Presa do Padre Pedro

domingo, maio 22, 2005

[As Fronteiras]

Era no tempo improvável da etnografia:
vestíamos jeans e corríamos no restolho,
viravam-se nos lameiros os fenos
três dias depois de ceifados
à lâmina, vivíamos depressa
a ler o Cesariny ou a debulhar
o milho nos sobrados, espalhava-se no chão
a caminho da igreja o alecrim.
Parece que foi no séc. XIX
entre retratos como se fossem a sépia e os bilhetes
do expresso de Lisboa comprados
no Cunha a ver os concertos de jazz.
O que nos traiu não é fácil de dizer.
Agora é apenas como se um estranho caleidoscópio
misturasse a tristeza e o êxtase
do que fomos, do que quase chegámos a ser.

5 Comments:

  • "O que nos traiu não é fácil de dizer."
    Mas tu o disseste. Lindamente.

    By Blogger Santos Passos, at 5:26 AM  

  • "O que nos traiu não é fácil de dizer.
    Agora é apenas como se um estranho caleidoscópio
    misturasse a tristeza e o êxtase
    do que fomos, do que quase chegámos a ser."

    Só isto seria um belo poema!

    By Blogger hfm, at 1:45 PM  

  • As fronteiras não são estabelecidas por outros, mas por nós. Estabelecemo-las e aceitamo-las assim por motivos que às vezes não sabemos explicar.
    A maior parte de nós esquece-se de um princípio físico básico: a impermanência. Não é preciso saber física para compreender, ter experimentado a impermanência. Tudo se altera e nós precisamos de ir com isso, alterando, alterando-nos. Chamamos acidentes de percurso, ao próprio percurso, não é irónico? O que temos de fazer, a cada dia, é redimensionar as fronteiras, para que nunca venham a ter esse nome ou, pelo menos, para que não nos aprisionem. Pensamos que a segurança é um ideal alcançável. Não é. Reconstruir, redimensionar todos os dias, se for preciso. Sem certezas, sem segurança alguma. Não é possível guardarmo-nos na segurança de nada. Isto que escrevo é verdade. E sabemos que é verdade.

    By Anonymous Amotinada, at 11:47 PM  

  • Gosto bastante destes versos seguros que formam o poema, deste misturar de imagens que tecem a realidade em que as lembranças se tornam, a evocação, o fascínio de um mundo rural para sempre perdido, que me faz lembrar alguns poetas italianos do pós-guerra, e, todavia, um poema tão longe deles na forma e no pensamento. E sublinho a musicalidade dos versos, o seu ritmo lento, próprio da memória, e no entanto bem marcado pelo uso raro de palavras maiores que trissílabos (8,4%).e de trissílabos (20,6%), ficando a grande maioria (71%) para dissílabos e monossílabos. É evidente que nada disto se faz por medida como um fato, é o sentido estético, a mão e o ouvido ganhos com o usufruto e o exercício da arte.

    By Anonymous Musas Esqueléticas, at 6:16 PM  

  • "Agora é apenas como se um estranho caleidoscópio
    misturasse a tristeza e o êxtase
    do que fomos, do que quase chegámos a ser."

    É isso. Belo!
    Um abraço daqui, do outro lado do mar.

    By Anonymous Márcia, at 7:34 PM  

Postar um comentário

<< Home