Presa do Padre Pedro

quinta-feira, maio 19, 2005

O malhão

O mundo rural anda a viver dos equívocos da gastronomia e do folclore. O folclore que hoje se dança, subsidiado, em palcos de circunstância a receber um secretário de Estado – já não tem ligação nenhuma com a vida rural em cujas bases a dança, e os cantos, assentavam. Não tenho nada contra o professor de química que vive na cidade e vende na província as suas aulas, e ensaia duas vezes por semana no refeitório do Ciclo ao fim da tarde – e depois dança o malhão-malhão de socos que não sabe muito bem como se colocam nos pés habituados ao sapatinho mocassim. Também não tenho nada contra criar-se uma sala ou um pequeno núcleo museológico onde se expõe como era o mundo rural – e num plinto metam os socos que o senhor professor de química usa num palco a fingir e equilibrando-se mal. Mas já me custa que os programas culturais por essa província afora insistam no pimba e no folclore, e dancemos todos a ruminar a ruralidade que já era a pedir autógrafos à Micaela ou a filmar o lenço da cabeça das senhoras do rancho. E o Verão aproxima-se, e a desgraça é o que sabemos.

Quanto à gastronomia – estamos conversados: de súbito, não mais que de repente, não se pode passar um fim de semana do litoral ao interior que não topemos com a gastronomia única dos festivais e das feiras, com os revisitados paladares e as receitas tradicionais de couve tronchuda comprada na praça a fazer de conta que na horta destruída por um loteamento ou para abrir uma estrada é que se colheu, cedo de manhã, com o orvalhozinho romântico poisado nas folhas; e o avental com rendinhas minhotas da menina que serve às mesas, diligente, educada, não é, confesso, que me comove. E por isso ainda no outro dia, quando me avançaram com a ementa dum festival, perguntei, inocentemente, se não havia bitoques. O bitoque é um prato decente – e não engana ninguém.

1 Comments:

  • Eu sei que nalgumas feiras gastronómicas alguns dos pratos tradicionais são pura novidade para agradar a todos. Cria-se o tradicional na hora. Nos ranchos, vê-se também aquele pessoal no palco a pegar em enxadas e malhos como quem pega no tubo do aspirador. Muitos aninhos de salazar, nem ele faria melhor.
    luís

    By Anonymous Anônimo, at 5:58 PM  

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