Presa do Padre Pedro

terça-feira, maio 17, 2005

Os contistas bissextos

No conto publicado aqui na sexta-feira, Pedro Damião, a páginas tantas, visita Alvaro Correa e oferece-lhe um exemplar do tratado de Megenberg. Na caixa de comentários, Santos Passos pergunta, inocentemente, porquê a escolha do dia 29 de Fevereiro de 1503... Apetecia-me responder-lhe assim:

«Sabe, meu Caro, o conto mistura realidade e ficção. Partindo, sim, duma pessoa que realmente existiu (Pedro Damião, mais tarde conhecido por Pedro Damiano ou Damiano de Odemira), que realmente escreveu sobre xadrez, de quem hoje ainda são conhecidos alguns movimentos e cujos livros continuam a ser citados (“Libro de imparare giocare a Scachi e de partiti“, por exemplo). Mas, partindo de factos concretos, reais, o resto, o essencial, é invenção. Por isso esse tom da escrita, essa espécie de névoa que acompanha o texto, essa espécie de irrealidade que vai seguindo e perseguindo os personagens. Ora, não tendo a certeza do dia de Fevereiro em que Pedro Damião se dirigiu a casa do mestre-banheiro, decidi-me por uma impossibilidade: o dia 29 de Fevereiro de 1503... Um dia, portanto, que nunca aconteceu na história do mundo – pois só no ano seguinte, em 1504, teríamos um ano bissexto. Eis, pois, a explicação: neste ambiente de névoa, de luz exígua, de fotografia desfocada, pareceu-me fazer sentido a utilização duma antinomia, duma incongruência – para, no contexto do conto, marcar essa estranha (mas nesse contexto verosímil) verdade ficcional...»

Isto, mais coisa menos coisa, era o que me apetecia responder a Santos Passos. O que aconteceu, no entanto, foi uma distracção, um erro (ocorreu-me lá que era preciso ter cuidado com a escolha dos dias de Fevereiro, porque anos bissextos há poucos...) – que a perspicácia dum leitor atento não deixou passar...

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