser um engano qualquer com o poema de Milton

Diz-se aqui que em Boticas há «rios cheios de trutas». Pois eu confesso que gostava bem de saber – e poucas coisas mais desejaria do mundo – que rios são esses que estão «cheios de trutas».

Trutas

Faltam cerca de novecentas e noventa horas para o início da época de pesca. Escassos cinquenta e nove mil e quatrocentos minutos.

Miguel Torga, 3

«Carvalhelhos, 3 de Setembro de 1989 - Horas e horas de correria por este Barroso a cabo, num Domingo de romarias, na mira de assistir mais uma vez a uma chega de toiros. Mas não fui feliz. Em todas as aldeias visitadas, o grande acontecimento tinha já acontecido. Restavam dele apenas o doce sabor do triunfo ou o amargo da derrota. Na pega ribatejana, outra expressão da nossa virilidade e vitalidade, é o pegador que está em causa ao saltar para dentro da arena. Aqui, é a povoação inteira que se revê na luta entre o seu boi e o boi rival. E o desfecho do combate diz respeito a todos. Por isso, se vence, o deus testicular é festejado até ao delírio; se fraqueja e se rende, é amaldiçoado até às lágrimas.

Celebração colectiva, a turra é a mais sagrada cerimónia que se pode presenciar nestas paragens, onde cada acto tem a profundidade dos tempos primordiais e não há divindade sem terra nos pés. E eu sou uma natureza religiosa, sedenta de transcendente, que aprendeu nas grutas de Altamira que ele pode ter a figuração de um bisonte e é sempre uma resposta luminosa a perguntas obscuras do instinto.»

[Miguel Torga, in Diário XV. Edição do Autor. 1ª edição, 1990.]

Miguel Torga, 2

«Covas do Barroso, 8 de Setembro de 1987 - Uma bonita imagem de Nossa Senhora de Rocamador na igreja matriz, e o forno do povo ainda quente e a rescender da última fornada. Um lavrador, quando me viu ougado, meteu a navalha a uma broa e fartou-me. O comunitarismo, por estas bandas, não é uma palavra vã. Significa solidariedade activa em todos os momentos. Até a fome turística tem direito ao pão da fraternidade.»

[Miguel Torga, in Diário XV. Edição do Autor. 1ª edição, 1990.]

terça-feira, janeiro 18, 2005

Miguel Torga, 1

Podemos começar por aqui: pelos Novos Contos da Montanha. Por uma história simples: Felismino, ao romper da manhã, escuro ainda, ouviu bater à porta; era o Marta, armado de caçadeira, a convidá-lo para uma jornada de caça; o mesmo Marta que «não lhe perdoava tê-lo enfrentado na feira da Vila»; e que, supostamente, vinha vingar-se.

Felismino aceitou o convite: a honra impedia-o de ficar fechado em casa, à defesa, acobardado. Vestiu-se; «pôs o cinturão, tirou a arma do prego onde estava pendurada, abriu-a e meteu-lhe um zagalote no cano esquerdo e um cartucho de chumbo cinco no direito»; desceu; e seguiram juntos.

«Quem os visse, mal diria que cada um levava às costas a vida do outro, apertada nas câmaras da caçadeira».

A tensão é permanente: não cresce, não diminui; por várias vezes têm a sensação clara de que um deles não regressará a casa; por isso se vigiam em permanência; por isso nenhum deles dispara mais que um único tiro; por isso nenhuma das armas estará descarregada por um único instante; mesmo quando, depois do disparo inicial, uma segunda perdiz se levanta à distância de fogo.

É já tarde. Mataram vinte e quatro perdizes. Todas ao primeiro tiro. Sempre com um zagalote – o mesmo, desde o nascer da manhã – no cano esquerdo da caçadeira.

Regressam à aldeia. Despedem-se. Vigilantes ainda. Mas, de repente, quando parece que a tormenta já passou, há «uma pausa na restolheira que o Marta ia fazendo no matagal. O Felismino, atento, aguçou o ouvido, mas não se voltou. Continuou no seu chouto sossegado.

E, em vez do tiro que esperava, bateu-lhe nas costas a voz grossa do Marta, quente como uma baforada de vento suão:

- E ouça: o que lá vai, lá vai...»

segunda-feira, janeiro 17, 2005

Dez anos

Miguel Torga morreu no dia 17 de Janeiro de 1995. Faz hoje exactamente dez anos. Durante os próximos dias traremos aqui a sua memória através dos seus textos.

«Novos Contos da Montanha» é dos melhores livros da literatura portuguesa de sempre. Talvez pudéssemos começar por aí.

domingo, janeiro 16, 2005

Um outro azul

A neve é diferente para os que visitam a aldeia à procura dum outro azul e para os que ficam depois dos retratos e a vêem misturar-se na lama dos caminhos e das veredas que levam aos campos.

sábado, janeiro 15, 2005

Uma brincadeira

O Sebou telefona-me a perguntar se não vou a Boticas no fim do mês. Que quer organizar «uma brincadeira» no Gardunho. Responde-se o quê?

A casa do Gardunho

A casa do Gardunho fica no meio do pinhal. A meia encosta. Depois, muito vagarosamente, desce-se à margem do rio, à urze e ao tojo, primeiro, e depois aos salgueiros, aos freixos, aos amieiros com as raízes enterradas na água. Alguém dirá então que o mundo é tão pequeno - que entre uma margem e outra se suspendem nos seus fios todos os astros do universo. Como se as luas de Saturno demorassem por um instante a sua luz muito baça nas mãos que recolhem a lenha e acendem o lume.

quarta-feira, janeiro 12, 2005

Nesse tempo

De faróis acesos copiavam os dias contra
a tempestade e o vento nos vidros.
Às vezes jovens, às vezes indiferentes.
O óleo alastrava no asfalto e demorava por

instantes nos seus olhos vazios
e fundos. Do fundo da noite arrancavam
depois com espirais de fumo
perseguindo tudo o que por dentro

deles não queimava ainda. Contavam
pelos dedos, apressadamente,
as imagens, os movimentos, os nomes,
as casas mais próximas. Enganavam-se

e voltavam atrás como se pudessem
voltar atrás quando quisessem.

terça-feira, janeiro 11, 2005

A imprensa

Um homem assassinou três pessoas (entre as quais uma criança de nove anos) durante um assalto a uma residência . Foi preso, julgado e condenado à pena máxima. Entretanto começou a ter direito às chamadas saídas precárias. A primeira foi-lhe concedida em Março do ano passado; a segunda em Julho; a terceira em Dezembro, na época festiva do Natal. Deveria ter regressado à prisão a 27. Não regressou. Anda a monte (supostamente com uma arma de 9 mm). A TVI passou ontem no noticiário da noite uma entrevista telefónica com o triplo homicida. Não ficaram grandes dúvidas: trata-se de um psicopata de quem é de temer o pior. A população de Vila de Rei anda alarmada, porque o ex-preso foi visto nas imediações e terá sido já o responsável por três assaltos.

O Director Geral dos Serviços Prisionais, contactado pelo Público, «desvalorizou a mediatização do caso», esclarecendo que se trata de «uma pequena falha do sistema». De facto, de acordo com o sr. director geral, a concessão de saídas precárias obtém taxas de sucesso da ordem dos 99%. Por exemplo: em 2003, apenas 180 do conjunto de reclusos a quem foi concedida saída precária é que não regressaram voluntariamente à prisão; em 2002, só 206 reclusos é que ficaram a monte...

No caso do triplo homicida, o sr. director geral informa que se tratou apenas de «uma pequena falha do sistema» e desvaloriza a mediatização do caso. A culpa é da imprensa.

segunda-feira, janeiro 10, 2005

Tempo

A menina do boletim meteorológico garante que a temperatura máxima não ultrapassará hoje os dois graus positivos. Como dizia aqui há uns dias um amigo meu de Vilarinho Seco, isto bai um brãozinho.

domingo, janeiro 09, 2005

Camilo

Os romances de Camilo Castelo Branco param, não raro, em Terras de Barroso. Ficamos todos vaidosos. O Camilo esteve em Codeçoso, esteve nas Alturas, esteve em Sesserigo – e ficamos vaidosos. O Camilo fala na sopa de leite que lhe ofereceram em Sesserigo, na hospitalidade de portas abertas, no ar puro da montanha – e ficamos todos vaidosos. Mas este Camilo é um filho da mãe – e atreve-se ao desplante da insinuação rasca. E então a gente já nem sabe se lhe agradeça, se o excomungue. (Há-de depender dos pontos de vista, claro....) Mas no «Eusébio Macário» passou-se:

«Ele era oriundo de Barroso, onde as mulheres são cabeludas como cabras, e têm as pernas grossas, cepudas com borbulhas escarlates como rocas de cerejas, e mostram nos cotovelos umas durezas como cascas de mariscos» (cf. Eusébio Macário).

Eu isto parece-me um exagero. Seja como for – limito-me a transcrever...

sábado, janeiro 08, 2005

O País é pequeno

Beja vai ter um deputado eleito pelo Porto.

sexta-feira, janeiro 07, 2005

Diferenças

Seria de supor que houvesse algumas diferenças entre a lógica de preparação das listas de candidatos a deputados e a lógica de funcionamento dos Centros de Emprego. Mas até isso é já pedir muito.

quinta-feira, janeiro 06, 2005

Em Cartaz [Actualização]

Exclusivamente para amantes de design e artes gráficas.

Ver aqui, post nº 25 de 6 de Janeiro: «Evoluções Gráficas».

Ano novo, vida nova

De acordo com Pôncio Monteiro, o sr. dr. Santana Lopes ter-lhe-á confessado que já não tinha lugar para levar mais facadas nas costas; mas que afinal ele (dr. Pôncio) é que levou uma facada. Ora isto não é, como sustentam alguns analistas displicentes, um caso de gargalhada: parece, sim, um caso sério de polícia, e justificaria a intervenção da PJ, do Ministério Público, do Bastonário da Ordem dos Advogados, da TVI, do sr. Presidente Pinto da Costa, do sr. dr. Menezes e do sr. dr. Alberto João. A ver se a gente começa a sistematizar, a encarreirar, a levar a coisa a bom porto...

quarta-feira, janeiro 05, 2005

Ainda estamos em Janeiro...

Deve ser impressão minha, mas o ano novo começa-me a cheirar a chamusco...

segunda-feira, janeiro 03, 2005

Um ano novo

Sempre tive a sensação estranha de que o fim do ano não é o fim de nada em especial, que não fecha um ciclo, que não anuncia outro. Vejo toda a gente aos saltos, a gritar 3!, 2!, 1!, Zeeerooo!, a abrir garrafas de espumante barato, a esgazear a voz – e confesso que fico razoavelmente indiferente, a olhar de lado, a procurar participar também dessa alegria esfuziante a que adiro com dificuldade. Se o fim do ano fosse, digamos, aí por 22 de Setembro, 24 de Setembro – aí sim, também eu haveria de sair à rua, também eu haveria de gritar, também eu faria um esforço para arrumar as gavetas e deitar fora a tralha dos últimos doze meses, e esboçaria um plano de intenções para o novo ano que então se anunciava, e pulava e tudo. Porque essa seria a fronteira entre um ano e outro ano, entre o calor que começa a ser cada vez mais uma memória de dias muito claros e imensos e o frio que começa a anunciar-se. E, com ele, as árvores a perderem as folhas, as folhas a mudarem de cor, as primeiras camisolas de lã, as veredas na serra, a lenha nos telheiros, a chuva, o vento, a preparação das vindimas, a preparação do inverno. Como se tudo pudesse começar de novo. E então sim, haveria de saltar, de abrir garrafas de espumante barato, de gritar durante a noite como quem se despede dos medos, da tristeza, e sabe que tudo, tudo, poderá então começar de novo.