Presa do Padre Pedro

terça-feira, maio 10, 2005

Uma história antiga, 2

Começaram a trocar cada vez menos palavras. Viviam juntos há muito tempo. O tédio. A displicência. Já quase não falavam um com o outro. Já quase não se olhavam. Viam-se, sim, mas não se olhavam. Viam-se nas sombras que deixavam num corredor a meio da manhã, no terraço, no chão de cimento do pátio. Adormeciam juntos, sim, mas como se um muro os separasse. Um muro de alvenaria onde o tempo vai deixando pequenas marcas da passagem do tempo sobre as coisas que não se movem e onde as pessoas deixam de tocar. Até àquela noite de Junho. Tinham acabado de se deitar. Deixaram as portadas abertas. E de súbito viram a lua. Uma lua imensa. Viram-na ao mesmo tempo: a lua, imensa, erguida no céu como a aparição de qualquer coisa cujo nome desconheciam ainda. A iluminar ambos os rostos. A iluminar o quarto. Essa luz muito leve. E ficaram assim. Em silêncio. Compreendendo que não deveriam dizer uma única palavra. Que não deveriam fazer um único gesto. E ficaram assim. Em silêncio.

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