Presa do Padre Pedro

quinta-feira, março 31, 2005

Dois poemas de Ruy Ventura

11.
nenhum retrato
permitirá entender.
as linhas desfazem o corpo que representam.
um chapéu esvoaça sobre o vale.
o fumo eleva a resina.
não a dos pinheiros.
a da seiva que se descobre
no limiar da casa.

31.
fotografo tudo.
mas nada encontro
para revelar.


Ruy Ventura, in sete capítulos do mundo. Black Son Editores, 2003.

terça-feira, março 29, 2005

[O que é o amor]

O que é o amor senão estar sempre atento
aos mínimos sinais da tempestade
(ao pó que se levanta se uma ave
regressa das encostas com o vento,

ao bosque iluminado pelas sombras
das nuvens só azuis de ser tão cedo,
aos caules das searas, ao segredo
dos prismas de maré antes das ondas,

às rumorosas hastes onde o trigo
em julho se desprende das sementes)
– e vires de muito longe ter comigo,

amor (sobressaltado, em desvario),
apenas porque temes ou pressentes
que eu tenha medo ou possa estar com frio?

[Uma questão editorial]

A tiragem dos livros de poemas
raramente ultrapassa os trezentos exemplares:
no lugar das macieiras cresce agora um loteamento
com balaustradas e telha de cimento.

[Labirinto]

a memória desse tempo
e as fotografias desse tempo
contam histórias diferentes

domingo, março 27, 2005

[Terreiro]

Um automóvel desce em alta velocidade
a estrada de montanha. Colinas, encostas em declive,
um rio que nasce no meio dos bosques
iluminados. O automóvel corre
à beira da ravina,
levanta a poeira das bermas em volutas céleres,
desaparece na distância.
A carica adaptada a lamborghini
pára finalmente no jardim do castelo.
Eram assim as brincadeiras da infância
num metro quadrado de terra.

Páscoa

No baile dos Bombeiros, no balcão corrido do bar onde o Chá-Chá vendia cerveja e vinho a copo, jurei pelas noites de Junho que nada no mundo haveria nunca de separar-nos. Tu estudavas em Braga. Filosofia, parece. Lembro-me que disseste: «sabemos lá o que o futuro nos reserva, meu amor». No dia seguinte procurei-te, eram duas da tarde, já tinhas saído. Até hoje.

[Cicatriz]

Nesse preciso instante não compreendemos
que a nossa vida nunca mais
poderia ser a mesma. Que poder é esse
dum rosto que tocamos,
dum nome que dizemos a tremer de frio?
Éramos tão jovens, pensávamos
que uma nova cicatriz
oculta a cicatriz pretérita,
e assim sucessivamente.
O tempo não ensina,
reconduz ao erro.

sábado, março 26, 2005

[A luz excessiva]

Não nos ocorria que a luz excessiva derramada nos pátios
era já um sinal da futura escassez, da pequena
lâmina do medo que mais tarde levámos nas mãos
ao atravessar a fronteira: mas não apenas a luz
desbaratámos como se pudéssemos sempre regressar
e recolhê-la, e desbaratá-la de novo
para de novo a recolher: porque tínhamos tudo: até
a presunção de que a abundância e o poder,
correndo nos andaimes das obras ou no murete da torre,
são imunes às quedas. Se amávamos
era como se o amor nos pertencesse para sempre.

quinta-feira, março 24, 2005

ITÁLICO

À portuguesa

Se algum dia vierem a Londres e virem uma ford transit branca a andar muitíssimo de lado nas curvas, a andar em duas rodas em pisos menos escorregadios, a ultrapassar ferraris e lamborghinis, a fazer piões completos com travão de mão nas inversões de marcha, não pensem que são as filmagens do novo 007 – sou eu a dar show de condução à portuguesa! Nem eu mesmo sabia que dava para fazer tanta coisa com uma transit! O meu novo colega Basco mata-se a rir. Não me admira que na última sexta-feira alguém tenha telefonado para a minha empresa a dizer a rua onde eu tinha passado e acusando-me de: he is driving like a maniac! Os condutores de Londres são muito civilizados, nunca apitam, mal vêem uma pessoa a olhar para a passadeira param logo e não arrancam enquanto a pessoa não passa completamente para o outro lado da rua! Quando paro num semáforo vermelho, e paro mesmo junto à passadeira, divirto-me a mandar uma aceleradela forte, fingindo que vou arrancar ao ver o peão a atravessar a passadeira. Os ingleses, que andam sempre com pressa e não estão habituados a esta falta de fairplay, mandam altos saltos, desatando a correr , e fazem caretas de morrer a rir.

[Luís Alves]

A ilusão do regresso

O lento amanhecer de uma tarde de junho
pode trazer essas feridas antigas,
a ilusão do regresso à partilha das águas,
ao fogo
que nenhuma distância arrefece.

Quem não merece
o amor?

quarta-feira, março 23, 2005

[poema visual]



passaste por mim
e foi mais ou menos
assim

No adeus

Sabíamos que o amor tudo vence. Só não estávamos preparados para que nos vencesse a nós mesmos.

terça-feira, março 22, 2005

[a literatura]

Há uma luz que se acende quando os teus olhos
movem os astros
e uma nuvem se desprende dos ramos dos olmos
iluminados.
E das vertentes frias nascem as águas.
E os incêndios descem dos livros
como se a raiz das palavras
por um instante poisasse
na pele indecisa
dos teus ombros.

[as palavras que nunca te direi]

espero-te
ainda

segunda-feira, março 21, 2005

[caderneta militar]

se tu me dissesses por uma única vez
«meu amor»
eu desertava

Às vezes mais valia estarmos calados

Eu:

-Já viu? Cá estivemos nós cinco dias sem água canalizada, sem electricidade, sem rede de telemóvel, sem internet... E o mundo não acabou...

E ele:

- Pois olhe: quanto à internet não sei, que não sei que coisa seja; mais de resto, vivi assim quarenta e cinco anos...

terça-feira, março 15, 2005

Trivial Y

E pronto. Arrisco-me a mudar de vida. Nem mais nem menos que deixar o ambiente e o ordenamento do território, e passar a manager dum grupo de Metal. É verdade: em pleno Barroso, e cá estou eu a discutir pormenores do ofício com o guitarrista e vocalista duma banda que se arrisca a mudar toda a história da música: senhoras e senhores, façam favor de começar a ter em atenção este nome: Trivial Y.

a) Para marcações ou informações suplementares, por favor usar o mail ali do lado direito.

b) Luís, como é que é: aí em Londres não se arranja um concerto?

É assim

E portanto é assim: cá estou em Boticas, em pleno Barroso, a escrever um post no café do Mercado...

domingo, março 13, 2005

Óbvio

Claro que Mota Amaral, e não Cavaco Silva, é o candidato natural da direita nas presidenciais. Um bom candidato.

Inverno

em vez das tempestades
as tuas mãos erguiam-se no ar
e passavam as aves

Primavera

se saías de casa
o degelo
começava

Outono

a última folha
fica suspensa nos ramos do plátano
enquanto as tuas inúmeras frases
demoram o vento
nas manhãs
de setembro

Verão

acima de tudo
mais que um rastilho
os bombeiros voluntários temiam
que o teu corpo adormecesse
no restolho

sexta-feira, março 11, 2005

Há pessoas estranhas

Há pessoas estranhas. Pessoas para quem o amor é a coisa mais importante do mundo; mais importante que a saúde, por exemplo. E que depois, se o amor as trair, adoecem.

quinta-feira, março 10, 2005

O Estado

Em algumas repartições públicas havia antigamente um livro gigantesco, poisado geralmente numa tábua de estante à altura de meio corpo, onde, diligentemente, se fazia registo diário das entradas (e saídas?) da correspondência oficial. A história foi-me contada por um velho amigo (o meu tão saudoso amigo Marreiros), e penso que se reporta a inícios da década de cinquenta. Passa-se numa pequena vila de província onde o movimento de documentos, de requerimentos, de solicitação de informações, não era propriamente de monta. Ainda assim, o Estado destinara a um funcionário específico a execução dessa tão decisiva tarefa: mais coisa menos coisa, o essencial do seu labor quotidiano consistia em fazer anotação identificativa da meia dúzia de processos que davam entrada nos Serviços: data, assunto, nº de processo, pasta de arquivamento.

Pois contava-me este meu velho amigo que o tal livro, sobretudo em função do reduzido número de processos em tramitação, se revelava duma inutilidade espantosa, e que uma única vez se recorda de ter que recorrer a essa memória escrita laboriosamente. Mas, para seu grado espanto, a caligrafia do funcionário revelava-se de uma absoluta inteligibilidade. Chamou-o, e pediu-lhe que identificasse o processo assim-e-assim. E ele, atrapalhado, confessou então, seguindo as linhas com o indicador direito, a dificuldade que sentia em decifrar a sua própria caligrafia. «É que não ligo muito a isto, compreende?» - explicou então o diligente funcionário do Estado: «se formos a ver, isto também não serve para nada...»

Ou seja: um funcionário público passou o melhor da sua vida numa tarefa que ele próprio reconhecia como inútil, desnecessária, escusada, dispensável.

quarta-feira, março 09, 2005

Nenhuma sílaba

Chegavas – e era como se o mundo tivesse acabado de nascer. Como se não houvesse ainda nenhuma sílaba para dizer o teu nome.

Quase tudo

Quando tinha dezasseis anos queria quase tudo. Hoje só queria ter dezasseis anos.

terça-feira, março 08, 2005

Para sempre, 2

Nesse tempo choravam muitas vezes. Mas eram eles que limpavam sempre as lágrimas um ao outro.

segunda-feira, março 07, 2005

Contra os génios costuma ser complicado

Claro que o Sporting perdeu. Mas atenção: quem marcou o golo do Belenenses foi o Pelé. Ora, defrontar uma equipa que tem o Pelé na frente de ataque...

Futebol

«Não há nada que se fale que não se pague.»

domingo, março 06, 2005

O FCP ganhou

[para os meus amigos Zé Manel, JF e Francisco, com saudações desportivas]

José Couceiro já foi capaz de restabelecer, e elevar, os níveis de confiança da equipa. Dá gosto ver o modo como os jogadores do Porto correm no campo, o modo como movem os braços levantados e os cotovelos, dá gosto ver a entrega, o esforço, o suor, a cacetada, a entropia. Agora só falta pôr a equipa a jogar bem. E isso, como se sabe, é o menos: é uma questão de tempo - mais ano menos ano, vai lá...

Equilíbrios

Sim, não se pode dizer que a composição do Governo augure uma política muito de esquerda. Mas a presença do sr. Ministro dos Negócios Estrangeiros, tendo presente o seu artigo na Visão e as posições conhecidas sobre as relações transatlânticas – enfim, sempre equilibra.

sábado, março 05, 2005

Maldade

Isto é maldade: há muito boa gente a insistir que o País tem funcionado com normalidade, sem sobressaltos - porque não temos Governo em funções...

Telejornal

A RTP não topou com fotografia da nova ministra da Educação que pudesse estampar no organigrama governamental. Ora isto parece um bom começo, uma excelente notícia para as escolas, os alunos, os professores.

Jogo

António Vitorino não faz parte do novo elenco governativo. António Guterres começou hoje a ser riscado do jogo das apostos das presidenciais?

O tamanho é importante

De Marques Mendes, com tão reiterados apoios, não se poderá dizer que não esteja a crescer.

quinta-feira, março 03, 2005

Tempos

Não acho que seja melhor ou pior. Não sei. Sei apenas que é diferente – e que essas diferenças são de tal modo decisivas que marcam dois olhares distintos e duas formas distintas de ver, sentir e compreender o mundo. Não, não é a nostalgia da infância, da adolescência, do tempo que passou, dum tempo em que suspeitámos que a vida e o movimento dos astros chegaram por um instante a coincidir. Não – é apenas (como se diz em francês...) uma constatação.

Os jovens, aqui há uns anos, viviam na rua. Isto parece a pré-história contada por um velho sobrevivente – mas era assim: passavam-se dias inteiros em corridas de bicicleta na Avenida do Eiró, correndo no Outono sobre o tapete de folhas dos plátanos que foram entretanto cortados um a um; jogava-se aos campeonatos por detrás da Casa das Opas, ou nos relvados do lameiro do Fontão; apanhavam-se míscaros nas encostas do Ribeiro da Piouca, e às vezes procurava-se o desenho desse labirinto que trazia da Esculca o Corgo do Colado e que trazia do Candão o Ribeiro de Calhelhas; pescava-se na Pala, descia-se até Onde Se Juntam os Rios, subia-se à presa do Pardo e ao Vale Sagrado, e depois, passando a ponte de Requeixe, havia quem se aventurasse até à Presa do Vale, ao Poço das Piúcas, ao Lajedo; cortavam-se varas de lódão ou os ramos finíssimos do salgueiro do Nóro; corriam-se as veredas; e as árvores, no Verão, tinham cada uma a sua sombra específica, conforme o nome específico que se dava a cada uma das árvores.

Os jovens de Boticas, hoje, passam a tarde nos computadores da Biblioteca ou do café do Mercado. Vinte computadores estão permanente ligados ao mundo, e são usados quase em permanência. Repito: não é melhor ou pior: é diferente. Quando encontro os amigos antigos, e falamos do tempo antigo, o que vem à superfície é a nostalgia de um rio e das suas margens, duma árvore, da luz do Inverno poisada no Alto dos Termos. E eles? Daqui a uns anos, estes jovens de hoje que memórias terão para contar do tempo que agora vivem, célere, voraz? Nostálgicos, falarão eles de quê? Do primeiro rato sem fios do web-café do Mercado? Da primeira pen com duzentos e sessenta e seis megas que compraram em Chaves?

quarta-feira, março 02, 2005

O milagre



O frio é apenas um dos tributos que é preciso pagar para que a Primavera, mais tarde, nos traga o milagre das cerejeiras em flor.

terça-feira, março 01, 2005

Para sempre

Durou o quê? Um fósforo. E no entanto escrevíamos os recados do amor com tinta permanente.