Presa do Padre Pedro

sexta-feira, maio 13, 2005

Uma vida duas vezes

para o luís

1.
Panos e especiarias são expostos na margem em bancadas de madeira. Barcos os trazem à vila subindo o rio com a maré. A tarde anuncia-se numa sombra húmida e espessa que vem desde a foz, devagar, ao longo do vale. As palavras de Pedro e Maria parecem diluir-se no rumor anónimo do bulício da escolha. A névoa cobre agora o terreiro, corre em declive nos primeiros telhados do casario compacto. Os cães olham de longe, as patas da frente esticadas contra a pedra da colina, desaparecem depois em círculos de pó. O odor forte da canela sobrevém à névoa, mistura-se à cal amassada de fresco, poisa na água dos tanques opacos, entretece nas cordas da roupa estendida nos pátios um impenetrável nome desenhado na distância. Maria Esteves procura esconder as lágrimas. Mas é como se a humidade da tarde, irremediavelmente, atravessasse também o seu coração abandonado e frio.

2.
O corregedor Fellipe Gonsalves tinha sofrido na juventude um desgosto amoroso de que resultaram ferimentos duradoiros. Com trinta e quatro anos, muito tempo depois do gesto de um irmão desavindo marcado a navalha, já depois de esquecido o nome da donzela, Fellipe arrastava a perna esquerda até meio da passada e compunha uma espécie de salto. Nas visitas a Odemira ficava em casa do amigo Balthazar Esteves. Ocupava um anexo onde dispunha de púcaros e água, lousa, velas, papel e toalhas. Admiravam-lhe a polícia, a erudição, mas sobretudo a bengala com punho de pérola, os chapéus de excessivas abas retorcidas, as meias de escarlate, as ferragoulas abotoadas. Maria, na intimidade pérfida da criadagem, apodava-o de sapinho nervoso. Aos dezasseis anos dizem-se estas coisas de um homem infeliz; aos vinte e quatro, com a insistência de um pai que vislumbra no ouro um elevado valor sentimental, as mais das vezes concede-se no enlace.

Por esse tempo, no entanto, o corregedor Fellipe Gonsalves olhava ainda a filha de Balthazar num misto de desejo e amor paternal. À falta de coragem para traduzir em palavras o que a alma lhe exigia que dissesse, introduziu a menina nas regras do xadrez, e oferecia-lhe rendas.
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3.
Na véspera de S. Bartolomeu, depois da limpeza das ervas e do mato ao longo das testadas, Balthazar convidou os amigos próximos para um jantar de festa. Nessa noite, em seguida a um licor que a enrubesceu ligeiramente, Maria Esteves perguntou aos cavalheiros se não estariam interessados em aprender um jogo quase desconhecido em Odemira. Pedro Damião acolheu a proposta com alvoroço. Tinha vinte e três anos incompletos e amava Maria. O jogo seria o pretexto para uma troca de olhares mais íntima ou um contacto fortuito com as mãos brancas da filha de Balthazar. Mal adivinhava que esse princípio de noite marcaria o seu afastamento, por muitos anos, das coisas do mundo: no jogo de xadrez descobria Pedro o elo que faltava à descoberta de Deus.

Na manhã seguinte, em cima da mesa de trabalho, exausto, contou trinta e duas peças esculpidas em cortiça. Não saiu de casa, nem dormiu, durante noventa e seis horas seguidas. E quando o corregedor chegou a Odemira, uma semana depois, pelo fim de uma tarde de sombra húmida e espessa, foi vencido em três partidas consecutivas por um iniciante que mal acabava de conhecer as regras básicas da movimentação das peças. Quase não falou durante o jogo. Fellipe Gonsalves, mestre cuja fama no xadrez era discutida em Sevilha, descreveu-o nessa noite, ainda incrédulo, como a figura de um fantasma, lívido, as mãos crispadas, os olhos parados num ponto longínquo.

Oito anos depois, num dia abafado de fins de Setembro, o corregedor casou com a filha de Balthazar Esteves. Maria passou a cerimónia a tentar apagar, um por um, os contornos do rosto de Pedro Damião, tal como o lembrava daquela tarde de sombra húmida e espessa em que o amado se despedia, confessando que não pode amar uma mulher quem descobriu o caminho de Deus.

4.
Pedro Damião deixou, aos poucos, de ser procurado no salão onde manipulava drogas e esboçava fórmulas incompreensíveis. Discípulo invulgar, do avô lhe ficara o amor pelas artes da botica. Ninguém preparava como ele a teriaga veneziana, as misteriosas bolas do âmbar, os corantes que meninas prendadas, castas, lhe compravam em segredo, nas vésperas do casamento combinado pelos pais, para ocultar o desastre sem arrependimento de uma entrega precipitada. Quem agora o olhava nos poucos instantes em que cruzava as ruas do burgo, esquálido, nervoso, muito a custo recordaria o jovem musculoso e altivo que tomava banhos matinais no rio e passeava pelos bosques do termo de Odemira.

Trabalhava como nunca, as noites a fio, mas parecia desligado dos interesses antigos. Na manipulação das drogas deixou de procurar o segredo da cura para procurar a Fórmula. Há quem diga que descobriu o modo de transformar em ouro os metais vulgares, mas que derretia as barras valiosas para novas misturas. No dia vinte e nove de Fevereiro de mil quinhentos e três, antes ainda do canto dos galos, subiu a escadaria íngreme da praça e bateu à porta de Alvaro Correa. O mestre-banheiro, especialista na feitura de emplastros, viu com espanto a figura esquálida do boticário desenhar-se no umbral e oferecer-lhe o raro e cobiçado tratado de Konrad von Megenberg, Das Buch der Natur, em edição impressa conforme o original de mil trezentos e quarenta e nove.

Numa manhã de meados de Março de mil quinhentos e doze procurou o padre Thome, velho amigo de infância, e o clérigo descobriu nas feições do amigo uma representação do Demo. Pedro falava-lhe de um Deus enigmático mas próximo. «Muitos terão chegado à Sua presença, Thome. Pela descoberta de um Número ou de uma Palavra, de um Gesto ou de um Jogo. Numa fórmula, por exemplo, muitas vezes senti que me aproximava da Sua presença magnífica.»

Pedro Damião alinhou em cima da mesa três objectos circulares de tamanhos diversos, pediu ao companheiro que medisse a circunferência e o diâmetro de cada um deles. «Repara, Thome, como se obtém uma relação constante. Repara como o valor da circunferência é sempre três vezes e qualquer coisa o valor do diâmetro. Um valor equivalente a vinte e dois sétimos. Três vírgula catorze. Este número é uma das faces do Número.»

Thome levantou-se, trouxe um púcaro com água, benzeu-se num gesto inconsciente. Pedro falava de novo. «O mundo é um Número. Um náutilo, Thome, que não é senão um pequeno caracol, desenha a mais perfeita espiral. Todos os polígonos simétricos se fazem à semelhança dos radiolários, Thome. E um radiolário é um ser vivo, um ser minúsculo apenas visível com lentes especiais. Pois todos os polígonos simétricos se fazem à sua semelhança: um octaedro, um dodecaedro, um icosaedro. E é possível encontrar esse Número. A matriz. Num jogo, por exemplo. Num jogo perfeito, por exemplo. Num jogo que permita, num espaço finito, um número quase infinito de variações: um jogo como o jogo de xadrez, Thome, de que te quero ensinar alguns segredos.»

Mas Thome não falava, não via as peças nem o tabuleiro que o velho amigo da infância tirava dum saco vermelho. Sentiu que a cabeça lhe estalava por dentro.

Nessa mesma tarde rumou à capital do reino. Mas quando, dez dias depois, regressou à vila com representantes dos mais altos dignitários da Igreja, já Pedro Damião deixara Odemira com rumo desconhecido. E um cheiro insuportável a enxofre, dizia-se.

5.
A beleza de Maria declinava rapidamente numa magreza translúcida que lhe salientava as veias azuis dos pulsos e diluía os traços do rosto. Na nova casa de Lisboa procurava um refúgio contra o artifício dos modos da Corte. O marido trazia-lhe sedas e perfumes raros comprados a navegadores curtidos pelo mar, contava histórias espirituosas; Maria afectava um sorriso e regressava ao seu olhar sombrio e distante.

As novas funções de Fellipe Gonsalves junto do rei não propiciavam saídas demoradas. Muito raramente visitavam Odemira. Mas nessas visitas breves Maria ganhava cor, ria-se muito, aprendia pontos com a mãe, comia sargos assados quase com gula. Mal regressava à capital, perdia o apetite, sentia tonturas, desfalecia em delíquios.

Desde mil quinhentos e oito, ano do seu casamento, até mil quinhentos e doze, Maria visitou Odemira três vezes, e em nenhuma delas lhe foi dado divisar o antigo amado. Felícia, a criada que a acompanhara ao terreiro do rio naquela tarde dolorosa de neblina espessa e húmida, contava-lhe o pouco que se sabia da vida de Pedro: que quase não saía de casa; que quase não dormia; que dividia o essencial do seu tempo entre livros, um tabuleiro de xadrez e os frascos do ofício que deixara de exercer; que era visitado por pessoas estranhas, que lhe traziam mais livros; que passava noites inteiras a observar o céu com um óculo de ver ao longe; que, enfim, enlouquecera de todo.

Mas numa tarde de fins de Março de mil quinhentos e doze, quando saía de casa com o marido a caminho do Paço, viu um homem magro, de olhar fixo, passar do outro lado da rua com um volume de folhas debaixo do braço. Era Pedro Damião. Maria sentiu que a sombra toda do mundo lhe corria no sangue, e desfaleceu nos braços de Fellipe Gonsalves.

6.
Nesse mesmo ano foi publicado em Lisboa um tratado de xadrez da autoria de Pedro. O seu nome começou a ser referido na corte com admiração. Dizia-se que D. Manuel aprendera o jogo, que treinava com persistência a defesa contra o ataque de cavalo ao peão do rei preto e que manifestara o interesse de conhecer o antigo boticário. Mas Pedro tinha partido para Itália, e a hierarquia religiosa suspirado de alívio, longe que estava de partilhar pela personagem o entusiasmo de Sua Majestade.

Em mil quinhentos e quinze o tratado de Pedro foi traduzido em Itália. Poucos anos depois, visitantes ilustres traziam à corte traduções francesas e inglesas, e faziam perguntas sobre o inestimável autor. O prestígio de Maria Gonsalves subia paralelamente ao interesse pela obra de Pedro, a quem agora chamavam Damiano, ou Damiano de Odemira. Fellipe não se cansava de repetir a profunda amizade que o ligara ao boticário, visita quotidiana da casa do sogro. «De resto», acrescentava, «foi aqui a minha esposa que lhe ensinou a mexer as peças».

7.
Em mil quinhentos e vinte e seis, numa dessas reuniões arrastadas em que se disputavam concursos poéticos e uma dama de vestido amarelo perorava em latim, grego, aramaico e siríaco, Maria Esteves conheceu Francisco de Sá de Miranda, recém-chegado de Itália. O poeta deixaria Lisboa alguns dias depois, e confessava o seu cansaço das coisas mundanas, dos vilancetes repentistas do Paço, do espectáculo triste das alegorias e paródias. «Os trabalhos agrícolas são dos poucos refúgios dignos para os homens do século», dizia então.

A meio da conversa, Sá de Miranda referiu-se a um brilhante espírito que conhecera em Itália, e o coração de Maria, já pouco afeito à surpresa e ao sobressalto, bateu de novo descompassadamente. O poeta descobriu no seu rosto, por detrás da ténue sombra que o ofuscava em tragédia, uma estranha, perturbante e comovente beleza. Falou-lhe de Pedro Damiano com satisfação: que era invencível no jogo do xadrez, que era um matemático brilhante, que se dedicava à observação e descrição dos astros, que Miguel Ângelo o procurara para receber conselho sobre a resolução de problemas arquitectónicos do projecto da Basílica de S. Pedro, que publicara um inestimável opúsculo em que propunha correcções a algumas asserções do tratado De Prospectiva Pingendi, de Piero della Francesca.

Fellipe Gonsalves, a caminho de casa, repreendeu-a severamente: não gostava de ver a esposa metida a conversas com cavalheiros, ainda por cima tratando-se de um poetastro sem mérito que recebia a condescendência polida da Corte.

8.
Os problemas de locomoção de Fellipe Gonsalves acentuavam-se. As suas passadas eram agora mais trágicas do que cómicas, e a bengala de punho de pérola transformara-se num auxiliar inseparável. No dia vinte e quatro de Julho de mil quinhentos e vinte e oito partiu numa excursão pelos arredores de Odemira. Na Enseada dos Mouros, a cerca de três léguas da vila, sentiu que a salsugem o inebriava. Estava um dia agradável, com uma aragem ligeira que dilatava as narinas dos cavalos e os desviava da sombra larga dos sobreiros. Sentado numa pedra sobranceira ao fio de água marcado pelos caules dos juncos, Fellipe anunciava à esposa que decidira ficar em Odemira: partiriam para Lisboa no fim de semana, arrumariam os negócios pendentes e regressariam de vez.

O rosto de Maria abriu-se num sorriso quase infantil, e o coração bateu-lhe de novo. Afastou-se numa corrida a repetir às amigas a promessa de Fellipe Gonsalves. E já não viu a bengala do marido a resvalar no solo arenoso, a perna esquerda a dobrar-se num ápice pelo joelho, o corpo a inclinar-se, e os braços, inúteis, a esbracejar na crista duma arriba de trinta e cinco metros, antes de cair num grito abafado pelo som das ondas a desfazerem-se de encontro às rochas.

9.
O pai de Maria Gonsalves, agora Maria Esteves de novo, morreu dois meses depois, num delírio arrastado em que resumia imprecações contra D. Manuel e D. João terceiro e repetia vivas a Sua Real Majestade D. João segundo. Os sucessores do Príncipe Perfeito deixavam-lhe memória fraca, a da vileza e do lucro fácil, do esplendor postiço dos palácios, do abandono da terra, da dissolução dos costumes.

A mãe quedou-se numa estática mudez. Não dava ordens na cozinha, largou os panos, deixava-se arrastar à igreja sem entusiasmo, os olhos perdidos num horizonte indefinido. Uma única vez por dia, pelo fim da manhã, atava o cabelo, ajoelhava diante do oratório, rezava a S. Teotónio e repetia invariavelmente a sua versão da história do santinho nascido em Tardinhade, concelho de Gafei. Ficava-se então a saber que D. Afonso Henriques não empreendia cerco ou batalha sem que previamente o procurasse para um conselho definitivo. Mas antes ainda do relato se aproximar dos primeiros anos da independência do Reino, e de Nossa Senhora vir em auxílio de Afonso segurando-lhe na espada, já a viúva de Balthazar caía de novo, por vinte e quatro horas, num alheamento irreal.

De luto carregado, Maria saía apenas para cumprir os deveres religiosos. Tinha quarenta e quatro anos e uma beleza estranha e inverosímil que parecia apurar-se com a idade e as contrariedades do mundo. Os homens desejavam-na, mas simultaneamente a temiam num pressentimento de desgraça. Algumas amigas a visitavam por vezes, encantadas com a sua elegância sem ostentação, o seu conhecimento das coisas do mundo. Mesmo quando a encontravam com vestidos de serguilha, guardando um púcaro na estante ou trazendo do pátio um cântaro com água ferrosa contra o parecer de Felícia, era como se em seu redor descobrissem o odor de desconhecidos aromas, o peso real de objectos ou matérias distantes e inacessíveis, o aljôfar, o chumbo da Cantábria, o arame de Flandres, as alcatifas da China, o coral de Marselha, o marfim do Brasil, as telas da Pérsia, as lãs da Calábria, os vidros de Veneza, o alabastro de Nápoles.

Tantos anos depois, não se passava um dia sem que Maria recordasse a voz, o rosto, as mãos de Pedro, Pedro Damião, Pedro Damiano.

10.
No dia dezassete de Fevereiro de mil quinhentos e trinta, com cinquenta e um anos, Pedro regressou a Odemira. Encontrou o padre Thome a caminho da igreja. O clérigo surpreendeu-se com a alegria que transparecia do seu rosto. «É a paz, Thome. A paz que finalmente encontrei.»

Thome pediu desculpas pela delação antiga que o haveria de marcar como um ferro. Mas Pedro sorria. «Eu é que traí. Eu é que lhe peço desculpa.» «E já não procura, Pedro, num Número, num Jogo, ascender à presença de Deus?» «Algumas pessoas encontraram faces desse Número que eu também procurava. Mas depois de muitos anos compreendi que o número de faces desse Número aumentava à medida que se descobriam novas faces.» «Que Deus se distanciava, portanto.» «Não exactamente, Thome. Sinto-me mais próximo de Deus. Mas sei agora que os sinais que procurava decifrar não podem nunca levar a esse Número. São apenas reflexos do Número. Aproximações. Mais nada. Numa única partida de xadrez é infinito o número de variações. E no entanto dispomos apenas de vinte possibilidades para iniciar a primeira jogada. Sei agora, portanto, que Ele é o Número.» «Sabe que me sinto feliz com as suas palavras?»

Pedro sorriu de novo. Como era bom regressar a Odemira, olhar em paz o voo das aves, o remanso das águas do rio, o ligeiro movimento da maré, os caules ocos da margem, o ondulado recorte do horizonte.

«Não tome estas palavras por uma nova heresia, Thome», disse então, pensando em Maria Esteves, «mas às vezes penso que Deus nos deveria conceder, pelo menos uma vez na vida, a possibilidade de uma segunda escolha.»

11.
Pedro Damiano não encontrou mais ninguém antes de entrar na velha casa quase em ruínas e se estender numa manta de lã. Dormiu durante noventa e seis horas num sono corrido em que as imagens da sua vida, numa invertida cronologia, lentamente lhe passavam diante dos olhos e logo se apagavam, do presente em direcção ao passado, a conversa com o Padre Thome nessa manhã de mil quinhentos e trinta, primeiro, e depois uma viagem pelo mar, uma casa em Itália, uma paisagem de ciprestes, uma gloriosa partida simultânea em Verona, a Basílica de S. Pedro, uma visita de Vittoria Colonna e Miguel Ângelo, um tabuleiro, de novo, e nomes de muitas noites a olhar o céu, perseus, canes venatici, aldebaran, centaurus, ursa minor, vega tucana, ophiuchus, eridanus, piscis australis, uma outra viagem pelo mar, a entrega do manuscrito do seu tratado numa oficina de Lisboa, e depois uma noite em Odemira redigindo páginas sobre o gambito em que se sacrifica um cavalo, uma visita a casa do mestre-banheiro Alvaro Correa, a vitória sobre o corregedor, as trinta e duas peças esculpidas em casca de sobreiro, uma tarde húmida e espessa marcada pelo odor da canela e da cal amassada de fresco, as lágrimas de Maria na margem do rio, os barcos subindo desde a foz com a maré, o dia de S. Bartolomeu, o jantar em casa de Balthazar, o sorriso de Maria trazendo para a sala o tabuleiro de xadrez, as suas faces rosadas do licor, o jantar, os trabalhadores limpando as ervas e o mato dos caminhos e testadas.

Quando acordou, vinte e oito anos antes, o sol entrava pelo rectângulo da janela. Vestiu-se, arrumou alguns frascos caídos no chão, leu duas páginas do tratado de Konrad von Megenberg, saiu para passear junto ao rio.

À noite, nessa noite de mil quinhentos e dois, jantou em casa de Balthazar Esteves. No fim da refeição, em seguimento a um licor que a enrubesceu ligeiramente, Maria Esteves perguntou aos cavalheiros se não estariam interessados em aprender um jogo quase desconhecido em Odemira.

Pedro Damião mal podia suspeitar que Deus lhe concedia nessa pergunta a oportunidade de, pela segunda vez, decidir o seu destino, escolher o seu futuro.

12 Comments:

  • Zé Carlos
    Ainda estou boquiaberto. Isto é um grande trabalho de reconstituição histórica e de um conhecimento aprofundado de Odemira, suas gentes e costumes, além de uma criatividade ficcionista que me surpreende, apesar do elevado conceito em que te tenho.
    Li-o de um fôlego e corri a escrever-te.
    Um grande abraço.

    By Blogger António Baeta, at 5:06 PM  

  • Subscrevi as palavaras do António.Uma bela narrativa.

    By Blogger Amélia, at 10:53 AM  

  • Para poder ler-te assim, como acabei de fazer; e tudo, na verdade, tudo o que aqui deixas escrito, eu desejava-te uma vida para sempre.

    By Anonymous Amotinada, at 1:27 PM  

  • Zé Carlos, excelente mate em onze lances. Gostei bastante de ler.

    By Blogger Luís N, at 3:15 PM  

  • Só não percebo como é que não há ninguém de nenhuma editora que não te diga: Arquitecto, tome lá 10000 continhos, tire um ano de licença sem vencimento, e, escreva-me aí qualquer coisa entre as 100 e as duzentas páginas, se faz favor.
    A meio da leitura do texto, estava tão embrulhado na qualidade da escrita, de repente, lembrei-me que o texto era teu, e não de um mestre russo ou de um novel da américa latina!
    Esses editores andam mesmo a dormir!!
    luís

    By Anonymous Anônimo, at 8:52 PM  

  • Há uma certa névoa que envolve todo esse conto. Que belo conto.
    Não foi à toa que deixei um comentário sobre José Carlos Barros no blog do Amarar, no post The Wunderblogs.
    Agora, detalhe: por quê, José Carlos, escolheste o dia 29/02/1503 para que Pedro levasse a Álvaro o Das Buch der Natur?

    By Blogger Santos Passos, at 1:36 AM  

  • "Uma vida duas vezes" não chegou a ser editado?

    "Arquitecto, tome lá 10000 continhos, tire um ano de licença sem vencimento, e, escreva-me aí qualquer coisa entre as 100 e as duzentas páginas"

    subescrevo com um aumento:
    a tua arte deve valer mais de 60000€ ano

    By Anonymous Anônimo, at 12:54 PM  

  • jcb, faço minha a ausência de palavras dos restantes!

    By Blogger o net pulha, at 4:50 PM  

  • ...os que ainda estão boquiabertos com esta pequena pérola!

    By Blogger o net pulha, at 4:50 PM  

  • deve doer a alma a quem escreve assim. a mim doi-ma, de te ler assim!
    um grande beijinho, jcb!

    By Blogger S.P., at 10:09 PM  

  • Conheço este texto desde 2001 ou 2002. É um dos melhores que já li! Une várias das minhas paixões: a língua portuguesa bem usada, a matemática, o xadrez e o paradoxo temporal. Gostaria de confirmar o nome do autor e a autorização para postar no meu blog.

    By Blogger Rewbenio, at 4:08 AM  

  • Este comentário foi removido pelo autor.

    By Blogger Rewbenio, at 4:09 AM  

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