Presa do Padre Pedro

sexta-feira, abril 29, 2005

Ficções, 3



«El camino de los Taranjales»
JCB, lápis de cera sobre papel.

quinta-feira, abril 28, 2005

Exercícios de Física, 3

O sistema

Às vezes sinto que os teus movimentos actuam em mim como uma força constante mas de sentido oposto à velocidade a que deixo seguir o meu corpo em direcção à vertigem. E no entanto, meu amor, ambos sabemos que nenhuma fracção de energia é transferida para fora do sistema.

Exercícios de Física, 2

Energia cinética

Nem sempre me dá para rever os livros do liceu. Para compreender melhor as aparentes contradições teóricas. Como esta, por exemplo, de te saber em repouso e simultaneamente saber que estás carregada de energia cinética até ao limite das leis naturais.

Exercícios de Física, 1

para o meu amigo Luís Fontes

O trabalho

Fico a teu lado, sentado, fascinado, com o coração nas mãos. A ver-te dormir. Imóvel, contendo a respiração. E no entanto sei que realizo um trabalho. Porque há transferência de energia. E porque o meu ponto de aplicação, meu amor, se desloca no tempo e no espaço.

quarta-feira, abril 27, 2005

5: Roça: o carvalho, os vidoeiros


JCB


JCB


JCB

4: Uma encosta do Terva

Descendo pela margem esquerda
do corgo, subindo depois
pelo caminho de pé posto
inscrito a tracejado na carta
militar (folha 046, ed. de 1997)
e olhando os carvalhos a partir
da cota inferior do talude,
acreditamos por instantes que
mais nada existe no mundo,

nem a devastação cúmplice
que retirou dos lugares
cada uma das pedras
que lhes pertence, nem o lixo
em aterro em que nos
transformámos, nem a verberação
de nos ser permitido
decidir por nós mesmos,

e que, por instantes,
é como se cada uma das vozes
só agora começasse a ter um nome,
ou como se o rumor
das raízes da urze
disparasse na encosta
à procura da água,

ou como se as aves
que riscam o céu
riscassem o céu
pela primeira vez.

terça-feira, abril 26, 2005

3: A Eira


JCB

2: Ardãos

Há um azul que se desenha só depois da chuva. Quando as nuvens arrastam consigo, a custo, o odor dos prados humedecidos ainda nos seus caules minúsculos. Quando a tarde se desprende dos ramos muito finos dos salgueiros da margem. E uma mulher, uma mulher a quem recusam o nome, sobe aos terraços, incógnita, à espera do milagre da lenta evaporação da água dos açudes.

segunda-feira, abril 25, 2005

1: Cerdedo

Cerdedo, primeiro. As linhas de cumeada. O amarelo das giestas a descer a encosta. A urze, o vento, uma nuvem de silêncio como se delimitasse uma fronteira. Como se o vento subisse às varandas e alguém, desistindo, fechasse as janelas e se recolhesse ao silêncio da casa. Antes de ser noite. E só então começasse a chover.

quinta-feira, abril 21, 2005

A primeira vez

Sentada na escadaria da escola secundária, encostando a cabeça no ombro da amiga que parecia tentar reconfortá-la, chorava aquele choro lento, aguacento, cavado, de quem pela primeira vez sofre um desgosto amoroso, de quem pela primeira vez conhece a desilusão do amor. E apeteceu-me também reconfortá-la; ficar ali por instantes; dizer-lhe «deixa lá, isto só custa as primeiras cem ou duzentas vezes, depois passa».

Curar o vício

Eu estava há cinco minutos sentado na sala de espera da clínica. Comecei a ficar nervoso, a mexer as mãos. Levantei-me, vim à janela, olhei os jacarandás da pequena praça contígua, sentei-me e acabei por acender um cigarro. Levantei-me de novo, dirigi-me ao balcão e perguntei à funcionária, inocentemente, se não havia cinzeiros. O seu olhar quase me fulminou, simultaneamente a desviar ligeiramente o rosto afastando-se das volutas de fumo. Pareceu-me mal. Se estão à espera que deixe de fumar antes ainda da primeira consulta dum tratamento que visa curar-me do vício, então escusava de me inscrever, pagando, numa clínica de especialistas.

Confesso que não é das coisas que mais me têm preocupado ultimamente

«Um autocarro em hora de ponta é um testemunho da tolerância humana. Meia centena de homens e mulheres encurralados numa plataforma ambulante, sufocados pelo calor ou encharcados, apressados, preocupados, adoentados, mal-dormidos, mal-amados, fedorentos, reumáticos, com escassos recursos de lugares sentados e pontos de apoio que só muito raramente se envolvem em cenas de pugilato físico e verbal.»

quarta-feira, abril 20, 2005

Rua

Há mulheres que passam por nós e compreendemos então o significado da expressão «rarefazer o ar».

Sobre livros

Muito bem, António: aí vai:

Não podendo sair do Fahrenheit 451, que livro quererias ser?
Um livro de Robert Doisneau.


Robert Doisneau, Le Basier de L'Hotel de Vilne, 1950.

Já alguma vez ficaste apanhadinho por um personagem de ficção?
Já.

Qual foi o último livro que compraste?
«Um sorriso inesperado», de José Riço Direitinho. Veio matar-me as saudades de «A Casa do Fim» e do «Breviário das Más Inclinações».

Qual o último livro que leste?
«Equador», de Miguel Sousa Tavares.

Que livros estás a ler?
Só costumo ler um livro de cada vez. Estou a ler «Fisteus era un mundo», de Lupe Gómez, sobre o universo duma aldeia transmontana (perdão: galega).

Que livros (5) levarias para uma ilha deserta?
Cinco? «D. Quixote», de Cervantes. «A Cartuxa de Parma», de Stendhal. «Ficções», de Jorge Luis Borges. «A Luz em Agosto», de Faulkner. «Novos Contos da Montanha», de Miguel Torga. «Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico», de Orlando Ribeiro. «Os Passos em Volta», de Herberto Helder.

A quem vais passar este testemunho (três pessoas) e porquê?
Três? À Marina
e ao Helder. Porque sim.

terça-feira, abril 19, 2005

[XVI]

Escolhemos sempre, mesmo quando escolhemos não escolher
e deixamos que a sombra, escolhendo em nosso nome,
prossiga os seus trabalhos de escurecer
a cal.

[Os amigos, 2]

Isso os perdeu: a felicidade
e a certeza de que o mundo os haveria sempre de juntar.
De que ficariam imunes ao ultraje,
à ignomínia de rodarem os astros
sem que uma luz se movesse
nas frases dos seus nomes
ou a mais longínqua morada os acolhesse
quando viesse a tempestade.

Os amigos, 1

Há sempre coisas que ficam por dizer.

domingo, abril 17, 2005

Mudança, 4



Arrumar os livros. Vagarosamente. Escolhendo afinidades: os poemas de Rui Pires Cabral junto dos poemas de A. M. Pires Cabral; o D. Quixote próximo de Borges; O René Bértholo junto ao Nuno Júdice; O Camilo (por qualquer obscura razão) junto ao Eça de Queirós. Etc.

Mudança, 3



Arrumar (por lugares) os esboços de projecto dos jardins dos amigos.

Mudança, 2



Mudar de casa.

Mudança, 1

A Presa do Padre Pedro é [a partir de hoje] um blog acrescentado entre Boticas e Cacela. Entre Trás-os-Montes e o Algarve. Entre os muros de granito de Valdarada e uma parede de calcário da Fazenda. Entre as represas do Terva e a oscilação das marés na Ria Formosa. Entre as encostas de Cerdedo e a praia da Lota. Entre os carvalhos a caminho de Carvalhelhos (e que dão o nome a Carvalhelhos) e as alfarrobeiras da Coutada. Entre um e outro azul. Entre duas águas que um estranho milagre às vezes une, às vezes separa para que se vejam melhor.

sábado, abril 16, 2005

Ficções, 2



«Os planos municipais e os relógios que deflagram».
J. C. Barros, técnica mista sobre tela.

Ficções, 1

Ver aqui.

sexta-feira, abril 15, 2005

[A assimetria]

Numa despedida a assimetria chega a ser cruel:
as lágrimas
de um
são tão diferentes das lágrimas
do outro.

Às vezes
um
nem olha disfarçadamente sobre o ombro quando se afastam
e pode acontecer que de imediato fite o relógio
dizendo por exemplo «foda-se já estou atrasado
só amanhã é que posso comprar os sapatos».

Às vezes
outro
sente que a vida de súbito deixou de fazer sentido
ou que não há lugar no mundo que possa acolher tanta tristeza
e corre a comprar lâminas e hélices de cortar os pulsos.

As mais das vezes
só o que corre a comprar lâminas e hélices de cortar os pulsos
é que acaba por se salvar.

E depois do adeus

Estás a ver? Eu não dizia? Sempre acreditei que regressavas, meu amor!

[Embora, afinal, tivesses regressado apenas porque deste pela falta das botas de cano que deixaras por esquecimento na sapateira da dispensa - desaparecendo de novo num ápice. Seja como for: espero ainda. Sempre.]

quinta-feira, abril 14, 2005

Lupe, 1

«Para unha muller medrar é como negarse a si mesma. A aldea ensinaba que o ideal é quedarse sempre pequena, sen que nunca nos veña a regra, sen que nunca teñamos contacto sexual cos homes. Os homes eran como uns violadores para min e para as mulleres da aldea. Eu non entendía ese medo ao outro sexo e sempre foi importante para min superalo. Había unha educación herdada de que o sexo era algo pecaminoso, sagrado, escuro. Portas dunha casa na que nunca debías entrar. E iso aínda daba máis ganas de atravesar esas portas, rompelas, facelas estoupar, abrir o sexo, descubrirse, sangrar, amar. O amor, en certo modo, foinos negado ás mulleres.»

Lupe Gómez, Fisteus era un mundo. Froita do tempo, Promocións Culturais Galegas, 2001.

A Casa, 2

A humidade deixou na parede o rectângulo do retrato a sépia emoldurado em pau de cerejeira com motivos florais. A parede não ruiu ainda. Mas a memória desse retrato (e dessa tarde de Verão em que alguém jurou para sempre o amor) permanecerá mesmo depois da ruína, dos escombros, do entulho, do pó levantado pelas máquinas na demolição das pedras sobrepostas, do barro, do cascalho, do estuque, das imagens antigas.

terça-feira, abril 12, 2005

A caminho do rio

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O rio

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Salmo trutta fario L.

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O rio, ainda

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Os trabalhos domésticos

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O regresso

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A Casa, 1

Uma casa começa a ruir pelos espaços exteriores: pelas roseiras que alguém deixou de podar, pelas folhas das tílias que apodrecem no fundo do tanque, pelos pequenos caminhos de saibro onde as ervas, de súbito, crescem desmesuradamente. Só depois uma parede escalavrada, a ferrugem nos ferros da varanda, uma janela com os vidros partidos que bate descompassadamente pelo fim da tarde quando o vento da barra anuncia as primeiras chuvas. Mas a ruína começa no jardim: para que seja mais difícil suportar o abandono, a tristeza, a memória dum Verão muito antigo em que disseste o meu nome protegida do mundo pela sombra dos lódãos.

sábado, abril 09, 2005

[Soneto à maneira antiga]

14, 16, 42;
90, 27, 34.
18. 32, 94:
70, 123, 6, 2.

249, 5,
61, 40, 17.
80. 35, 37:
640, 85.

60, 900, 16,
49. 12, 25:
94000, 46,

618, 39.
200, 107, 35.
90, 7000, 79.

[Não direi jamais] (Actualizado)

nova versão, corigindo a métrica do último verso

Não sei se repetia os erros todos
sabendo o que sei hoje: errei, menti,
pequei por omissão, fui vil. E os lodos
vieram ter comigo e eu cedi,

rendido à treva, à sombra, à ignomínia.
Dos bosques nem a luz me comoveu.
E nos jardins o odor duma glicínia
nem nunca me tocou nem prometeu

o Éden, paraísos, nebulosas.
Mas nisso é que venci: no muito errar,
trair, vogar em águas alterosas.

Dirão talvez que em muito me perdi.
Mas não direi como Rimbaud que «par
délicatesse j'ai perdu ma vie».

sexta-feira, abril 08, 2005

[Não direi jamais]

Não sei se repetia os erros todos
sabendo o que sei hoje: errei, menti,
pequei por omissão, fui vil. E os lodos
vieram ter comigo e eu cedi,

rendido à treva, à sombra, à ignomínia.
Dos bosques nem a luz me comoveu.
E nos jardins o odor duma glicínia
nem nunca me tocou nem prometeu

o Éden, paraísos, nebulosas.
Mas nisso é que venci: nos erros, no
ser víbora, nas cenas odiosas.

Dirão talvez que em muito me perdi.
Mas não direi jamais como Rimbaud:
«par délicatesse j’ai perdu ma vie.»

quarta-feira, abril 06, 2005

[Da sede]

comentário deixado num outro lugar

Sede que vem das raízes e da memória
dum corpo entre a primeira sombra do inverno
e os meses de junho. Sede da água
ainda obscura quando a trazes aos

lábios e as mãos se desprendem vagarosamente
do peso dos astros. Sede de ter sede.
Sede de chamar em voz alta, de um ao outro
lado do vale, as vozes quase suspensas

dos seus nomes. Sede de puxar dos açudes,
com a boca submersa no lodo,
a luz imaterial das paredes de casa

expostas à umbria. Sede de ser ainda
tão cedo e não haver palavras que separem
do fogo as suas inúmeras vozes.

terça-feira, abril 05, 2005

[Os impossíveis regressos]

Uma frase desmorona-se nas veredas
onde deixámos as sílabas dos primeiros nomes.

[O sobressalto]

É fácil no amor o ser feliz
se a tanto se resume o que buscamos
jurando a eternidade com o giz
das coisas que escrevemos e apagamos

conforme nasce o dia ou anoitece.
Mas eu, amor, exijo o sobressalto,
a dor, o lume, o vento que enlouquece,
o medo, a cicatriz, o passo em falso.

E arrisco-me a ter frio e a ter sede.
E ouso o fogo, a areia da tristeza,
o voo no trapézio sem a rede,

o abismo, um precipício, uma ravina
a pique desenhada de surpresa.
Do mundo eu temo apenas a rotina.

segunda-feira, abril 04, 2005

O romance

O Autor conclui um capítulo do romance. Relê as doze páginas e, incrédulo, descobre-se como personagem do livro que está a escrever. É uma sensação estranha: na página 96 do manuscrito, o Autor lê que o Autor está a reler o manuscrito e que, incrédulo, descobre que ele mesmo é uma das personagens do romance.

sexta-feira, abril 01, 2005

Quase um itálico

[excerto duma carta apócrifa que uma amiga do tempo do liceu
me fez chegar por mail]

Em todas as mentiras que te disse
havia qualquer coisa de sublime:
eu queria ser melhor; e fui; e se
te menti até isso me redime.

Eu via-te chegar fechada em leque,
às vezes tão cansada e indiferente
ao lume e aos seus rumores; mas eu é que
limpava o pus e a ferida persistente

de ser o mundo assim tão arbitrário,
infame, vil, gravado em desencanto.
É certo que tirei do dicionário

(eram mentira) os versos que te fiz
e os nomes que te dava. E no entanto
só queria que pudesses ser feliz.