Presa do Padre Pedro

terça-feira, maio 31, 2005

[E no entanto/ às vezes as mulheres]

E no entanto
às vezes as mulheres riscavam os alicerces
dispondo os púcaros na mesa.
E se afastavam as mãos por um instante do fogo
a humidade entrava nas divisórias
dos quartos.
E sabiam que se adormecessem
ou movessem os ramos da oliveira
um relâmpago cortaria em metades
os meses.
E por isso se estendiam de memória no arame das vinhas
até que o rumor dos bosques iluminados pelas aves
batesse nas paredes da casa e amanhecesse.

E no entanto
às vezes as mulheres enchiam os cântaros
com o lume evaporado das presas.
E as crianças calavam-se à entrada dos astros
a olhar a nuvem de silêncio
poisada nos tanques.
E então adormeciam como se a sombra não tivesse peso
e as candeias trouxessem ao pátio
a pausada respiração dos fenos.

E no entanto
às vezes as mulheres saíam durante a noite
e recolhiam nos lenços
as primeiras sementes
aladas
do ácer.
E atavam aos fios de lã humedecidos nas pontas
as suas vagarosas hélices
puxando-as para o centro dos rastilhos
acesos.
E só então o rumor dos bosques iluminados pelas aves
batia nas paredes da casa
e amanhecia.


José Carlos Barros, in Tantas mãos, uma mesma Primavera, ed. Oficina do Livro, Maio de 2005.

domingo, maio 29, 2005

Quem conta um conto

Pelo António fico a saber da existência dum blog colectivo em que se escrevem contos com um máximo de cinquenta caracteres. Tem piada. Mas parece que não aceitam colaborações exteriores: problema deles. Por cá, entretanto, e como já se tinha dado notícia, o desafio proposto pelo Luís N. está em fim de ciclo. Tudo boas notícias: viva o conto, disciplina maior! Pois muito bem: seguindo o exemplo do António, aí vai: três contos com um máximo de 50 caracteres. Um, dois, três posts abaixo.

Micro-conto: OS SONHOS VENATÓRIOS

Não dei um tiro. Adormeci. Acordei com dois coelhos à cinta.

Micro-conto: AS JURAS DO AMOR

«Amo-te». Dissesto-mo há um mês. Sê feliz: ele merece-te.

Micro-conto: OS PERIGOS DA NOITE

Entrámos separados. Saímos juntos. O bêbado pagou o táxi.

sábado, maio 28, 2005

Ficções, 9



«Fractura: recomeços»

JCB, acrílico sobre tela.

sexta-feira, maio 27, 2005

As memórias do amor, 2

As fotografias mentem. Eu sei que estavas nesta fotografia em que não apareces. Recordo perfeitamente o que dizias ao meu ouvido no momento do flash.

As memórias do amor, 1

Tudo o que dissemos era verdade. Mesmo quando dizíamos a verdade a mentir.

quinta-feira, maio 26, 2005

[Inverno]

Havia lugares
que só conhecíamos dos livros.
Eram esses os lugares
de que falávamos
em redor da lareira.
O mundo fazia-se
do que ficava
do outro lado
da fronteira.

terça-feira, maio 24, 2005

[Rua Cinco de Outubro]

Como num quadro de georges, o
de la tour, era do interior
das coisas que saía a luz
mais leve, a que poisava e
ficava nos dedos das crianças,
a que trocava de lugar com
a noite e o esquecimento.
Por isso, provavelmente, tão
cedo se perderam as vozes
sem máscara, sem o peso
estrangeiro da usura, sem
o logro disfarçado das imagens.
E agora é tarde. Ninguém
regressa a um lugar ausente.

[A casa, 3]

Na casa em ruínas fica ainda durante algum tempo
uma espécie de música rumorosa
que ligava as pessoas e os objectos,
um caderno
de deve e haver,
uma cédula,
um fragmento iluminado da parede
onde se penduraram retratos,
um bilhete de comboio esquecido na gaveta da cómoda:
mas também isso
são escombros.

Outros lugares

Aqui ao lado.

domingo, maio 22, 2005

Ficções, 8


«O Mistério das Nascentes, I»

JCB, escultura em pau de amendoeira com acabamento em tinta e verniz [Fragmento]

Ficções, 7


«D. Quixote, em Junho de 2004, prepara a investida contra os Aerogeradores»

JCB, acrílico sobre papel

[As Fronteiras]

Era no tempo improvável da etnografia:
vestíamos jeans e corríamos no restolho,
viravam-se nos lameiros os fenos
três dias depois de ceifados
à lâmina, vivíamos depressa
a ler o Cesariny ou a debulhar
o milho nos sobrados, espalhava-se no chão
a caminho da igreja o alecrim.
Parece que foi no séc. XIX
entre retratos como se fossem a sépia e os bilhetes
do expresso de Lisboa comprados
no Cunha a ver os concertos de jazz.
O que nos traiu não é fácil de dizer.
Agora é apenas como se um estranho caleidoscópio
misturasse a tristeza e o êxtase
do que fomos, do que quase chegámos a ser.

sábado, maio 21, 2005

Ficções, 6


«Os Monstros Afáveis»

JCB, acrílico sobre papel.

[os monstros]

nos pesadelos
os monstros às vezes temem que os olhemos de frente
que possamos apagar-lhes a sombra
ou acordá-los a meio da tarde
abrindo as portadas dos seus refúgios
deixando a luz avassaladora a cobrir-lhes o corpo
a queimar-lhes as pupilas remanescentes
como se fôssemos nós
os monstros
deles

sexta-feira, maio 20, 2005

[deriva]

era no tempo em que as aves migratórias
perdiam o rumo
quando erguias os braços
no ar

[as mentiras do amor]

na verdade
até as tuas mentiras
me fazem falta

quinta-feira, maio 19, 2005

Lá fora

Oportunidade para falar de dois dos meus blogs de estimação: o blogame mucho – porque o besugo vai de férias ou assim e deixou um texto que eu gostaria de ter escrito, nesse tom, nesse registo; o 100nada, porque é tempo de aniversário e a Catarina escreve com uma fascinante displicência e um humor implacável. E pronto.

O malhão

O mundo rural anda a viver dos equívocos da gastronomia e do folclore. O folclore que hoje se dança, subsidiado, em palcos de circunstância a receber um secretário de Estado – já não tem ligação nenhuma com a vida rural em cujas bases a dança, e os cantos, assentavam. Não tenho nada contra o professor de química que vive na cidade e vende na província as suas aulas, e ensaia duas vezes por semana no refeitório do Ciclo ao fim da tarde – e depois dança o malhão-malhão de socos que não sabe muito bem como se colocam nos pés habituados ao sapatinho mocassim. Também não tenho nada contra criar-se uma sala ou um pequeno núcleo museológico onde se expõe como era o mundo rural – e num plinto metam os socos que o senhor professor de química usa num palco a fingir e equilibrando-se mal. Mas já me custa que os programas culturais por essa província afora insistam no pimba e no folclore, e dancemos todos a ruminar a ruralidade que já era a pedir autógrafos à Micaela ou a filmar o lenço da cabeça das senhoras do rancho. E o Verão aproxima-se, e a desgraça é o que sabemos.

Quanto à gastronomia – estamos conversados: de súbito, não mais que de repente, não se pode passar um fim de semana do litoral ao interior que não topemos com a gastronomia única dos festivais e das feiras, com os revisitados paladares e as receitas tradicionais de couve tronchuda comprada na praça a fazer de conta que na horta destruída por um loteamento ou para abrir uma estrada é que se colheu, cedo de manhã, com o orvalhozinho romântico poisado nas folhas; e o avental com rendinhas minhotas da menina que serve às mesas, diligente, educada, não é, confesso, que me comove. E por isso ainda no outro dia, quando me avançaram com a ementa dum festival, perguntei, inocentemente, se não havia bitoques. O bitoque é um prato decente – e não engana ninguém.

A Vida

Começara com 3500. Tinha 125 euros. Uma noite terrível: manilhas de trunfo levadas no ás, valetes perdidos no rei de paus, jogos quase mínimos. E agora havia lerpa na mesa: 550 euros. Era o primeiro a falar. Olhou as cartas. Indeciso. Olhou o relógio de parede: meia-noite. Acreditou que à meia-noite a sorte muda. Foi ao jogo: tinha a quadra de trunfo, uma sena e um duque.

Crime e Castigo

– Não achas que qualquer um de nós, em determinadas circunstâncias, pode ser Raskólnikov?
– Sim. Quer dizer: os melhores de nós.

quarta-feira, maio 18, 2005

[Extractos dum caderno apócrifo de Fevereiro de 1972]

A mãe de Serafim Alves

O vento era como se trouxesse de longe
a memória de todos
os que tinham partido de noite
saindo de casa
à procura da pátria.


Vicente Vilela

Saíamos de noite
pelo menos não levávamos connosco a última imagem
de alguém que pudesse ficar a acenar-nos
à porta de casa
ou na escada do pátio
com lágrimas nos olhos.


Domingos Fernandes

Lembro-me de ter esquecido o meu nome
de ter perguntado em voz alta o meu nome
e não haver quem me respondesse.

terça-feira, maio 17, 2005

Os contistas bissextos

No conto publicado aqui na sexta-feira, Pedro Damião, a páginas tantas, visita Alvaro Correa e oferece-lhe um exemplar do tratado de Megenberg. Na caixa de comentários, Santos Passos pergunta, inocentemente, porquê a escolha do dia 29 de Fevereiro de 1503... Apetecia-me responder-lhe assim:

«Sabe, meu Caro, o conto mistura realidade e ficção. Partindo, sim, duma pessoa que realmente existiu (Pedro Damião, mais tarde conhecido por Pedro Damiano ou Damiano de Odemira), que realmente escreveu sobre xadrez, de quem hoje ainda são conhecidos alguns movimentos e cujos livros continuam a ser citados (“Libro de imparare giocare a Scachi e de partiti“, por exemplo). Mas, partindo de factos concretos, reais, o resto, o essencial, é invenção. Por isso esse tom da escrita, essa espécie de névoa que acompanha o texto, essa espécie de irrealidade que vai seguindo e perseguindo os personagens. Ora, não tendo a certeza do dia de Fevereiro em que Pedro Damião se dirigiu a casa do mestre-banheiro, decidi-me por uma impossibilidade: o dia 29 de Fevereiro de 1503... Um dia, portanto, que nunca aconteceu na história do mundo – pois só no ano seguinte, em 1504, teríamos um ano bissexto. Eis, pois, a explicação: neste ambiente de névoa, de luz exígua, de fotografia desfocada, pareceu-me fazer sentido a utilização duma antinomia, duma incongruência – para, no contexto do conto, marcar essa estranha (mas nesse contexto verosímil) verdade ficcional...»

Isto, mais coisa menos coisa, era o que me apetecia responder a Santos Passos. O que aconteceu, no entanto, foi uma distracção, um erro (ocorreu-me lá que era preciso ter cuidado com a escolha dos dias de Fevereiro, porque anos bissextos há poucos...) – que a perspicácia dum leitor atento não deixou passar...

A chuva

A chuva, de novo, durante a noite. Como se alguém compreendesse o que são insónias verdadeiras e fizesse tudo para me ajudar a dormir.

segunda-feira, maio 16, 2005

Dos nomes

O amor é um dos nomes das águas de nascente.

[Ciclismo]

O ódio não veste camisolas amarelas
O ódio não chega em primeiro lugar às metas volantes
O ódio é uma espécie de carro-vassoura do medo
O ódio alimenta-se do oxigénio decrescente
O ódio mede com os seus palmos minúsculos
um a um
os planos inclinados
e a memória dos que começam a desistir

sexta-feira, maio 13, 2005

Uma vida duas vezes

para o luís

1.
Panos e especiarias são expostos na margem em bancadas de madeira. Barcos os trazem à vila subindo o rio com a maré. A tarde anuncia-se numa sombra húmida e espessa que vem desde a foz, devagar, ao longo do vale. As palavras de Pedro e Maria parecem diluir-se no rumor anónimo do bulício da escolha. A névoa cobre agora o terreiro, corre em declive nos primeiros telhados do casario compacto. Os cães olham de longe, as patas da frente esticadas contra a pedra da colina, desaparecem depois em círculos de pó. O odor forte da canela sobrevém à névoa, mistura-se à cal amassada de fresco, poisa na água dos tanques opacos, entretece nas cordas da roupa estendida nos pátios um impenetrável nome desenhado na distância. Maria Esteves procura esconder as lágrimas. Mas é como se a humidade da tarde, irremediavelmente, atravessasse também o seu coração abandonado e frio.

2.
O corregedor Fellipe Gonsalves tinha sofrido na juventude um desgosto amoroso de que resultaram ferimentos duradoiros. Com trinta e quatro anos, muito tempo depois do gesto de um irmão desavindo marcado a navalha, já depois de esquecido o nome da donzela, Fellipe arrastava a perna esquerda até meio da passada e compunha uma espécie de salto. Nas visitas a Odemira ficava em casa do amigo Balthazar Esteves. Ocupava um anexo onde dispunha de púcaros e água, lousa, velas, papel e toalhas. Admiravam-lhe a polícia, a erudição, mas sobretudo a bengala com punho de pérola, os chapéus de excessivas abas retorcidas, as meias de escarlate, as ferragoulas abotoadas. Maria, na intimidade pérfida da criadagem, apodava-o de sapinho nervoso. Aos dezasseis anos dizem-se estas coisas de um homem infeliz; aos vinte e quatro, com a insistência de um pai que vislumbra no ouro um elevado valor sentimental, as mais das vezes concede-se no enlace.

Por esse tempo, no entanto, o corregedor Fellipe Gonsalves olhava ainda a filha de Balthazar num misto de desejo e amor paternal. À falta de coragem para traduzir em palavras o que a alma lhe exigia que dissesse, introduziu a menina nas regras do xadrez, e oferecia-lhe rendas.
.
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3.
Na véspera de S. Bartolomeu, depois da limpeza das ervas e do mato ao longo das testadas, Balthazar convidou os amigos próximos para um jantar de festa. Nessa noite, em seguida a um licor que a enrubesceu ligeiramente, Maria Esteves perguntou aos cavalheiros se não estariam interessados em aprender um jogo quase desconhecido em Odemira. Pedro Damião acolheu a proposta com alvoroço. Tinha vinte e três anos incompletos e amava Maria. O jogo seria o pretexto para uma troca de olhares mais íntima ou um contacto fortuito com as mãos brancas da filha de Balthazar. Mal adivinhava que esse princípio de noite marcaria o seu afastamento, por muitos anos, das coisas do mundo: no jogo de xadrez descobria Pedro o elo que faltava à descoberta de Deus.

Na manhã seguinte, em cima da mesa de trabalho, exausto, contou trinta e duas peças esculpidas em cortiça. Não saiu de casa, nem dormiu, durante noventa e seis horas seguidas. E quando o corregedor chegou a Odemira, uma semana depois, pelo fim de uma tarde de sombra húmida e espessa, foi vencido em três partidas consecutivas por um iniciante que mal acabava de conhecer as regras básicas da movimentação das peças. Quase não falou durante o jogo. Fellipe Gonsalves, mestre cuja fama no xadrez era discutida em Sevilha, descreveu-o nessa noite, ainda incrédulo, como a figura de um fantasma, lívido, as mãos crispadas, os olhos parados num ponto longínquo.

Oito anos depois, num dia abafado de fins de Setembro, o corregedor casou com a filha de Balthazar Esteves. Maria passou a cerimónia a tentar apagar, um por um, os contornos do rosto de Pedro Damião, tal como o lembrava daquela tarde de sombra húmida e espessa em que o amado se despedia, confessando que não pode amar uma mulher quem descobriu o caminho de Deus.

4.
Pedro Damião deixou, aos poucos, de ser procurado no salão onde manipulava drogas e esboçava fórmulas incompreensíveis. Discípulo invulgar, do avô lhe ficara o amor pelas artes da botica. Ninguém preparava como ele a teriaga veneziana, as misteriosas bolas do âmbar, os corantes que meninas prendadas, castas, lhe compravam em segredo, nas vésperas do casamento combinado pelos pais, para ocultar o desastre sem arrependimento de uma entrega precipitada. Quem agora o olhava nos poucos instantes em que cruzava as ruas do burgo, esquálido, nervoso, muito a custo recordaria o jovem musculoso e altivo que tomava banhos matinais no rio e passeava pelos bosques do termo de Odemira.

Trabalhava como nunca, as noites a fio, mas parecia desligado dos interesses antigos. Na manipulação das drogas deixou de procurar o segredo da cura para procurar a Fórmula. Há quem diga que descobriu o modo de transformar em ouro os metais vulgares, mas que derretia as barras valiosas para novas misturas. No dia vinte e nove de Fevereiro de mil quinhentos e três, antes ainda do canto dos galos, subiu a escadaria íngreme da praça e bateu à porta de Alvaro Correa. O mestre-banheiro, especialista na feitura de emplastros, viu com espanto a figura esquálida do boticário desenhar-se no umbral e oferecer-lhe o raro e cobiçado tratado de Konrad von Megenberg, Das Buch der Natur, em edição impressa conforme o original de mil trezentos e quarenta e nove.

Numa manhã de meados de Março de mil quinhentos e doze procurou o padre Thome, velho amigo de infância, e o clérigo descobriu nas feições do amigo uma representação do Demo. Pedro falava-lhe de um Deus enigmático mas próximo. «Muitos terão chegado à Sua presença, Thome. Pela descoberta de um Número ou de uma Palavra, de um Gesto ou de um Jogo. Numa fórmula, por exemplo, muitas vezes senti que me aproximava da Sua presença magnífica.»

Pedro Damião alinhou em cima da mesa três objectos circulares de tamanhos diversos, pediu ao companheiro que medisse a circunferência e o diâmetro de cada um deles. «Repara, Thome, como se obtém uma relação constante. Repara como o valor da circunferência é sempre três vezes e qualquer coisa o valor do diâmetro. Um valor equivalente a vinte e dois sétimos. Três vírgula catorze. Este número é uma das faces do Número.»

Thome levantou-se, trouxe um púcaro com água, benzeu-se num gesto inconsciente. Pedro falava de novo. «O mundo é um Número. Um náutilo, Thome, que não é senão um pequeno caracol, desenha a mais perfeita espiral. Todos os polígonos simétricos se fazem à semelhança dos radiolários, Thome. E um radiolário é um ser vivo, um ser minúsculo apenas visível com lentes especiais. Pois todos os polígonos simétricos se fazem à sua semelhança: um octaedro, um dodecaedro, um icosaedro. E é possível encontrar esse Número. A matriz. Num jogo, por exemplo. Num jogo perfeito, por exemplo. Num jogo que permita, num espaço finito, um número quase infinito de variações: um jogo como o jogo de xadrez, Thome, de que te quero ensinar alguns segredos.»

Mas Thome não falava, não via as peças nem o tabuleiro que o velho amigo da infância tirava dum saco vermelho. Sentiu que a cabeça lhe estalava por dentro.

Nessa mesma tarde rumou à capital do reino. Mas quando, dez dias depois, regressou à vila com representantes dos mais altos dignitários da Igreja, já Pedro Damião deixara Odemira com rumo desconhecido. E um cheiro insuportável a enxofre, dizia-se.

5.
A beleza de Maria declinava rapidamente numa magreza translúcida que lhe salientava as veias azuis dos pulsos e diluía os traços do rosto. Na nova casa de Lisboa procurava um refúgio contra o artifício dos modos da Corte. O marido trazia-lhe sedas e perfumes raros comprados a navegadores curtidos pelo mar, contava histórias espirituosas; Maria afectava um sorriso e regressava ao seu olhar sombrio e distante.

As novas funções de Fellipe Gonsalves junto do rei não propiciavam saídas demoradas. Muito raramente visitavam Odemira. Mas nessas visitas breves Maria ganhava cor, ria-se muito, aprendia pontos com a mãe, comia sargos assados quase com gula. Mal regressava à capital, perdia o apetite, sentia tonturas, desfalecia em delíquios.

Desde mil quinhentos e oito, ano do seu casamento, até mil quinhentos e doze, Maria visitou Odemira três vezes, e em nenhuma delas lhe foi dado divisar o antigo amado. Felícia, a criada que a acompanhara ao terreiro do rio naquela tarde dolorosa de neblina espessa e húmida, contava-lhe o pouco que se sabia da vida de Pedro: que quase não saía de casa; que quase não dormia; que dividia o essencial do seu tempo entre livros, um tabuleiro de xadrez e os frascos do ofício que deixara de exercer; que era visitado por pessoas estranhas, que lhe traziam mais livros; que passava noites inteiras a observar o céu com um óculo de ver ao longe; que, enfim, enlouquecera de todo.

Mas numa tarde de fins de Março de mil quinhentos e doze, quando saía de casa com o marido a caminho do Paço, viu um homem magro, de olhar fixo, passar do outro lado da rua com um volume de folhas debaixo do braço. Era Pedro Damião. Maria sentiu que a sombra toda do mundo lhe corria no sangue, e desfaleceu nos braços de Fellipe Gonsalves.

6.
Nesse mesmo ano foi publicado em Lisboa um tratado de xadrez da autoria de Pedro. O seu nome começou a ser referido na corte com admiração. Dizia-se que D. Manuel aprendera o jogo, que treinava com persistência a defesa contra o ataque de cavalo ao peão do rei preto e que manifestara o interesse de conhecer o antigo boticário. Mas Pedro tinha partido para Itália, e a hierarquia religiosa suspirado de alívio, longe que estava de partilhar pela personagem o entusiasmo de Sua Majestade.

Em mil quinhentos e quinze o tratado de Pedro foi traduzido em Itália. Poucos anos depois, visitantes ilustres traziam à corte traduções francesas e inglesas, e faziam perguntas sobre o inestimável autor. O prestígio de Maria Gonsalves subia paralelamente ao interesse pela obra de Pedro, a quem agora chamavam Damiano, ou Damiano de Odemira. Fellipe não se cansava de repetir a profunda amizade que o ligara ao boticário, visita quotidiana da casa do sogro. «De resto», acrescentava, «foi aqui a minha esposa que lhe ensinou a mexer as peças».

7.
Em mil quinhentos e vinte e seis, numa dessas reuniões arrastadas em que se disputavam concursos poéticos e uma dama de vestido amarelo perorava em latim, grego, aramaico e siríaco, Maria Esteves conheceu Francisco de Sá de Miranda, recém-chegado de Itália. O poeta deixaria Lisboa alguns dias depois, e confessava o seu cansaço das coisas mundanas, dos vilancetes repentistas do Paço, do espectáculo triste das alegorias e paródias. «Os trabalhos agrícolas são dos poucos refúgios dignos para os homens do século», dizia então.

A meio da conversa, Sá de Miranda referiu-se a um brilhante espírito que conhecera em Itália, e o coração de Maria, já pouco afeito à surpresa e ao sobressalto, bateu de novo descompassadamente. O poeta descobriu no seu rosto, por detrás da ténue sombra que o ofuscava em tragédia, uma estranha, perturbante e comovente beleza. Falou-lhe de Pedro Damiano com satisfação: que era invencível no jogo do xadrez, que era um matemático brilhante, que se dedicava à observação e descrição dos astros, que Miguel Ângelo o procurara para receber conselho sobre a resolução de problemas arquitectónicos do projecto da Basílica de S. Pedro, que publicara um inestimável opúsculo em que propunha correcções a algumas asserções do tratado De Prospectiva Pingendi, de Piero della Francesca.

Fellipe Gonsalves, a caminho de casa, repreendeu-a severamente: não gostava de ver a esposa metida a conversas com cavalheiros, ainda por cima tratando-se de um poetastro sem mérito que recebia a condescendência polida da Corte.

8.
Os problemas de locomoção de Fellipe Gonsalves acentuavam-se. As suas passadas eram agora mais trágicas do que cómicas, e a bengala de punho de pérola transformara-se num auxiliar inseparável. No dia vinte e quatro de Julho de mil quinhentos e vinte e oito partiu numa excursão pelos arredores de Odemira. Na Enseada dos Mouros, a cerca de três léguas da vila, sentiu que a salsugem o inebriava. Estava um dia agradável, com uma aragem ligeira que dilatava as narinas dos cavalos e os desviava da sombra larga dos sobreiros. Sentado numa pedra sobranceira ao fio de água marcado pelos caules dos juncos, Fellipe anunciava à esposa que decidira ficar em Odemira: partiriam para Lisboa no fim de semana, arrumariam os negócios pendentes e regressariam de vez.

O rosto de Maria abriu-se num sorriso quase infantil, e o coração bateu-lhe de novo. Afastou-se numa corrida a repetir às amigas a promessa de Fellipe Gonsalves. E já não viu a bengala do marido a resvalar no solo arenoso, a perna esquerda a dobrar-se num ápice pelo joelho, o corpo a inclinar-se, e os braços, inúteis, a esbracejar na crista duma arriba de trinta e cinco metros, antes de cair num grito abafado pelo som das ondas a desfazerem-se de encontro às rochas.

9.
O pai de Maria Gonsalves, agora Maria Esteves de novo, morreu dois meses depois, num delírio arrastado em que resumia imprecações contra D. Manuel e D. João terceiro e repetia vivas a Sua Real Majestade D. João segundo. Os sucessores do Príncipe Perfeito deixavam-lhe memória fraca, a da vileza e do lucro fácil, do esplendor postiço dos palácios, do abandono da terra, da dissolução dos costumes.

A mãe quedou-se numa estática mudez. Não dava ordens na cozinha, largou os panos, deixava-se arrastar à igreja sem entusiasmo, os olhos perdidos num horizonte indefinido. Uma única vez por dia, pelo fim da manhã, atava o cabelo, ajoelhava diante do oratório, rezava a S. Teotónio e repetia invariavelmente a sua versão da história do santinho nascido em Tardinhade, concelho de Gafei. Ficava-se então a saber que D. Afonso Henriques não empreendia cerco ou batalha sem que previamente o procurasse para um conselho definitivo. Mas antes ainda do relato se aproximar dos primeiros anos da independência do Reino, e de Nossa Senhora vir em auxílio de Afonso segurando-lhe na espada, já a viúva de Balthazar caía de novo, por vinte e quatro horas, num alheamento irreal.

De luto carregado, Maria saía apenas para cumprir os deveres religiosos. Tinha quarenta e quatro anos e uma beleza estranha e inverosímil que parecia apurar-se com a idade e as contrariedades do mundo. Os homens desejavam-na, mas simultaneamente a temiam num pressentimento de desgraça. Algumas amigas a visitavam por vezes, encantadas com a sua elegância sem ostentação, o seu conhecimento das coisas do mundo. Mesmo quando a encontravam com vestidos de serguilha, guardando um púcaro na estante ou trazendo do pátio um cântaro com água ferrosa contra o parecer de Felícia, era como se em seu redor descobrissem o odor de desconhecidos aromas, o peso real de objectos ou matérias distantes e inacessíveis, o aljôfar, o chumbo da Cantábria, o arame de Flandres, as alcatifas da China, o coral de Marselha, o marfim do Brasil, as telas da Pérsia, as lãs da Calábria, os vidros de Veneza, o alabastro de Nápoles.

Tantos anos depois, não se passava um dia sem que Maria recordasse a voz, o rosto, as mãos de Pedro, Pedro Damião, Pedro Damiano.

10.
No dia dezassete de Fevereiro de mil quinhentos e trinta, com cinquenta e um anos, Pedro regressou a Odemira. Encontrou o padre Thome a caminho da igreja. O clérigo surpreendeu-se com a alegria que transparecia do seu rosto. «É a paz, Thome. A paz que finalmente encontrei.»

Thome pediu desculpas pela delação antiga que o haveria de marcar como um ferro. Mas Pedro sorria. «Eu é que traí. Eu é que lhe peço desculpa.» «E já não procura, Pedro, num Número, num Jogo, ascender à presença de Deus?» «Algumas pessoas encontraram faces desse Número que eu também procurava. Mas depois de muitos anos compreendi que o número de faces desse Número aumentava à medida que se descobriam novas faces.» «Que Deus se distanciava, portanto.» «Não exactamente, Thome. Sinto-me mais próximo de Deus. Mas sei agora que os sinais que procurava decifrar não podem nunca levar a esse Número. São apenas reflexos do Número. Aproximações. Mais nada. Numa única partida de xadrez é infinito o número de variações. E no entanto dispomos apenas de vinte possibilidades para iniciar a primeira jogada. Sei agora, portanto, que Ele é o Número.» «Sabe que me sinto feliz com as suas palavras?»

Pedro sorriu de novo. Como era bom regressar a Odemira, olhar em paz o voo das aves, o remanso das águas do rio, o ligeiro movimento da maré, os caules ocos da margem, o ondulado recorte do horizonte.

«Não tome estas palavras por uma nova heresia, Thome», disse então, pensando em Maria Esteves, «mas às vezes penso que Deus nos deveria conceder, pelo menos uma vez na vida, a possibilidade de uma segunda escolha.»

11.
Pedro Damiano não encontrou mais ninguém antes de entrar na velha casa quase em ruínas e se estender numa manta de lã. Dormiu durante noventa e seis horas num sono corrido em que as imagens da sua vida, numa invertida cronologia, lentamente lhe passavam diante dos olhos e logo se apagavam, do presente em direcção ao passado, a conversa com o Padre Thome nessa manhã de mil quinhentos e trinta, primeiro, e depois uma viagem pelo mar, uma casa em Itália, uma paisagem de ciprestes, uma gloriosa partida simultânea em Verona, a Basílica de S. Pedro, uma visita de Vittoria Colonna e Miguel Ângelo, um tabuleiro, de novo, e nomes de muitas noites a olhar o céu, perseus, canes venatici, aldebaran, centaurus, ursa minor, vega tucana, ophiuchus, eridanus, piscis australis, uma outra viagem pelo mar, a entrega do manuscrito do seu tratado numa oficina de Lisboa, e depois uma noite em Odemira redigindo páginas sobre o gambito em que se sacrifica um cavalo, uma visita a casa do mestre-banheiro Alvaro Correa, a vitória sobre o corregedor, as trinta e duas peças esculpidas em casca de sobreiro, uma tarde húmida e espessa marcada pelo odor da canela e da cal amassada de fresco, as lágrimas de Maria na margem do rio, os barcos subindo desde a foz com a maré, o dia de S. Bartolomeu, o jantar em casa de Balthazar, o sorriso de Maria trazendo para a sala o tabuleiro de xadrez, as suas faces rosadas do licor, o jantar, os trabalhadores limpando as ervas e o mato dos caminhos e testadas.

Quando acordou, vinte e oito anos antes, o sol entrava pelo rectângulo da janela. Vestiu-se, arrumou alguns frascos caídos no chão, leu duas páginas do tratado de Konrad von Megenberg, saiu para passear junto ao rio.

À noite, nessa noite de mil quinhentos e dois, jantou em casa de Balthazar Esteves. No fim da refeição, em seguimento a um licor que a enrubesceu ligeiramente, Maria Esteves perguntou aos cavalheiros se não estariam interessados em aprender um jogo quase desconhecido em Odemira.

Pedro Damião mal podia suspeitar que Deus lhe concedia nessa pergunta a oportunidade de, pela segunda vez, decidir o seu destino, escolher o seu futuro.

quinta-feira, maio 12, 2005

Um post longo, para variar: amanhã

Uma novela em onze capítulos. Sobre xadrez. Onde aparecem, de passagem, D. Manuel, Sá de Miranda, Miguel Ângelo e Vittoria Colonna. Uma história sobre os amores que se perdem. Sobre o amor. Onde se fala dum livro de Konrad von Megenberg ou da defesa contra o ataque do cavalo ao peão do rei negro. E dum número mágico, constante, com valor equivalente a vinte e dois sétimos. Amanhã, aqui, na Presa do Padre Pedro: «Uma vida duas vezes».

UM ANO

A Presa faz hoje um ano. E ficávamos nós sem acender a vela de aniversário se uma leitora atenta não se desse ao cuidado de lembrar que tudo isto começou a 12 de Maio de 2004. Não é muito, claro: é só um ano. Mas, acrescente-se, um ano em que foi possível criar uma pequena rede de cumplicidades. E isso ninguém nos tira. E isso, sim, é muito. É quase tudo.

quarta-feira, maio 11, 2005

[o que guardámos]

às vezes é isso sobretudo o que fica de quanto
a vida te deu e tirou o que não
dissemos o que guardámos o que fechámos à chave
ou deixámos nas margens da península escondido
junto às sebes de casuarina com sete selos de lacre e
a memória dos campos devastados pelo gelo
para um outro tempo um
tempo que mereça os segredos a jura do amor que não
chegou a acontecer o amor
um tempo em que guardaremos tudo
de novo
etc.

De passarem as aves

Era no tempo em que o mundo quase se sobressaltava de passarem as aves. Porque o silêncio agarrava-se às coisas, aos objectos, às paredes das casas, às mãos das crianças, e uma solidão antiga ficava suspensa do mais leve rumor, do mais ligeiro movimento. Uma ave cruzava as cumeadas, descia com a encosta até aos campos lavrados, e era como se uma nuvem de pó se levantasse vagarosamente no ar, como se a poeira, uma poeira que vinha de longe, de súbito erguesse as suas sombras até desabar num clamor sobre todos os nomes.

terça-feira, maio 10, 2005

Micro-contos

No leituras com net decorre um concurso de micro-contos. Vale muito a pena passar por lá. Aqui pode ler os primeiros. A coisa promete.

Uma história antiga, 2

Começaram a trocar cada vez menos palavras. Viviam juntos há muito tempo. O tédio. A displicência. Já quase não falavam um com o outro. Já quase não se olhavam. Viam-se, sim, mas não se olhavam. Viam-se nas sombras que deixavam num corredor a meio da manhã, no terraço, no chão de cimento do pátio. Adormeciam juntos, sim, mas como se um muro os separasse. Um muro de alvenaria onde o tempo vai deixando pequenas marcas da passagem do tempo sobre as coisas que não se movem e onde as pessoas deixam de tocar. Até àquela noite de Junho. Tinham acabado de se deitar. Deixaram as portadas abertas. E de súbito viram a lua. Uma lua imensa. Viram-na ao mesmo tempo: a lua, imensa, erguida no céu como a aparição de qualquer coisa cujo nome desconheciam ainda. A iluminar ambos os rostos. A iluminar o quarto. Essa luz muito leve. E ficaram assim. Em silêncio. Compreendendo que não deveriam dizer uma única palavra. Que não deveriam fazer um único gesto. E ficaram assim. Em silêncio.

Aparições, 3

As tuas mãos. A tua pele.

Aparições, 2

Comovo-me até às lágrimas a ver estes peregrinos a caminho de Fátima. Felizes: acreditam. E têm a quem agradecer as dádivas.

Aparições, 1

Ouvi há pouco, na Antena 1, Valentim Loureiro a perorar sobre a necessidade de moralização da arbitragem. Aos berros. Como se (além do alti-falante) de súbito estivesse investido de uma auréola e um par, ou dois, de diáfanas asas.

domingo, maio 08, 2005

Ficções, 5



«A Deriva»

JCB, acrílico sobre guardanapo de papel.

O mar chão

O tempo virou. A meio da tarde. Temo o levante, é certo. A loucura. Mas sempre me custou assistir a esta anunciada melancolia do sudoeste. Insípido. A vaga descendo. Até ao mar chão.

Os campos da Ria, 1


JCB

Nos fins de tarde, em Maio, a luz derrama-se na copa das alfarrobeiras. E cola-se à película escura dos frutos, agarra-se aos troncos, adormece em cada uma das suas folhas persistentes. A manhã mistura a esta luz uma outra luz. Ainda leve. E é então que as aves voam a caminho da península, desprendendo-se vagarosamente dos ramos das alfarrobeiras.

sexta-feira, maio 06, 2005

[A estrada de Vidago]

Nesse tempo era tão perto ser feliz
mas havia que correr, chegar depressa
disparar contra a noite os faróis acesos
dum fiat 127
havia que descer as encostas declivosas
e acender os archotes de granizo
quando a deflagração dos astros ou o desejo
esfacelavam o corpo indiferentemente
pelo lado de dentro da pele

Nesse tempo era tão perto ser feliz
mas havia que persistir no jogo e não temer o erro
mas havia que mexer com as mãos
nas bagas de veneno incandescentes
adormecer com o gelo a tapar-nos a boca
deixar às vezes no asfalto
o pouco que nos restava do orgulho

Nesse tempo era tão perto ser feliz
mas havia que correr, chegar depressa
queimar os pulmões nas vozes inumeráveis das mulheres
atar aos rastilhos acesos
o coração, as vísceras
um destino que se haveria de perder
em subterrâneos, em labirintos
de onde quase nunca se regressa

quinta-feira, maio 05, 2005

[Abril]

É uma luz quase espessa, quase incandescente
Mas adormece vagarosa nas paredes de cal
E desce às açoteias e aos terraços
leve, transparente, vertical

quarta-feira, maio 04, 2005

Ficções, 4



«Os três rostos»
JCB, acrílico sobre tela.

[Quando às vezes uma sombra]

Há dias em que nem um verso
nos socorre. E isso
é o menos.

terça-feira, maio 03, 2005

Uma história antiga

«Amo-te», dizia ele. E se chovesse, ou se o vento se levantasse na veiga, começava a correr, aflito, à procura de abrigo. E logo a chamava, dizendo «anda, corre, aqui estás protegida». Ela sorria. Como nos filmes. Porque nesse tempo acreditavam que há sempre um abrigo.

Só mais tarde compreenderam que nada nos protege do amor.

[A educação das crianças]

Que memória podemos trazer
da infância
mais avassaladora
que uma vara de negrilho esculpida a navalha?
Ou os movimentos duma cobra d’
água guardada num frasco
de tofina? Ou os assentos dum morris
850? Ou uma saia
travada?
Vai-se a ver e
quase tudo se passou
fora dos livros
e dos ensinamentos para a vida.

segunda-feira, maio 02, 2005

[Os amigos, 3]

Combarro: o tempo que às vezes estamos
sem escrever uma palavra, sem a recordar nas suas sílabas
ásperas, de terra que se transforma
para nos proteger da tempestade ou da luz imensa
de Julho: e depois é assim, ela regressa
de súbito com a memória dos amigos que fomos perdendo
no mundo e um dia se acolheram a esta mesma defesa,
e a essa sombra juraram regressar antes da neve,
antes da última folha das tílias
apodrecer no tanque
sem água. Regressamos, sim, mas à vez,
perdidos em nós mesmos, sem saber o que fazer
de tanta coisa que era suposto
dar-nos abrigo e protecção.

domingo, maio 01, 2005

PIDDAC

Primeiro destruímos o mundo rural. A Paisagem. Os muros de pedra. Os bosques. Depois preparamos candidaturas ao Fundo de Coesão. Para pagar a reconstrução da Paisagem. Os muros de pedra. Os bosques. As inaugurações.

O Tempo

Comer um fruto. Mas vê-lo crescer. Em sendo gomo floral. Em sendo flor. Em sendo fruto. Mudando de cor. Vagarosamente. E saber então que o Tempo é a medida de todas as coisas.